Oriente Médio Israel vai às urnas com os dois principais partidos tecnicamente empatados

Por: Correio Braziliense

Publicado em: 17/09/2019 10:37 Atualizado em:

Ahmad Gharabli/AFP
Ahmad Gharabli/AFP
A escalada de tensão no Golfo Pérsico entre Irã e Arábia Saudita, com os Estados Unidos em guarda, deu o toque dramático de última hora para um dia decisivo em outro país que respira no cotidiano os impasses e perigos do Oriente Médio. Israel volta nesta terça-feira (17) às urnas, menos de seis meses depois de uma eleição sem vencedor, com a perspectiva real de se ver novamente com uma Knesset (parlamento) sem maioria.

As últimas pesquisas de opinião projetaram empate entre o partido direitista Likud, do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, e o centrista Kahol Lavan (“azul e branco”, as cores nacionais), do general Benny Gantz. Correndo por fora, o ex-ministro da Defesa Avigdor Lieberman, ultranacionalista, e partidos religiosos ultraortodoxos — em ambos os casos, apostando em jogar papel decisivo para a formação do novo governo.

Na véspera de uma votação encarada como um plebiscito sobre o premiê, que tem pela frente o risco de ser processado por corrupção, os dois principais candidatos não pouparam esforços para conquistar os eleitores ainda indecisos ou inclinados por legendas menores. “Raros são os momentos em que o país se defronta com duas opções tão diferentes, dois caminhos, e precisa escolher qual deles seguirá”, escreveu Gantz em artigo publicado nos principais jornais israelenses. Prometeu “ação rápida” para formar “um governo de união”, no interesse “de todos”, e não “dos lobistas”. “As divisões vão acabar. Com o Azul e Branco, o comando do Estado de Israel mudará na direção de mais democracia.”

Netanyahu usou as horas finais para disparar em várias direções. Em programas de rádio, destacou o bom estado da economia, com o desemprego em 3,7% — a menor taxa da histrória. Depois de ter cancelado o último comício, no domingo, alegando ameaças terroristas, classificou o rival como “um esquerdista” e alertou sobre o “perigo” de que ele forme um governo “com os árabes”. Os cidadãos israelenses de origem palestina, que formam 10% da população, devem descarregar votos na Lista Unida, que aparece com chances de eleger até 10 deputados e seria essencial para dar maioria à centro-esquerda. Na segunda-feira (16), o jornal Haaretz publicou um áudio no qual o premiê convoca seus eleitores a irem às urnas “porque os árabes estão votando em massa”.

O conflito histórico com os palestinos dominou a reta final da campanha, em especial desde a semana passada, quando Netanyahu anunciou planos para anexar até um terço do território ocupado da Cisjordânia. Não por acaso, foi em uma das colônias judaicas instaladas nessa área, próxima à milenar cidade de Jericó, que o premiê celebrou no domingo a última reunião do gabinete. Na ocasião, aproveitou para formalizar a legalização do assentamento, onde vivem 30 famílias. Jericó foi a primeira cidade da Cisjordânia colocada sob governo autônomo palestino após os acordos de paz firmados em 1993. A ofensiva anunciada por Netanyahu, caso se confirme, pode representar o fim desse processo, ao qual ele se opôs desde que chegou pela primeira vez ao poder, em 1996.

Trump
A expectativa pelos resultados desta terça-feira em Israel se estende por todo o Oriente Médio e pela Europa, mas é especialmente grande nos EUA, com quem o Estado judeu mantém uma aliança estratégica. “Grande eleição em Israel. Vai ser disputada, na base de 50% a 50%”, disse aos jornalistas, na Casa Branca, o presidente Donald Trump. Em maio de 2018, no 70º aniversário da fundação de Israel, Trump transferiu a Embaixada dos EUA para Jerusalém — um troféu diplomático para o amigo Netanyahu. A iniciativa, recebida com revolta pelos palestinos e com críticas pelo mundo árabe e islâmico, incluiu o reconhecimento da soberania israelenses sobre toda a cidade, algo que não é aceito pela maioria da comunidade internacional.

Perfis
Missão quase cumprida
A praticamente um mês de completar 70 anos, Benjamin Netanyahu joga nesta terça-feira (17) nas urnas a sobrevivência política, como o primeiro-ministro que governou por mais tempo o Estado de Israel, fundado um ano antes de ele nascer. A família mudou-se para os Estados Unidos em 1963, e o pequeno Binyamin, como era o nome em hebraico, voltou a Israel em 1967, a tempo de fazer o serviço militar sob o impacto da vitória do país na Guerra dos Seis Dias. Capitão em um comando de elite, lutou na Guerra do Yom Kippur, em 1973.

Bibi retornou aos EUA para os estudos e voltou para Israel em 1988, depois de ter atuado na embaixada em Washington e na representação do país perante a ONU, em Nova York. O país vivia o terremoto da intifada, o levante palestino contra a ocupação da Cisjordânia e da Faixa de Gaza, conquistadas em 1967. Em 1993, o processo resultaria na assinatura dos Acordos de Oslo, que deram início ao processo de paz .

Eleito premiê em 1996, Bibi dedicou-se sistematicamente a implodir as negociações e impedir a criação de um Estado palestino. O primeiro mandato durou três anos. Ele só retornaria ao poder em 2009, determinado a completar a missão, depois de ter deslocado do Likud rivais como o general Ariel Sharon e Ehud Olmert. À frente de uma coalizão com nacionalistas e religiosos ultraortodoxos, planeja sepultar definitivamente a “solução de dois Estados”.

Recruta na política
Quatro décadas de uma trajetória invejável nas Forças de Defesa de Israel (IDF, pela sigla em inglês) são o trunfo do general Benjamin Gantz, 60 anos, na batalha desta terça-feira contra o xará Netanyahu. Será como um tira-teima, já que os dois saíram das urnas empatados em abril, o que resultou em impasse político e novas eleições. Ao contrário do rival, Benny, como ficou conhecido, é um recruta na política: foi apenas em dezembro de 2018, três anos de deixar o posto de chefe do Estado-Maior, que o ex-paraquedista lançou o partido centrista Kahol Lavan (“azul e branco”) e se lançou de cara à disputa do comando político do país.

Gantz colocou como missão para si resgatar “a honra” do cargo de primeiro-ministro, que já foi ocupado por dois outros chefes das IDF: Yitzhak Rabin e Ehud Barak, continuadores da linhagem de “generais trabalhistas” que inclui Moshe Dayan, ministro da Defesa na Guerra dos Seis Dias. Além de mirar nas complicações do adversário com a Justiça, o líder da oposição faz questão de comparar a atuação de ambos em campanhas como a guerra de 2014 contra o Hamas: “Enquanto eu comandava uma unidade de combate em território inimigo, você passava por sessões de maquiagem nos estúdios de tevê”.

Na campanha, o general foi questionado pela relutância em se definir quanto a temas como o Estado palestino, o estatuto de Jerusalém e o desafio nuclear do Irã.


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