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Opção pela vida

Plínio Palhano
Artista plástico

Publicado em: 26/02/2024 03:00 Atualizado em: 26/02/2024 06:01

Quase todas as experiências humanas são eivadas de dosagens de dor. Basta olhar a paisagem contemporânea dos vários conflitos que provêm desse fenômeno humano para constatarmos o quanto nele se arrastam as multidões envolvidas na fome, nas guerras, nas doenças propagadas, nos governos corruptos, nas ditaduras mascaradas, na política que trabalha só para conquistar o poder e que esquece as verdadeiras necessidades dos governados.   São um oceano as variações em que se encontram os humanos nesse charco de dor. Cada criatura se identifica ou se encontra compulsoriamente no cadinho da realidade pessoal.

Mas todos estão incluídos num grupo específico. O meu foi saber, nos últimos anos, um diagnóstico oncológico por um médico do plano de saúde, de atendimento rápido, que me disse: “O senhor sabe o que é mieloma múltiplo? Pois saiba: é uma doença que não tem cura”. Disse sem rodeios! Essa primeira notícia me deixou abatido, como é natural nesses casos. Comecei a pesquisar sobre o assunto e quanto mais me aprofundava mais descia as regiões infernais.  A partir daí, começaram as infindáveis sessões de radioterapia e, depois, de quimioterapia. Foi quando também convivi com os colegas de vários diagnósticos. As pessoas podem pensar que são ambientes de tristeza ou desamparo. Mas, surpreendentemente, encontrei gente bem-humorada que também estava interessada em suplantar esses entraves. Nós nos consolávamos naturalmente com boas conversas e, às vezes, com risadas que ressoavam pela sala de tratamento oncológico. A capacidade humana de superar as dificuldades faz parte da sua vocação. Existem forças que são automáticas e reagem como instinto natural dentro da alma, e julgamos ser algo também divino, para reforçar a energia em nossa estrutura tão frágil, como afirmando que podemos reagir de forma prodigiosa; não é coisa racional, mas fortemente intuitiva...

Após longas sessões de quimioterapia e radioterapia, os médicos que me assistiam, passo a passo, decidiram solicitar o ponto alto do tratamento: o transplante de medula óssea...  Tudo era novo para mim, e segui as orientações como se estivesse em ondas à beira-mar: vem uma, bate de cheio, e vem outra para testar as forças. Daí seguiram exames infindáveis e extenuantes que testavam a paciência – aliás, o nome “paciente” tem todo o sentido para identificar aquele em tratamento de saúde. Só o do exame da ressonância magnética, do corpo inteiro, foi dividido em duas sessões, cada uma de 3 horas de duração. Fiquei totalmente paralisado durante o tempo desse exame.

Com a determinação de minha médica particular, Dra. Carolina Militão, foi solicitado, e consolidado pelo plano de saúde, representado por um dos hematologistas que me assiste, no Recife, Dr. Ícaro Félix, o Transplante de Medula Óssea (TMO), que seria realizado em Fortaleza, no dia 04 de dezembro de 2023, sob a liderança do Dr. Emmerson Eulálio, responsável técnico pelo setor do TMO, do Hospital Antonio Prudente, com a assistência dos hematologistas Dra. Tiemi Okamoto, Dr. Emmanuel Maurício e Dra. Zoélia Ratts (hematologista clínica) e da enfermeira Josefa Souza Braga, que comanda, com competência e delicadeza, a equipe de enfermagem, com a nobre participação das enfermeiras auxiliares, que agiram com disciplina e atenção ao paciente de forma exemplar e técnica.

Existem três tipos de transplante: o autogênico, aquele que é retirado, anteriormente, do próprio sangue do paciente para selecionar as células que serão utilizadas para o transplante; o alogênico, que necessita do sangue de um doador, e este é que fornecerá as células saudáveis suficientes para consolidar o transplante; e o singênico, o transplante de medula óssea entre univitelinos.  O meu foi autogênico: nele, portanto, sendo utilizadas células do meu sangue para o transplante. No dia agendado, estavam presentes a Dra. Tiemi, que coordenava o processo, a enfermeira Josefa, que liderava os trabalhos de enfermagem, e o Dr. Emmerson, que monitorava o procedimento em outra sala. Tudo ocorreu perfeitamente, sem intercorrências que prejudicassem o primeiro passo para o transplante.

A parte difícil ainda viria com as reações químicas no organismo para ajustar as células e consolidar o transplante da medula óssea. Como se todas as formas orgânicas trabalhassem para predominar sobre aquelas células selecionadas e realizar uma nova medula. As reações, não vou relatar porque são inúmeras... O importante é que finalmente as células encontraram o caminho da medula óssea e formataram uma nova. É claro que tenho confiança na ciência médica, à qual sou grato, por intermédio dos médicos estudiosos presentes em todo o processo do transplante, que realizaram um trabalho excelente e bem-sucedido no meu caso e de muitos outros pacientes, mas não posso esquecer a fé na força espiritual, que foi suficiente para que tudo desse certo, dando-me a oportunidade, Deus e o Universo, de mais alguns anos de vida.

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