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O negrinho de Apipucos

Doris Gibson
Jornalista
opiniao.pe@diariodepernambuco.com.br

Publicado em: 27/11/2019 03:00 Atualizado em: 05/12/2019 14:32

No Casarão de Apipucos – hoje Fundação e Museu – tempos atrás, o Mestre Gilberto Freyre começou a merecer a visita de uma criancinha negra, que simplesmente aparecia dentro de casa, ninguém sabe como nem vindo de onde.

A princípio, a família não acreditava na veracidade da aparição; achava que era mais um chiste do autor de Casa Grande & Senzala, que era dado a tiradas de humor.

Com o passar do tempo, Gilberto procurava ficar sozinho em certos horários e lugares da casa, quando alegava estar recebendo a visita do seu improvável amiguinho.

A família então decidiu observar, disfarçadamente, aqueles momentos em que o Mestre exigia privacidade.

De início, só ele tinha a faculdade de enxergar seu visitante, que era muito arisco, embora atrevido; segundo Gilberto, ele aparecia pelos cantos mais distantes, digamos, do alpendre, onde o Mestre esperava o menino deitado na rede; a criança ia se aproximando fazendo-lhe festa e chegava mesmo a balançar-lhe a rede.

Foi pelo movimento da rede que a família teve certeza de que algo estava acontecendo, embora todos continuassem a não ver ninguém.

Pela descrição do Mestre, o visitante era um piá de uns seis a sete anos; pelas características de raça e indumentária, devia datar de mais de um século. Gilberto teria se tomado de afeição pelo menino e começou a cultivar com ele uma boa amizade.

Depois de certo tempo o menino já atendia quando o Mestre o chamava. E fazia-lhe muitas graças, entre as quais, balançar a rede mais depressa ou mais devagar, segundo os pedidos que recebia.

A presença do negrinho tornou-se tão comum no Casarão de Apipucos que, aos poucos, ele começou a ser visto por todos os membros da família e a tornar-se um conviva quase normal. Todos lhe tinham afeto e se divertiam com ele, enquanto o menino mostrava-se cada vez menos arredio e mais à vontade entre todos, sendo que com o Mestre, ele era íntimo.

A notícia do visitante do além transbordou para os amigos de carne e osso. Alguns manifestaram o desejo de comparecer à casa, para conhecer o fenômeno. A família começou a preocupar-se: já pensaram, visitação ao Casarão para conhecer o espírito desencarnado de um menino?

O fato causou escândalo entre os amigos católicos e espíritas, que iniciaram a doutrinação de Gilberto, tentando convencê-lo da extrema crueldade que era manter uma criança desencarnada há mais de um século nesta terceira dimensão; não foi fácil; o Mestre não se sentia culpado, afinal, o menino viera a ele de vontade própria e Gilberto nada fizera além de acolhê-lo com simpatia; além disso, achava que o menino era muito feliz.

A catequese continuou implacável e a moral cristã foi vitoriosa; finalmente convencido de que seria justo libertar a criança, para que ela seguisse sua trajetória evolutiva, o Mestre chamou um pároco de sua confiança para celebrar uma missa no Casarão, em intenção da alma do seu amiguinho.

Para tristeza e saudade de Gilberto Freyre, depois da missa, nunca mais o negrinho apareceu.

Este caso me foi relatado por Fernando Freyre e Kika, durante uma festa de São João no Engenho Massangana.

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