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O V Congresso de Jornalistas de Portugal e os 200 anos do Diario de Pernambuco

Marcus Prado
Jornalista

Publicado em: 19/02/2024 03:00 Atualizado em:

Chego (quase) a dar razão a Martin Heidegger (1889-1976), o maior filósofo do século em que viveu, cuja vida e obra são motivo de críticas e controvérsias, quando disse num encontro de amigos, que “os congressos são inúteis, tudo isso é demasiado inútil e cansativo — principalmente porque não acho que congressos, ainda mais de filosofia, tenham qualquer serventia”. (Há, no filósofo alemão, a questão heideggeriana do ‘ser’ e as transformações no ambiente midiático). 
Há exceções, dependendo de quem faz, se tem competência e credibilidade, do temário e do momento histórico, politico e econômico em que a causa da liberdade de expressão, nas várias dimensões, seja onde for, acha-se ameaçada.  Veio de Portugal, há poucos dias, o relatório final de um congresso de jornalistas que deu certo e cumpriu pontualmente o seu objetivo, o V Congresso dos Jornalistas, com a finalidade de “encontrar soluções” para o futuro de um setor que está vivendo a pior fase da sua história (não só naquele país). Foi dito que as soluções existem, desde que haja criatividade para encontrar os caminhos das propriedades restauradoras, em outras palavras: vontade de superação & força de equalização dos desafios.
A iniciativa, de âmbito nacional, foi orquestrada pelo Sindicato dos Jornalistas, Casa da Imprensa e Clube dos Jornalistas de Portugal. A crise econômica em vários países tem levado ao enfraquecimento do jornalismo tradicional e isso pode ser usado por quem produz desinformação para ganhar poder e para destruir a democracia.  Esta foi a chave dos debates, assim como, também, pelo que se torna grave e preocupante, os comentários sobre o contínuo esvaziamento das redações, fato que tem preocupado, como jamais visto na capital portuguesa e nas suas províncias. A transparência, que é um pilar da democracia, foi um dos assuntos mais debatidos dentro e fora do certame que reuniu centenas de jornalistas e dirigentes. Durante o evento (assisti à boa parte pelo You Tube), foram apresentadas 23 moções sobre temas que mais preocupam a classe profissional nos dias atuais. Diversidade, a perda de credibilidade cada vez mais questionada, a crise ética, problemas de governança no jornalismo, fuga de anunciantes, incentivos governamentais com liberdade de expressão. Na pauta, entre outros temas da realidade do país luso: a Extrema-direita e o jornalismo; além da proliferação de produtores de conteúdo na internet; a ameaça (ou oportunidade) da inteligência artificial; a crise do ensino acadêmico e a formação de novos jornalistas. Foi dito que a precariedade laboral, que adquire as mais diversas formas e tem vindo a acentuar-se, compromete seriamente a independência de jornalistas e a sua liberdade de informar. A saúde mental dos profissionais esteve na base de uma moção aprovada, que pediu a gratuidade de consultas em psicologia para jornalistas de Portugal: “quase 50% tem níveis elevados de esgotamento e cerca de 20% está já em exaustão profissional.”  
A passagem, em 2025, dos 200 anos do Diário de Pernambuco, não deixa de ser motivadora de um grande congresso de jornalistas como o de Lisboa, enseja a pertinência de discussões. A data é de tamanha grandeza, não só pela história do jornal de dois séculos de existência ininterrupta, portanto, único na América Latina, a inspirar, entre as celebrações, um grande debate em nível nacional sobre os desafios da Imprensa no contemporâneo: o sentimento que motiva os jornalistas em face de incógnita da sustentabilidade financeira e o fortalecimento das mídias alternativas.


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