Ásia Coreia do Norte dispara míssil balístico após propor diálogo com EUA

Por: AFP - Agence France-Presse

Publicado em: 03/10/2019 09:24 Atualizado em:

Jung Yeon-je / AFP
Jung Yeon-je / AFP
A Coreia do Norte disparou um míssil balístico de um submarino na quarta-feira (2), um dia após Washington e Pyongyang anunciarem o iminente reinício das negociações bilaterais sobre o programa nuclear norte-coreano.

Parte do projétil aparentemente caiu nas águas da Zona Econômica Exclusiva do Japão, que cobre 200 milhas náuticas de seu litoral, de acordo com Tóquio. Pode tratar-se de um Pukguksong, ou seja, um míssil balístico marítimo-terrestre (SLBM), lançado de um submarino e que Pyongyang começou a testar em 2016, de acordo com o Estado-Maior da Coreia do Sul. 

O projétil subiu quase na vertical, até 910 km de altura, e percorreu 450 km antes de cair no mar, segundo a mesma fonte. O lançamento foi feito das proximidades da cidade oriental de Wonsan em direção ao mar do Japão (que sul-coreanos e norte-coreanos chamam de Mar do Leste). 

Um porta-voz do Departamento de Estado dos EUA pediu à Coreia do Norte que "se abstenha de provocações" e permaneça "comprometida com negociações substanciais e duradouras" que tragam estabilidade e desnuclearização. 

O primeiro-ministro do Japão, Shinzo Abe, instruiu seus ministros a investigar o que aconteceu, segundo fontes oficiais. Em um breve contato com a imprensa, o próprio Abe apontou que "o lançamento de mísseis balísticos viola as resoluções do Conselho de Segurança da ONU e, portanto, nós o condenamos e expressamos nosso firme protesto".

Na véspera, uma alta fonte diplomática norte-coreana disse que Pyongyang concordou em manter conversações em nível de grupos de trabalho com Washington ainda esta semana. As duas partes concordaram em manter uma reunião de "contatos preliminares" no dia 4 de outubro e negociações de trabalho no dia seguinte, segundo a vice-ministra norte-coreana das Relações Exteriores, Choe Son Hui, citada pela agência de notícias oficial KCNA.

"Espero que estas reuniões em nível operacional acelerem o desenvolvimento positivo das relações entre a República Popular e Democrática e os Estados Unidos", declarou a vice-ministra. O anúncio da Coreia do Norte foi confirmado pelos Estados Unidos pouco depois.

As negociações entre Pyongyang e Washington estão paradas desde o fiasco da segunda cúpula, realizada em fevereiro em Hanói, entre o líder norte-coreano, Kim Jong-un, e o presidente americano, Donald Trump.

Os dois líderes se encontraram novamente em junho, na Zona Desmilitarizada (DMZ). Esta região separa as duas Coreias desde o final da guerra (1950-53). Neste breve encontro, ambos concordaram em retomar o diálogo sobre o programa nuclear de Pyongyang, um pouco mais de um ano após a primeira cúpula Trump-Kim em Singapura. Até esta data, porém, as discussões não foram retomadas.

Pyongyang não escondeu sua decepção com a recusa dos Estados Unidos a cancelarem suas manobras militares com Seul.As relações melhoraram quando o então conselheiro de Segurança Nacional de Trump, John Bolton, conhecido por seu tom severo em relação à Coreia do Norte, deixou o governo.

Na questão norte-coreana, este "falcão" detestado por Pyongyang havia defendido um "modelo líbio". Nele, em troca da suspensão das sanções, a Coreia do Norte deveria abandonar todas as suas bombas nucleares e seus mísseis. Essa comparação com a Líbia de Muammar Khaddafi, que terminou morto em um levante apoiado por bombardeios da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), provocou a fúria de Pyongyang.

O próprio Donald Trump considerou que essa comparação fez as negociações com a Coreia do Norte "recuarem seriamente". Especialistas disseram que a demissão de Bolton pode ter contribuído para a decisão norte-coreana de dialogar.

Na sexta-feira, a Coreia do Norte elogiou Trump, em oposição a outros políticos de Washington "obcecados" com a exigência de uma desnuclearização norte-coreana unilateral. "Constatei que o presidente Trump é diferente de seus antecessores em termos de senso político e de determinação", declarou Kim Kye-gwan, consultor do Ministério das Relações Exteriores da Coreia do Norte.

"Desejo, portanto, colocar minha esperança nas escolhas sábias e nas decisões corajosas do presidente Trump", acrescentou. Enquanto isso, Trump continua elogiando sua "amizade" com o líder norte-coreano, em quem diz "confiar". Ele se baseia em um vago compromisso em favor de uma "desnuclearização completa" adotado em Singapura, mas que nunca resultou em atos concretos.

A "Casa Azul", sede da presidência sul-coreana, recebeu positivamente o anúncio de uma retomada das negociações entre Pyongyang e Washington. A expectativa é que conduzam a "medidas práticas" que levem "a um regime de paz permanente e à desnuclearização completa da península coreana".

O anúncio pode indicar que Pyongyang e Washington diminuíram suas diferenças, disse Koh Yu-hwan, professor de Estudos Norte-Coreanos na Universidade Dongguk, em Seul. "O Norte pediu garantias de segurança em troca de medidas de desnuclearização e sugeriu aos Estados Unidos proporem um novo plano", afirmou. "Um consenso entre os dois poderia ter sido encontrado sobre esse assunto antes do anúncio desta terça-feira", completou.


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