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Quaresma: para que a história não vire cinzas

Pe. Pedro Rubens
Reitor da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap)

Publicado em: 21/02/2024 03:00 Atualizado em: 21/02/2024 13:42

Começamos a Quaresma, tempo de 40 dias para fazer a memória da caminhada do povo hebreu escravizado rumo à terra prometida e caminho de renovação da esperança para os cristãos. Na quarta-feira de cinzas, ao marcar nossa testa, o celebrante diz: “convertei-vos e crede no Evangelho”. Trata-se, pois, de uma boa notícia, de um tempo favorável, uma nova chance que não deve ser desperdiçada. Nesse sentido, três práticas de conversão são propostas, mas que precisam de ressignificação: a oração, a esmola e o jejum.

Quaresma é um tempo de oração, não apenas para intensificar a prática, mas um tempo para refletir sobre a nossa forma de rezar e de alimentar nossa relação com Deus. Muitos de nós aprendemos a rezar com os nossos pais e avós. Depois, aperfeiçoamos e ampliamos a nossa oração em comunidade, rezando uns com os outros, uns pelos outros. Mas, sobretudo quando se chega em uma universidade, lugar de reelaboração dos conceitos e das concepções, a partir de uma diversidade de saberes e críticas, precisamos aprofundar nossa maneira de rezar e passar a uma fé mais adulta. Sem esse aprofundamento, muita gente perde a fé. Primeiro, porque a fé é uma realidade dinâmica que precisa ir crescendo como o nosso corpo, nossa vontade, nossa inteligência: muita gente fica com a expressão infantil da fé ou, como condenava Jesus, uma fé baseada somente em práticas exteriores, o que pode ser até um contratestemunho para os outros. Em segundo lugar, como diz uma bela tradição da Igreja e da teologia fundamental inspirada na 1ª carta de Pedro: “Precisamos estar prontos para dar razões de nossa esperança, diante de qualquer pessoa que dela nos pedir contas, com mansidão e respeito” (1 Pd 3,15-16). Enfim, a oração é um exercício espiritual e, como diz Santo Inácio de Loyola: “assim como o corpo precisa de exercícios físicos, nós precisamos de exercícios espirituais” para crescer na fé, na esperança e no amor.

A prática antiga da esmola diz respeito à nossa relação os outros, aprendendo o amor a partir dos empobrecidos. Há, porém, um sentido pejorativo e minimalista da esmola de doar qualquer coisa que sobra, uma moedinha, para apaziguar a consciência culpada ou para ser visto. A Quaresma é um tempo de conversão de nossa relação com os outros e, sobretudo, com os que mais precisam de pão, de afeto, de evangelização. Mas, como responder à fome imediata e, ao mesmo tempo, pensar políticas públicas e ações que ajudem a superar a pobreza? Eis o sentido da Campanha da Fraternidade, que nos convida não somente a refletir sobre as nossas falhas pessoais, mas também sobre os pecados sociais e as estruturas geradoras de pecado. Este ano, somos chamados à amizade social, que outra coisa não é que apostar na fraternidade universal, tomando consciência de que todos somos irmãos e irmãs, portanto, filhos e filhas do mesmo Pai que nos ama com o coração de mãe.

A terceira prática proposta como exercício na Quaresma é o jejum. Essa prática não é específica do cristianismo, mas foi ressignificada por Jesus Cristo. Ele, a partir da tradição profética, distinguia qual jejum era agradável a Deus: não se trata, por exemplo, de mortificar o corpo, mas de denunciar as injustiças. Hoje as pessoas são mais sensíveis a fazer dieta que jejum. A dieta, porém, é uma espécie de jejum rígido e até forçado, inclusive como uma questão de vida ou morte, em alguns casos. De certa forma, as pessoas precisam fazer dieta por causa de uma alimentação desregrada ou pouco balanceada, muito industrializada, etc. Chegamos a esse ponto porque não aprendemos as lições que o jejum quaresmal poderia nos ensinar, a saber: como regrar nossas alimentações? Como alimentar-se com o necessário e partilhar o pão com aqueles que passam fome? A rigor, a gente seria mais feliz se fizesse jejum durante quarenta dias (Quaresma) e nos outros mais de 320 dias do ano tivesse uma alimentação saudável. Além disso, porém, jejuar é fazer a experiência da fome e, nesse sentido, uma oportunidade de pensar como superar a fome de tanta gente, inclusive em um país como o nosso, produtor e exportador de alimentos.

Nesse tempo de Quaresma, valeria a pena reler “A geografia da fome”, de Josué de Castro (1946). O autor mostra que a fome é um fenômeno histórico, um “flagelo fabricado pelos homens contra outros homens”, como nos recordou, em palestra na Unicap, o ministro Sílvio Almeida, autor de um inspirador prefácio à nova edição dessa obra clássica, intitulado “Nosso alimento é a esperança”.  Enfim, concluo com uma frase de Padre Arrupe (1907-1991), um grande superior geral jesuíta, em um livrinho intitulado “Fome de pão e evangelização” (Loyola, 1977): “Enquanto houver fome em alguma parte do mundo, nossa eucaristia será incompleta”. Frase forte que pode nos fazer pensar durante esse tempo quaresmal, recordando, igualmente, o lema do 18º Congresso Eucarístico Nacional, realizado em nossa Arquidiocese (2022): “Pão em todas as mesas.

Que possamos fazer desse tempo de Quaresma um momento favorável de aprofundamento do sentido de nossa existência, da importância do outro em nossas vidas e de maior familiaridade com Deus. Assim seja!

Pe. Pedro Rubens, SJ

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