acesso mais restritivo ao dólar Governo monta operação de guerra para frear nervosismo e dólar recua na Argentina

Por: FolhaPress - FolhaPress

Publicado em: 02/09/2019 14:33 Atualizado em:

Foto: Reprodução/Pixabay
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Após um final de semana tenso, o dólar cedeu nas primeiras horas desta segunda-feira (2) na Argentina. O governo inundou os bancos com cédulas da moeda americana para atender à demanda de correntistas que buscaram agências do Centro da capital, Buenos Aires, após o anúncio, neste domingo, de que o acesso a dólares seria mais restritivo.  
 
Carros fortes circulavam pelo centro financeiro da capital nesta segunda. Também contribuiu para a moderação o feriado nos EUA, que reduz naturalmente os negócios em dólar. Desta maneira, a cotação oficial da moeda americana, que abriu sob pressão, recua neste momento 3,2%, cotado a 60,02. Já o dólar paralelo (chamado de blue), negociado em casas de câmbio, sobe 1,5%, negociado a 64 pesos, indicando que ainda há muita incerteza, apesar da intervenção forte do governo para segurar as cotações.  
 
Eduardo Martínez, 69, foi com a mulher a uma agência do Banco de la Ciudad na Florida para sacar parte de seus depósitos. Ele disse que havia muito movimento, mas que todos estavam sendo atendidos.
 
"Há muita histeria, mas a verdade é que os bancos estão lhe entregando o seu dinheiro", afirmou.
Muitos buscavam as agências para se informar sobre o que poderia ocorrer com seus depósitos, que no país podem ser feitos em dólar ou em pesos.
 
Numa sucursal do Banco Macro, um funcionário disse que havia movimentação "acima do normal" com relação às caixas-fortes -na Argentina, é possível guardar dólares não apenas em contas correntes, mas também em caixas de segurança. 
 
"Nem todos vêm retirar o dinheiro, muitos vêm fazer perguntas, se vão mexer nas caixas-fortes ou não. As pessoas lembram de 2001, sabe como é", diz um funcionário do banco.
 
Em 2001, quando se determinou o "corralito", as contas dos argentinos foram congeladas, porém não se tocaram nas caixas-fortes. Assustados, porém, os clientes dos bancos tentavam entrar para retirar o que havia ali, com medo de que uma medida seguinte do governo fosse impedir o acesso a esses cofres. Isso causou, entre outras coisas, a violência contra os bancos, que tiveram portas arrombadas, vidraças quebradas.
 
Nas ruas da chamada "city" portenha, curiosos que fotografavam as telas com as cotações do dólar para comparar entre as casas, antes de comprar ou vender, havia jornalistas, câmeras de TV, e segurança reforçada nas portas. 
 
Por volta das 11h30, havia pessoas comprando dólares a 59 pesos em bancos para vender em "cuevas" -casas de câmbio clandestinas- onde, por esse horário, a cotação era de por volta de 64 pesos.
 
"Faço isso porque estou chegando só com o justo até o fim do mês. Como a conjuntura está apresentando essa oferta hoje, nem que seja para ganhar um pouco, já que a inflação vai comer tudo rapidamente, vou fazer, para garantir um bom supermercado nesta semana", disse uma mulher de 52 anos que não quis se identificar.
 
No domingo, o governo anunciou medidas restritivas ao acesso a dólares para pessoas físicas, mas com o teto elevado -o limite é de compra de até US$ 10 mil por mês.
 
"Eu ganho 18 mil pesos por mês (cerca de U 300), e 2.500 (U 41) gasto em remédios, não junto US$ 10 mil para comprar nunca. Mas vim até aqui hoje para ver que rumo a coisa toma, se vale a pena comprar um pouco para guardar", diz o aposentado Pietro Manizales, 77.
 
O maior temor do governo é o de que as pessoas saquem pesos dos bancos e comprem dólares para se proteger, numa estratégia maciça de busca de proteção. Isso poderia desencadear uma pressão adicional nas cotações e empurrar o país para a hiperinflação. 
 
Com a alta de preços rodando 54% ao ano ano, a palavra voltou aos debates econômicos do país.

Em entrevista coletiva na manhã desta segunda, o ministro da Economia, Hernán Lacunza,
afirmou que as medidas adotadas pelo governo para restringir o acesso a dólares visam a estabilizar a cotação da moeda americana durante o processo eleitoral. As eleições argentinas ocorrem no próximo dia 27 de outubro e a oposição, liderada pelo peronista Alberto Fernández, é a favorita, criando uma sensação de que o país já vive uma transição apesar de estar a mais de 50 dias do pleito.
 
A vantagem dos peronistas, que evitam dizer como pretendem lidar com a crise econômica, levou à atual corrida cambial. 
 
Questionado sobre se as medidas foram acordadas com a assunção da oposição, Lacunza afirmou que houve comunicação, mas não há "governo" neste momento no país. 
 
"As medidas não foram consensuadas, mas informadas num diálogo institucional com a oposição", afirmou o ministro do governo Mauricio Macri, que tenta a reeleição. "Não há um governo mas uma relação de respeito com a oposição".
 
No exterior, os títulos da dívida argentina denominados em euro e dólar caíam para mínimas recordes nesta segunda-feira, enquanto as ações do setor financeiro cediam e o prêmio de risco avançava.
 
Os investidores se preocupam com a possibilidade de que, uma vez que os controles estejam em vigor, seja mais difícil fazer remessas em dólares ao exterior para pagamentos de dívidas de de outros compromissos, possivelmente deixando a Argentina com uma economia mais uma vez distorcida pela intervenção do governo.
 
Os títulos internacionais em dólar com vencimento em 2028 caíam mais de 2 centavos, para uma nova mínima de 36,58 centavos. Os títulos com vencimento em 2023 e 2038 registraram perdas semelhantes.
 
Os títulos soberanos da Argentina denominados em euro também sofriam fortes perdas, atingindo mínimas recordes nesta segunda-feira. O título 2022 caiu 9,2 centavos, para 35,8 centavos, enquanto o "bond" com vencimento em 2027 caiu 7,5 centavos para 33,218 centavos.
 
Os prêmios de risco exigidos pelos investidores para manter em carteira os títulos em dólar da Argentina disparavam para 2.534 pontos, níveis vistos pela última vez após o grande default em 2001.


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