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De lá do fundo do baú

Vladimir Souza Carvalho
Membro das Academias Sergipana e Itabaianense de Letras

Publicado em: 24/02/2024 03:00 Atualizado em: 24/02/2024 05:35

A escuridão era violada pelo farol dos veículos a invadir o quarto. Eu, deitado, acompanhava a movimentação das sombras que a luz desenhava nas paredes do quarto. A passagem destes lá fora, vindos da Rua das Flores ingressando na Rua do Sol, não era constante. A tribo tinha poucos veículos, mas havia sempre um que fazia essa travessia que eu percebia do meu berço. Sim, do meu berço, que Bosco herdou de Alba, e eu, o Benjamin, herdei de Bosco, me apressando para esclarecer que só aos cinco anos passei a dormir em cama, na condição de morador do sítio de vovô Aristides. Então, os poucos e raros veículos passando, a luz que entrava no meu quarto e as sombras que andavam pela parede, se elevavam a condição de minha diversão antes de pegar no sono. E aí, bem, aí o mundo se acabava porque só me acordava no outro dia pela manhã, a preocupação de papai de deixar acesa no quarto uma pequena lâmpada.

Ocorreu um relativo intervalo – mudança para o sítio, seguida da ocupação de uma casa que, pela posição geográfica, não recebia luz dos carros, até voltar ao velho ninho da Rua do Sol – e eu aprendi a trabalhar com as mãos na formulação de sombras que imitavam pássaros voando e objetos outros que a memória não guardou. As mãos entrelaçadas, no movimento para cima e para baixo, fazendo surgir na parede um pássaro em pleno voejar. A atenção não se voltava mais para os veículos vindos da Rua das Flores. O momento já era outro e a posição dos aposentos foi alterada, a luz dos carros não chegava mais ao que me foi reservado, a mim e a Bosco.

Depois não é só um advérbio de tempo, mas um enorme espaço a englobar outras manias, novidades que surgiram, hábitos novos adquiridos, alguns que ficaram para trás, bem escondidos, enrodilhados nos subterrâneos da memória, para, aqui e acolá, colocarem a cabeça para fora, porque não morreram totalmente, e, justamente entre eles o de acompanhar as sombras que os veículos provocavam e o uso das mãos para criação de pássaros, a planar nas paredes dos quartos, brotando, na sequência, lá fora, as brincadeiras de transformar o pau de vassoura em cavalo, a manga peca em boi, o carretel de linha em soldado, a bola de gude em bala de canhão, o milagre do revólver de madeira sair bala na imitação de som similar ao disparo, e outros e tantos outros, que, de vez em quando botam a cabeça de fora, como defunto que choraminga por uma reza, ao que tudo assisto e presencio, os tempos de menino ficam cada vez mais distantes, a se perder na curva dos tempos onde meus olhos não conseguem mais enxergar.

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