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Democratização da leitura e da escrita

Patricia Gonçalves Tenório
Escritora, possui 30 livros publicados. Premiada no Brasil e no exterior, é criadora do Projeto Literário On-Line Estudos em Escrita Criativa. Graduada em Ciências da Computação (Unicap), mestre em Teoria da Literatura
(UFPE) e doutora em Escrita Criativa (PUCRS)

Publicado em: 26/02/2024 03:00 Atualizado em: 26/02/2024 06:01

Entre 2002 e 2004, tive uma livraria especializada em artes no bairro do Pina, Recife, Pernambuco, a Domenico Livraria. Possuíamos livros de diversas áreas de arte, tais como, artes plásticas, fotografia, cinema, teatro, culinária, mas, principalmente, é claro, literatura e poesia.

Não fui sempre uma leitora clássica, ou como dizem, tradicional. Sempre li muito, alguns clássicos, feito Vinicius de Moraes e Cecília Meirelles, mas, principalmente, bestsellers do tipo Agatha Christie, Sidney Sheldon, J. M. Simmel. Estes eram livros caudalosos, mas não enquadrados nos cânones reconhecidos pelas instituições e academias literárias. E um dos maiores incômodos que eu tenho, desde a época da Domenico, e ainda hoje, como escritora,
professora de Escrita Criativa (e editora esporádica) é o julgamento dos escritores tradicionais em relação a que tipo de livros se deve ler ou vender em livrarias feito a minha.

Possuíamos uma sessão somente de histórias em quadrinhos, jornais e revistas de variedades. Os meus bestsellers estavam todos lá, em prateleiras vizinhas, e quando me perguntavam por que eu os possuía e expunha em uma sessão de destaque, notando o tom de desprezo dos escritores tradicionais, eu respondia:

– Não importa por onde captemos quem lê. O que importa é a leitura. Sim, depois podemos apresentar outros suportes, livros, autores a quem lê e ir engrandecendo o seu vocabulário, e ampliando o seu repertório, até que a pessoa que lê seja fisgada pela literatura, pela poesia, e mesmo pela escrita, e nunca mais consiga viver um só
dia sem ler e escrever.

O mesmo ocorre com outras formas de expressão. Apesar de graduada em Ciências da Computação (Unicap, 1991), costumo dizer que estou me tornando cada vez mais jurássica, quando, por exemplo, reservo ao menos um dia por semana para não chegar perto das telas de celular e computador. Mas não é por causa disso – dessa desintoxicação saudável que precisamos fazer de vez em quando –, que não reconheça o valor das redes sociais. É nesse meio que, hoje em dia, os jovens têm acesso a indicações de clássicos da literatura universal, mas também aos contemporâneos, aqueles e aquelas que, de outra maneira, não teriam chance de se expor – e de se expressar – no mundo. E isso me agrada, me faz lembrar da desvalorizada prateleira de HQs, e jornais, e revistas de variedades, e autores nem tão canônicos assim que eu salvava, entre 2002 e 2004, diante dos escritores consagrados na minha livraria.

Costumo dizer que tudo já foi escrito, mas não com a nossa subjetividade, nossa leitura de mundo e de livros. Se as redes sociais podem provocar a democratização da leitura e da escrita em um país como o nosso que lê cada vez menos – apenas 5 livros por ano –, então sejamos inteligentes, juntemos esforços, apesar de nos considerarmos pessoas jurássicas, atualizemos as técnicas e os suportes para alcançar jovens leitores e leitoras, e com isso,
quem sabe, auxiliar suas mentes a pensamentos próprios e originais.

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