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ASSASSINATO

Assassinato de Abe chama atenção para relações entre políticos japoneses e a seita Moon

Por: AFP

Publicado em: 29/07/2022 11:11

 (Foto: Kazuhiro NOGI / AFP)
Foto: Kazuhiro NOGI / AFP
O assassinato do ex-primeiro-ministro japonês Shinzo Abe por um homem ressentido contra a Igreja da Unificação, conhecida como a seita Moon, destacou os laços políticos dessa organização controversa. 

Segundo a polícia, Tetsuya Yamagami atacou Abe por acreditar que ele apoiava um "certo grupo" para o qual sua mãe havia feito grandes doações. 

Em carta publicada pela imprensa local, Yamagami acusou Abe de apoiar a Igreja da Unificação, que por sua vez confirmou que a mãe do assassino era uma de suas seguidoras. 

Ex-apoiadores, advogados e acadêmicos que estudam a seita Moon dizem que os detalhes relatados sobre a família de Yamagami se encaixam em um padrão comum no Japão. 

A mãe de Yamagami supostamente se juntou à igreja após o suicídio de seu marido e foi rapidamente absorvida por sua fé. 

Um tio de Yamagami disse à mídia local que seu sobrinho às vezes o chamava para pedir ajuda quando sua mãe deixava as crianças sozinhas e sem comida para ir à igreja. Ela doou 100 milhões de ienes (na época cerca de US$ 1 milhão) para a igreja e depois entrou em falência. 

Tudo isso soa familiar para o advogado Hiroshi Yamaguchi, que representa ex-membros da igreja. 

"Os membros são pressionados todos os dias para doar", disse ele à AFP. "Eles dizem que há um karma ligado ao dinheiro e que (as doações) são a única maneira de se salvar. Então você acha que tem que fazer isso", explicou. 

Oficialmente conhecida como Família das Federações para a Paz e Unificação Mundial (FFWPU), a igreja foi fundada em 1954 na Coreia por Sun Myung Moon e seus seguidores são chamados de "moonies". 

O capítulo japonês começou em 1959 e ganhou impulso com o boom econômico da década de 1980, "uma época em que as pessoas não sabiam como viver suas vidas", disse Kimiaki Nishida, professor de psicologia social da Universidade Rissho, em Tóquio.
 
 
"Distorceu a minha vida"
 
A igreja oferece "vendas espirituais" de bens com preços exorbitantes, como uma estatueta de 42 milhões de ienes (US$ 350.000), dizendo aos crentes japoneses que sua compra absolveria a eles e seus ancestrais. Mas os enormes pagamentos dos membros geraram uma reação negativa. 

A Rede Nacional de Advogados contra as Vendas Espirituais do Japão diz que entrou com processos para recuperar 123,7 bilhões de ienes (US$ 900 milhões) em danos de ex-seguidores desde 1987. 

Uma série de prisões desde os anos 2000 e decisões contra a igreja impuseram limites às vendas espirituais, mas o advogado Yamaguchi diz que os crentes continuam sendo pressionados a cumprir as metas mensais de doação. 

Ele afirmou que a igreja diz a seus membros que "é uma meta decidida por Deus". Mas a igreja nega pressionar seus membros. 

"Nosso critério é que todas as doações para o céu devem ser dadas livremente", disse Demian Dunkley, assessor de imprensa da FFWPU, à AFP. 

"O FFWPU às vezes pede doações, mas os membros do FFWPU decidem se, quando e quanto doar", acrescentou. 

Em 2005, Yamagami supostamente tentou suicídio após a falência de sua mãe na esperança de que seus irmãos recebessem um pagamento de seguro. Seu irmão mais velho cometeu suicídio uma década depois. 

Em uma carta contra a igreja, enviada a um blogueiro um dia antes do assassinato de Abe, Yamagami disse que sua adolescência foi prejudicada pelos gastos excessivos e falência de sua mãe. "A experiência distorceu toda a minha vida", segundo a carta publicada pela imprensa local.

Ex-membros da igreja relataram separações familiares semelhantes, incluindo uma mulher japonesa cuja mãe lhe disse para ficar com um marido abusivo, escolhido a dedo pela igreja, porque o divórcio "agradaria a Satanás". 

"Não posso defender o que (Yamagami) fez, mas é assim que a igreja destrói vidas", disse a ex-membro da igreja sob condição de anonimato em uma recente entrevista coletiva. 
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