Amazônia Pressionado, Ernesto não soube explicar medidas de ajuda dos EUA à Amazônia

Por: FolhaPress - FolhaPress

Publicado em: 13/09/2019 21:05 Atualizado em: 13/09/2019 22:08

Ernesto Araújo, Ministro da Relações Exteriores - Créditos: AFP.
Ernesto Araújo, Ministro da Relações Exteriores - Créditos: AFP.
Depois de três dias nos Estados Unidos, o ministro Ernesto Araújo (Relações Exteriores) não soube explicar detalhes das medidas tomadas pelos americanos para ajudar no combate às queimadas na Amazônia e foi pressionado pela imprensa estrangeira a explicar sua tese de que há uma tentativa de intervenção no Brasil quando o assunto é o clima e a crise na floresta.
 
A ideia ecoada pelo chanceler é que políticos têm feito uso do discurso sobre aquecimento global para dar um caráter internacional à crise na Amazônia e, dessa forma, ferir a soberania brasileira.
  
Uma jornalista do Los Angeles Times, um dos mais importantes periódicos americanos, pediu que o ministro desse exemplos sobre essa possível intervenção.

Ele então defendeu a ideia de que a limitação da soberania do território brasileiro "foi sugerida por alguns líderes do mundo."
 
Instado pela repórter a nomear quais seriam esses líderes, o chanceler se limitou a dizer que havia "um artigo na Foreign Policy defendendo isso."
 
O texto publicado na revista dos EUA, porém, não foi escrito por nenhum líder mundial, mas por Stephen Walt, professor na universidade de Harvard.
 
O chanceler precisou de ajuda de seus auxiliares para tentar explicar o funcionamento do fundo de investimentos dos EUA para preservar a biodiversidade da Amazônia e não sabia dar detalhes sobre os peritos da Guarda Florestal americana que chegaram no Brasil nesta semana para ajudar na investigação dos focos de incêndio.
 
Ele foi questionado sobre onde os peritos ficariam baseados, quantos dias permaneceriam no Brasil e o que fariam para ajudar com a crise na floresta.
 
"Os EUA já ofereceram um time de especialistas e um avião especializado que chegou hoje [sexta] no Brasil para essa cooperação específica e, sobre o fundo de investimento, precisa ser implementado", afirmou o chanceler após a explicação de seu auxiliar. 

Ernesto disse ainda que não tinha certeza sobre datas e local de abrigo dos peritos e que era preciso checar os dados com o Ministério da Defesa. 

No site da pasta a informação é que a ajuda americana chegou, na verdade, na quinta-feira (12) em Brasília e que seguiria para a Chapada dos Guimarães e para a cidade de Gaúcha do Norte, no Mato Grosso. O texto do ministério não fala em avião de apoio dos EUA. 

O Fundo de Investimento de Impacto sobre a Biodiversidade, no valor de US$ 100 milhões (cerca de R$ 408 milhões) ao longo dos próximos 11 anos, por sua vez, foi resultado da visita de Jair Bolsonaro à Casa Branca, há seis meses, mas o governo brasileiro diz que seu formato "ainda está sendo estudado." 

O chanceler insistiu na retórica de que as queimadas "não são catastróficas" e "estão dentro da média dos últimos anos" apesar de dados de órgão do próprio governo, como o Inpe, confirmarem que houve aumento de 82% nas queimadas em relação ao ano passado.  

O jornalista do jornal Washington Post, Ishaan Tharoor, que já havia criticado Ernesto por seu discurso em que falava sobre "climatismo", questionou se a intenção do Brasil era levar a mesma retórica à Assembleia-Geral da ONU, em Nova York. Como é de praxe, o presidente brasileiro abre os debates, o que este ano acontece na terça-feira (24).  

O chanceler manteve sua posição, disse que Bolsonaro irá "se basear na verdade" quando falar na ONU e que o Brasil está "sereno e confiante" de que esse é o melhor discurso. 

Para o chanceler, as queimadas eram maiores durante "governos de esquerda", mas a imprensa não fazia críticas à época. "As esquerdas fazem e falam o que querem." 

Como mostrou a Folha de S.Paulo, o ministro já tinha usado do mesmo argumento um dia antes, em reunião fechada com empresários e investidores americanos. 

Na Câmara de Comércio dos EUA, na quinta, Ernesto fez críticas a levantamentos baseados em satélites que, segundo ele, não diferenciam "fogueiras de acampamento" de "grandes incêndios."


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