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Caminhos para uma transição energética justa e segura

Eduardo Miranda
Sócio fundador da Mercúrio Partners e Conselheiro Executivo da TYR Energia

Publicado em: 23/05/2024 03:00 Atualizado em: 23/05/2024 00:28

A transição energética é um tema central na agenda global, com países buscando reduzir sua dependência de combustíveis fósseis e promover fontes de energia mais limpas e sustentáveis. No contexto brasileiro, essa transição ganha relevância não apenas como uma necessidade ambiental, mas também como uma oportunidade para impulsionar o desenvolvimento econômico e social.

De acordo com dados do Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (SEEG), três quartos das emissões brasileiras em 2022 foram provenientes de mudanças no uso da terra (48%), que incluem desmatamento, e da agropecuária (27%). O setor de energia respondeu por 18% do total das emissões. Desse montante, a maior parcela refere-se ao transporte (52,6%) e somente 9,7% à geração de eletricidade. [1]

Com base nesses dados, poderíamos até concluir que a eliminação do desmatamento na Amazônia seria o bastante para cumprirmos as metas estabelecidas no Acordo de Paris. Mas a expansão da demanda por energia, devido a fatores como crescimento populacional e econômico, aumento da sensação de calor e a eletrificação da frota de ônibus e automóveis, nos obriga a olhar com cuidado para o futuro do setor elétrico e seu impacto nas metas climáticas brasileiras.

Quando o assunto é eletricidade, uma das chaves para a sustentabilidade é a geração por fontes renováveis, como solar e eólicas. Porém, o caráter variável das renováveis requer mecanismos de backup, prestados, historicamente, pelas usinas hidrelétricas. Como não há expectativas de construção de novos grandes reservatórios, o incremento de fontes intermitentes exige alternativas que reduzam o nervosismo do sistema.

É nesse contexto que as usinas termelétricas a gás natural ganham relevância. Elas podem prover o sistema de flexibilidade e outros serviços de segurança com emissões de gases de efeito estufa muito inferiores aos níveis de emissões do carvão ou diesel. A redução do uso de combustíveis fósseis passa pela substituição e adoção do gás natural como combustível de transição para sistemas renováveis e seguros.

No longo prazo, por ainda ser um combustível fóssil, o gás natural deverá contar com mecanismos de captura de carbono ou compensação de suas emissões para poder estar alinhado com um contexto pós-transição energética e de resiliência climática.

Além disso, o país deve aumentar gradualmente a participação do biometano em sua matriz energética. Este gás é obtido da decomposição biológica de produtos ou resíduos orgânicos e possui um impacto ambiental significativamente menor que o gás natural de petróleo, pois sua produção e consumo emitem 10 vezes menos gases de efeito estufa do que o combustível fóssil e contribui para o aproveitamento de recursos renováveis. [2]

Por ter características idênticas ao gás natural de petróleo, o biometano pode ser misturado a seu equivalente de origem fóssil numa rede de gasodutos, nos canos de casas e empresas e até nos tanques de veículos que utilizam gás de petróleo.

O mercado de energias renováveis no Brasil cresce a um ritmo acelerado, fomentado principalmente pelo desenvolvimento do mercado livre de energia%u0702Nesta modalidade, as empresas escolhem seus fornecedores de energia e negociam contratos diretamente com eles, o que estimula a competição e a inovação, criando incentivos para o investimento em fontes limpas.

O mercado livre de energia também promove a eficiência e o uso racional dos recursos, incentivando a adoção de práticas sustentáveis de consumo de energia. Os consumidores podem tomar decisões sobre seu consumo de energia, até mesmo em tempo real, graças a inovações tecnológicas como os medidores inteligentes. Essa descentralização do sistema reduz a dependência de grandes usinas e redes de distribuição centralizadas.

O Brasil ainda ocupa a 41a posição no ranking que avalia a de liberdade de escolha do consumidor de energia e, entre as 16 maiores economias globais, o país ostenta a 15ª posição no combate ao desperdício de energia. Podemos subir muito em ambos rankings, se tivermos um mercado livre de energia bem regulado, com um ambiente competitivo e propício à inovação, em linha com as melhores práticas internacionais. [3]

O caminho para uma transição energética justa passa pelo desenvolvimento de um setor elétrico que busque tanto a redução nas emissões, quanto a segurança e a estabilidade do sistema. Paralelamente, o florescimento de um mercado livre de energia moderno e competitivo e que empodera o consumidor pode nos transportar para a vanguarda mundial das energias renováveis e da eficiência energética.

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