Diario de Pernambuco
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Um retrato na parede

Manoel Bione
Psiquiatra e jornalista

Publicado em: 21/02/2024 03:00 Atualizado em: 21/02/2024 13:42

Nasci no mato feito lebre. Filho de uma família de catorze irmãos mais um agregado. Logo cedo meus pais resolveram migrar para uma cidade grande. A “cidade grande” aí é Timbaúba, situada na Zona da Mata Norte de Pernambuco. Na realidade, é um município de tamanho apenas mediano. Na época, no entanto, era um dos mais importantes polos de fabricação de calçados do país, ao lado de Franca-SP e Novo Hamburgo-RS. Possuía mais de uma centena de sapatarias, entre familiares, médias e grandes.

Culturalmente, a famosa “Princesa Serrana” também era bem pródiga. Dentre seus filhos, constam nomes como Mário Pedrosa, escritor, jornalista e um dos mais conceituados críticos de arte do país; Jáder de Andrade, poeta e jornalista famoso, que teve uma longa passagem por este Diario de Pernambuco; o grande pintor recém-falecido Montez Magno; o teatrólogo Luiz Marinho, autor de peças antológicas, como “Um sábado em 30” e “Viva o cordão encarnado”, e Ivanilton Lima, que atende pelo nome artístico de Michael Sullivan.

Carlos Drummond de Andrade encerra seu poema “Confidência do Itabirano” com os versos “Itabira é apenas uma fotografia na parede./ Mas como dói!” Apesar de tudo que disse sobre Timbaúba, não possuo um retrato dela na parede, nem tampouco me dói, apesar da saudade que, às vezes, me bate.

Minhas infância e adolescência na cidade foi mais ou menos comum. Escola, brincadeiras. E, à noite, sempre leituras na biblioteca pública (é, seu menino, naquele tempo tinha isso. E com livros de papel!).

Quando fiz 15 anos, a família mudou-se para o Recife. Mas nunca deixei de visitar “Timbaúba dos Mocós”, como era conhecida. Eu passava, quase sempre, as férias na casa de minha irmã mais velha, a quem fui muito apegado. Lá, eu lia muito. Os livros eram, em sua maioria, de autores estrangeiros, como Kafka, Dostoievski, Tchekhov, Goethe... Todos editados pelas Edições de Bolso da Ediouro. Quanto aos autores nacionais, eu só tive o prazer de ler depois. Por uma simples razão econômica. Aqueles clássicos estrangeiros eram bem mais baratos.

Nas férias da faculdade, as visitas escassearam. O programa noturno se resumia a idas ao cinema, à sinuca ou a algum boteco. Levei vários papos com Luiz Marinho. Participou das primeiras apresentações da Paixão de Cristo de Nova Jerusalém. Ele contava histórias curiosas, como a que aconteceu durante uma das últimas cenas do espetáculo. Carlos Reis fazia o Jesus e Diva Pacheco, a Ave Maria. Naquela época, não havia cueca tipo zorba. Então, sob a tanga, Reis usava uma espécie de fraldão improvisado. Na cena citada, o Cristo encontra-se pregado na cruz. Diva, ao olhar para cima e falar: “Filho, o que fizeram contigo?”, nota que o alfinete se soltara e deixara os “países baixos” do ator à mostra. Embora apenas ela visse, por estar olhando de baixo para cima. Diva pronuncia sua fala, mas não consegue conter o riso. Por sorte, o público pensava que ela estava chorando, abraçada à cruz. Ela, só olhava, falava e ria. Até que a produção entendeu a tragédia e retirou o Cristo “morto”, devidamente enrolado em um lençol.
Enquanto Diva saía de cena sob aplausos, pela grande “interpretação”.      

Certa noite, em Timbaúba, resolvi fazer um programa radical. Cismei de ir conhecer a zona do chamado meretrício. Tinha o nome de “O Rosa” (com “o” mesmo). Por “coincidência”, todas as casas eram pintadas daquela cor. Escolhi uma mais iluminada e diferenciada. Me aboletei numa mesa e pedi uma cerveja. Não demorou, uma moçoila puxou uma cadeira. Rindo, pediu licença e foi sentando. E, em seguida, perguntou:

- Posso pedir uma dose?

- Claro!

E começamos aquele papo furado, de profissão, de onde éramos, etc. Nisso, surge de trás de uma cortina de tampas de garrafa, uma senhora de seus 50 anos, peituda, lembrando uma cafetina felliniana. E era a cafetina do pedaço. Me cumprimentou e começou um papo curioso:

- Oi, meu filho, nunca vi você por aqui. De onde você é?

- Morei aqui, em Timbaúba, mas faz certo tempo que moro no Recife.

- Prazer, Penha. E qual é sua graça?

- Manoel Bione.

- Que coincidência! Eu tive um cliente que se chamava Bione e também se mudou pro Recife. Por acaso, você conhece João Bione? É muito parecido com você, só que mais velho. Trabalhava na empresa de ônibus.

- Conheço. É meu irmão.

Ela abriu um sorriso carinhoso e continuou:

- Cadê Joãozinho? Ele foi criado aqui dentro. Era mesmo que ser meu filho.

E o lero rolou com mais alguns pormenores. Tomei mais uma cerveja, paguei e saí por ali, rindo sozinho.

Na minha maldade incurável, já no Recife, esperei um almoço de domingo. Mesa grande. Família reunida. Na primeira oportunidade, narrei, detalhadamente, a aventura vivida n’O Rosa. João, o irmão, foi mudando de cor. Do vermelho, passou para o branco, pulou para o rosa, como a cor do cabaré. E reagiu, com todos os olhares voltados para ele:

- Olhaqui! Eu nunca fui de frequentar zona nenhuma. E aquela Penha não passa de uma mentirosa!

Ao perceber que tinha se traído, abriu uma risada. Acompanhado de todos da mesa. Até meu pai, que era meio sisudo, entrou na gargalhada geral.

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