América do Sul Parcial, mídia argentina se adapta a nova cena

Por: FolhaPress - FolhaPress

Publicado em: 08/09/2019 10:13 Atualizado em: 08/09/2019 10:18

Foto: Juan MABROMATA / AFP
Foto: Juan MABROMATA / AFP
Como acontece a cada ciclo de poder na Argentina, os principais veículos se encontram em um momento de reposicionar suas linhas editoriais e seus negócios.Num país em que o jornalismo é tradicionalmente parcial, contra ou a favor do governo de turno, mudanças na Casa Rosada geralmente detonam grandes transformações nos comandos das Redações e das emissoras de televisão.

A provável volta do kirchnerismo, anunciada pelo resultado das eleições primárias, em 11 de agosto, pegou de surpresa os dois conglomerados mais importantes, o Grupo Clarín e o La Nación.

O Clarín é dono do jornal Clarín, de emissoras de sinal aberto e a cabo e do principal provedor de internet, entre outros. Já o La Nación, além do jornal de mesmo nome, possui rádios, uma emissora de TV e outros investimentos.

O Clarín teve dois momentos com o kirchnerismo. O primeiro, de aproximação. Na gestão de Néstor Kirchner (2003-2007), tomou partido dele e foi premiado com a aprovação de negócios como a fusão de serviços de cabo e o monopólio das transmissões de futebol, que precisavam da anuência do governo.

Já com Cristina foi o oposto. A mandatária avançou contra o Clarín e o La Nación quando os veículos decidiram tomar partido dos ruralistas, em 2008, após a implementação de um imposto para venda de produtos agrícolas.

A briga foi tão feia que o governo expropriou a Papel Prensa, companhia da qual os dois grupos eram sócios e que produzia papel para os jornais, e conseguiu que o Congresso aprovasse uma Lei de Meios para obrigar o Clarín a abandonar investimentos -o que acabou não acontecendo.

Foi por isso que a mídia tradicional ficou de mãos dadas com o governo de Mauricio Macri desde sua posse, em dezembro de 2015, até o último dia 11 de agosto, quando o presidente foi derrotado nas primárias.

"Agora já está todo mundo olhando para a frente e pensando em como se adaptar, embora estejam sofrendo muita pressão dos setores pró-Macri para seguir apoiando-o", diz à Folha o jornalista Jorge Lanata, um dos principais do país, que tem programas em canal de TV do Clarín.

Alguns jornalistas que apoiavam Macri chegaram a passar vergonha. Um dos mais conhecidos, Luis Majul, que passou os últimos três anos atacando Cristina e fazendo entrevistas laudatórias com Macri, fez um "mea culpa" no ar: "Quero fazer uma autocrítica. Nos últimos tempos estive muito focado na corrupção kirchnerista e não me dei conta de que as pessoas estavam sem recursos para chegar até o fim do mês", disse, em seu programa de TV.

Um protesto como o da última quarta (4), em que os pobres de Buenos Aires acamparam na avenida 9 de Julho pedindo que se acione a Lei de Emergência Alimentícia, talvez não ganhasse a projeção que ganhou se os veículos não estivessem sentindo a mudança dos ventos. Uma fonte do Grupo Clarín diz que agora quem manda é a audiência, e esse tipo de manifestação comove.

Nos últimos três anos, os protestos contra o governo foram noticiados de forma mais breve, privilegiando os episódios de violência e minimizando sua seriedade.
Agora, as câmeras da emissora do Clarín e de outros canais focam as famílias acampadas, os bebês sendo agasalhados na rua por suas mães.

De acordo com jornalistas que ocupam cargos importantes nos dois principais grupos de mídia, já está havendo conversas entre a equipe de Alberto Fernández, o candidato da oposição, e os donos desses veículos. Se isso se concretizar, o noticiário "mainstream" passará novamente a ser governista, com alguns poucos fazendo investigação contra a nova gestão.

Durante o kirchnerismo, quem fazia isso com intensidade era justamente a equipe de Jorge Lanata, que, em seu "Periodismo para Todos" (jornalismo para todos), expôs diversos casos pelos quais a agora candidata a vice-presidente, Cristina Kirchner, está sendo processada.

Já nos anos de Macri houve poucas investigações jornalísticas sobre os negócios ilícitos do governo. Quem revelou os principais escândalos foi o repórter Hugo Alconada Mon, que apurou o caso dos Correios, em que Macri teria perdoado uma dívida do Grupo Macri com o Estado ao comprar e levar à falência os Correios Argentinos.

"Não temos tradição de jornalismo investigativo. Ele é puramente opinativo. Isso se reforça quando os veículos não têm mais os recursos de antes para destacar repórteres para investigação, que toma muito tempo, e porque esses mesmos meios precisam de verbas do Estado. Assim, com poucas exceções, o que temos é um jornalismo que disputa para se aliar a políticos poderosos", diz Lanata.


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