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HISTORIA

Pesquisas arqueológicas de 2021 adicionam fatos-chave sobre a evolução humana

Publicado em: 31/12/2021 08:27 | Atualizado em: 31/12/2021 08:54

 (Foto: GIL COHEN-MAGEN)
Foto: GIL COHEN-MAGEN
Um tanto ofuscadas pelas pesquisas sobre a covid-19, as investigações arqueológicas em 2021 foram significativas, com pelo menos duas delas mudando fatos sobre a evolução humana. No fim de junho, uma equipe internacional de cientistas anunciou a descoberta de um novo grupo humano no sítio arqueológico Nesher Ramla, em Israel, semelhante às populações pré-neandertais na Europa. Isso desafiou a hipótese prevalente de que os neandertais se originaram do Velho Continente, sugerindo que ao menos alguns de seus ancestrais vieram do Levante. Dois meses depois, um estudo holandês demonstrou que a expansão do controle do fogo — um dos fatos culturais mais importante da pré-história — ocorreu há 400 mil anos, colocando data em um evento que, até então, parecia esparso.

A identificação de uma nova população humana sugere que dois tipos de grupos Homo viveram lado a lado no Levante por mais de 100 mil anos (de 200 mil a 100 mil anos atrás), compartilhando conhecimento e tecnologias de ferramentas: o povo Nesher Ramla, que habitou a região há cerca de 400 mil anos, e o Homo sapiens, que chegou depois, cerca de 200 mil anos atrás. A descoberta também dá pistas sobre um mistério na evolução humana: como os genes do Homo sapiens penetraram na população de Neandertal que, presumivelmente, viveu na Europa muito antes da chegada dos primeiros? Os pesquisadores afirmam que pelo menos alguns dos fósseis posteriores de Homo encontrados anteriormente em Israel, como os escavados nas cavernas Skhul e Qafzeh, não pertencem ao Homo sapiens arcaico (primitivo), mas, sim, a grupos de linhagem mista de Homo sapiens e Nesher Ramla.

Os fósseis do Homo Nesher Ramla foram datados de 140 mil a 120 mil anos. De acordo com os pesquisadores, a morfologia desses humanos compartilha características com os neandertais (especialmente os dentes e as mandíbulas) e o Homo arcaico (em especial, o crânio). Ao mesmo tempo, esse tipo de Homo é muito diferente do homem moderno, exibindo uma estrutura craniana bem diversa, além de falta de queixo e de dentes muito grandes.

Com a descoberta, os cientistas acreditam que o Homo Nesher Ramla é a fonte populacional a partir da qual a maioria dos humanos do Pleistoceno Médio se desenvolveu. Além disso, eles sugerem que esse grupo é a chamada população perdida que se acasalou com o Homo sapiens recém-chegado à região — há cerca de 200 mil anos — sobre quem já se tem algumas informações, graças a outro estudo recente sobre fósseis encontrados na caverna Misliya, também em Israel.

Com 140 mil a 120 mil anos, os fósseis do Homo Nesher Ramla têm características dos neandertais, como as mandíbulas, e do Homo arcaico, em especial, o crânio
 (Foto: Fotos: Gil Cohen-Magen/Divulgação
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Com 140 mil a 120 mil anos, os fósseis do Homo Nesher Ramla têm características dos neandertais, como as mandíbulas, e do Homo arcaico, em especial, o crânio (Foto: Fotos: Gil Cohen-Magen/Divulgação )
 
O Homo Nesher Ramla foi um ancestral tanto dos neandertais, na Europa, quanto das populações de Homo arcaicas da Ásia. "A descoberta de um novo tipo de Homo foi de grande importância científica. Ele nos permite dar um novo sentido aos fósseis humanos encontrados anteriormente, adicionar outra peça ao quebra-cabeça da evolução e compreender as migrações dos humanos no mundo antigo. Mesmo tendo vivido há muito tempo, no final do Pleistoceno Médio (474 mil a 130 mil anos atrás), o povo Nesher Ramla pode nos contar uma história fascinante, revelando muito sobre a evolução e o modo de vida de seus descendentes", explica Israel Hershkovitz, antropólogo da Universidade de Tel Aviv e líder do projeto.

Tecnologias avançadas
 
O importante fóssil humano foi encontrado por Youssi Zaidner, do Instituto de Arqueologia da Universidade Hebraica de Jerusalém, durante escavações no sítio pré-histórico Nesher Ramla, na área de mineração da fábrica de cimento Nesher, perto da cidade de Ramla. Cavando cerca de 8m, os profissionais encontraram grandes quantidades de ossos de animais, incluindo cavalos, gamos e auroques, bem como ferramentas de pedra e ossos humanos.

A equipe internacional liderada por pesquisadores de Tel Aviv e Jerusalém identificou a morfologia dos ossos como pertencente a um novo tipo de Homo, até então desconhecido pela ciência. "Essa é uma descoberta extraordinária. Nunca tínhamos imaginado que, ao lado do Homo sapiens, o Homo arcaico vagasse pela área tão tarde na história da humanidade. As descobertas arqueológicas associadas a fósseis humanos mostram que o Homo Nesher Ramla tinha tecnologias avançadas de produção de ferramentas e, provavelmente, interagiram com o Homo sapiens local ", conta Zaidner.

