eleições Divisões internas impedem que palestinos vão às urnas desde 2006

Por: AFP - Agence France-Presse

Publicado em: 11/09/2019 12:42 Atualizado em:

Foto: AHMAD GHARABLI / AFP
Foto: AHMAD GHARABLI / AFP
Desde as eleições legislativas de 2006, já foram realizadas seis campanhas eleitorais em Israel, mas os palestinos, em compensação, não vão às urnas desde então, devido à política de seu vizinho e também por suas próprias divisões internas.

Em Ramallah, Nablus ou Gaza, os palestinos de 30 anos ou menos nunca votaram. No geral, mais da metade da população nesses territórios se vê afetada pelo desemprego que gira em torno 30%, fragmentada pelo aumento dos assentamentos judeus e paralisada pelas disputas internas.

Em 2005, depois do fim da segunda intifada e a morte do líder histórico Yasser Arafat, os palestinos elegeram Mahmud Abbas como chefe da Autoridade Palestina. 

Um ano depois, seus rivais do Hamas venceram as eleições legislativas. No processo, o parlamento palestino começou a hesitar. O movimento Fatah, de Abbas, e os islamitas do Hamas, de Ismail Haniyeh, entraram em confronto nas ruas de Gaza. 

O Hamas assumiu o controle do encrave, enquanto o Fatah prevaleceu na Cisjordânia.

Desde então, não houve eleições. É uma vida política quase estática, sem um horizonte de votação em curto prazo. 

Para ambos os lados, essa situação é "confortável", explica Jalil Shikaki, analista político e pesquisador palestino. 

"A divisão é um pretexto; cada partido pode dizer que quer uma eleição, mas o outro partido não a quer... não há um desejo real de se organizar uma eleição", declarou à AFP.

O Conselho Legislativo da Palestina, equivalente a um parlamento e que não se reúne desde 2007, foi dissolvido em 2018 por Abbas, que prometeu eleições em maio passado, que não ocorreram. Desde então, nenhum calendário eleitoral foi publicado.

"Temos instituições que não funcionam", diz Nasser al Qudwa, ex-ministro das Relações Exteriores da Palestina e ex-líder do Fatah.

"O poder executivo tem todos os poderes ... o conselho legislativo não existe mais e o judiciário, que sempre foi fraco, agora é ainda mais", afirmou. 

Na Cisjordânia, Abbas governa principalmente por decretos presidenciais, explica Diana Buttu, ex-porta-voz do governo de Abbas e que se tornou uma de suas críticas mais virulentas.

- Democracia árabe -

"No entanto, pode-se argumentar que a Palestina foi a primeira democracia árabe", disse Hugh Lovatt, especialista em Israel e nos territórios palestinos do Conselho Europeu de Relações Exteriores, um centro de análise. 

"Se considerarmos o período 2005/2006, a democracia estava em expansão. Não foi perfeita, mas houve eleições municipais, legislativas e presidenciais, embora desde então tenha havido um grande revés", afirmou ainda.

O Hamas e o Fatah se culpam pela falta de eleições e acusam Israel de obstrução. 

Os palestinos querem uma nova votação realizada na Cisjordânia ocupada, bem como em Gaza, mas também em Jerusalém Oriental anexada, mas o direito dominante de Israel recusa essa possibilidade e separa essa parte da "cidade santa" de qualquer entidade política palestina.

O primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, que está buscando um novo mandato nas eleições parlamentares de 17 de setembro, sente-se à vontade com essas divisões porque elas permitem que ele diga que não tem um interlocutor para discutir a paz, diz Buttu. 

"Para Israel, é realmente um sonho ver os palestinos divididos", acrescenta.

Nesse contexto, apenas 10% dos palestinos consideram uma prioridade fazer novas eleições, contra 44% que desejam primeiramente o fim da ocupação dos territórios palestinos por Israel, segundo cálculos de Shikaki. 

Atualmente, mais de 600.000 colonos judeus vivem na Cisjordânia e Jerusalém Oriental ocupadas, com relações muitas vezes tensas com quase três milhões de palestinos. 

É uma ocupação que se acelerou nos últimos anos sob a liderança de Netanyahu. 

"A ocupação israelense e os problemas econômicos são as prioridades para a esmagadora maioria dos palestinos. Essas duas questões são muito mais importantes para a população local do que a transição democrática", conclui Shikaki.


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