Segundo Hershkovitz, a descoberta desafia a hipótese prevalecente de que os neandertais se originaram na Europa. "Antes dessas novas descobertas, a maioria dos pesquisadores acreditava que os neandertais eram uma 'história europeia', na qual pequenos grupos de neandertais foram forçados a migrar para o sul para escapar das geleiras que se espalharam, com alguns chegando à Terra de Israel cerca de 70 mil anos atrás", diz. Os fósseis de Nesher Ramla, por sua vez, sugerem que os ancestrais dos neandertais europeus viveram no Levante há 400 mil anos, migrando repetidamente para o oeste, para a Europa, e para o leste, para a Ásia. "Na verdade, nossas descobertas indicam que os famosos neandertais da Europa Ocidental são apenas os restos de uma população muito maior que viveu aqui no Levante — e não o contrário."

Interações diversas
 
"As pessoas pensam em paradigmas", diz Rachel Sarig, da Universidade de Tel Aviv. "É por isso que esforços foram feitos para atribuir esses fósseis a grupos humanos conhecidos como Homo sapiens, Homo erectus, Homo heidelbergensis ou os neandertais. Mas, agora, dizemos: Não. Esse é um grupo em si, com características distintas, que migrou para a Europa, onde evoluiu para os neandertais clássicos com os quais estamos familiarizados, e também para a Ásia, onde se tornaram populações arcaicas com características semelhantes às do neandertal", aponta.

Segundo Marta Lahr, professora de arqueologia da Universidade de Cambridge que não participou do estudo, a descoberta fornece suporte arqueológico para as estreitas interações culturais e a mistura genética entre diferentes linhagens humanas antes de 120 mil anos atrás. Isso pode ajudar a explicar a grande variação das características dentais e esqueléticas dos fósseis levantinos posteriores. "A interpretação dos fósseis e das ferramentas de pedra de Nesher Ramla recebeu reações diferentes entre os paleoantropólogos. Não obstante, a idade do material de Nesher Ramla, as afinidades morfológicas e arqueológicas incompatíveis e a localização do sítio na encruzilhada da África e da Eurásia tornam essa uma descoberta importante."

Uso do fogo era compartilhado há 400 mil anos 
 (Foto: Leiden University/Divulgação)
Foto: Leiden University/Divulgação
 
A interação com o fogo foi fundamental na evolução cultural humana. Há registros arqueológicos do uso de fogueiras datando de 1,6 milhão de anos. Mas quando isso se tornou amplamente difundido ainda é motivo de debates. Para uma equipe da Universidade de Leiden e da Universidade Tecnológica de Eindhoven, na Holanda, foi há 400 mil anos que o homem dominou as labaredas em todas as partes do planeta habitadas até então. Essa habilidade revolucionaria a cultura, culminando no surgimento do que se convenciona chamar de Homo Sapiens moderno.

Segundo os pesquisadores, enquanto os registros do uso de fogo antes disso são esparsos, a partir de 400 mil anos atrás, vários tipos diferentes de evidências de fogueiras são encontrados em muitos locais, com boas condições de preservação. Curiosamente, isso acontece em uma época geologicamente semelhante em grandes partes do Velho Mundo, na África e na Eurásia ocidental, e em diferentes populações de hominídeos.

A ampla distribuição de um comportamento cultural pode ser explicada de várias maneiras, explicam os cientistas: por invenção independente em vários lugares, deslocamentos de populações ou transmissão de genes associados. Para os autores do estudo, o argumento que se encaixa melhor nesse caso é o da interação entre diferentes grupos humanos. É uma interpretação apoiada pela difusão, algum tempo depois, de uma tecnologia relativamente complicada aplicada na fabricação de ferramentas de pedra, chamada técnica de Levallois.

Estruturas sociais

Eva van Veen, da Universidade Tecnológica de Eindhoven, disse que as estruturas e os comportamentos sociais em torno do uso do fogo não haviam sido discutidos em detalhes anteriormente. "Dada a importância da sociabilidade para a vida dos hominídeos, as questões sobre as estruturas sociais que cercam o uso do fogo precoce são essenciais para a compreensão de todas as implicações do uso generalizado do fogo", diz.

Em sua tese, ela analisou o que é preciso para organizar um grupo de pessoas para reunir a matéria-prima para acender uma fogueira e mantê-la acesa. As discussões estimularam Eva e vários colegas a pensar sobre a tolerância social em larga escala e as redes envolvidas na disseminação das habilidades com o controle do fogo.

"A cópia da tecnologia de ferramentas de pedra ocorreu no início da evolução humana, mas, há cerca de 400 mil anos, a difusão cultural realmente decolou", afirma a cientista. "Isso precede por muito tempo o florescimento cultural associado aos últimos neandertais e ao início do Homo sapiens. Nossa pesquisa deve estimular o debate e novos estudos, particularmente abordando as mudanças nos mecanismos culturais de transmissão que permitiram essa difusão notavelmente rápida da tecnologia de ferramentas de fogo e pedra", acredita. (PO)
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