Visita Depósito da Amazon parece achados e perdidos

Por: FolhaPress - FolhaPress

Publicado em: 08/09/2019 15:10 Atualizado em: 08/09/2019 15:22

Foto: Reprodução/Internet
Foto: Reprodução/Internet

Os corredores parecem infinitos e estão apinhados de prateleiras. Cada uma está organizada por divisórias de plástico, formando buracos entulhados de produtos aleatórios: um conjunto de pratos recicláveis de bambu, uma caixa de boia inflável infantil, uma garrafa de enxágue bucal, uma lata de tomate. Parece um labirinto industrial de achados e perdidos ou, ainda, o supermercado mais bagunçado do mundo.

Mas essa primeira impressão de uma visita a um depósito da Amazon logo se dissipa. Afinal, a empresa do homem mais rico do mundo não tem nada de desorganizada. Jeff Bezos começou a Amazon como uma loja virtual de livros em 1994 e hoje é dono de mais de US$ 100 bilhões.

Estamos no primeiro centro de distribuição da Amazon na Califórnia, inaugurado em 2012, em San Bernardino, sul do estado. Hoje, a região tem 14 espaços de grandes operações da varejista online, num total de 18 mil funcionários.

No mundo, existem 175 centros de distribuição, incluindo 110 na América do Norte, alguns operados por robôs. Esses depósitos recebem e armazenam estoques dos fabricantes e os enviam diretamente aos clientes. Em média, 40 mil pacotes deixam cada um desses centros por dia, mas pode chegar a 1 milhão na época das festas de fim de ano.

Em San Bernardino, não há robôs, e sim 2.000 funcionários que trabalham em turnos de dez horas, quatro vezes por semana. O espaço tem 93 mil metros quadrados (tamanho de uns 13 campos de futebol) e funciona 24 horas. É um barulho constante de esteiras que transportam nossos futuros produtos, do estoque às áreas de embalagem, etiquetas, remessa e caminhões.

"Trabalhe duro, divirta-se, faça história", diz o cartaz na entrada do complexo. Sem dúvida, os funcionários dão duro, tanto que milhares já fizeram greves e protestos ao redor do mundo. A Amazon figura há dois anos na lista das firmas mais perigosas para trabalhar nos EUA devido a condições insalubres, segundo o Conselho Nacional de Segurança e Saúde Ocupacional.

Além do cartaz, há um aviso de proibido carregar armas. Dentro, estão frases de estímulo como "pense grande" e "ganhe a confiança dos outros". Bonequinhos vestidos de "Star Wars" estão grudados pelas paredes e avisam sobre a sessão de alongamento obrigatória e sobre o churrasco da firma no fim de semana ("já pegou seus ingressos?").

A empresa oferece tours gratuitos para o público, e a reportagem passou pouco mais de um hora circulando por seus corredores. A guia usa um microfone, e o grupo de 30 pessoas usa fones de ouvido. Fotografias são proibidas, e o celular precisa ficar no bolso.

A primeira parada no tour é nas prateleiras "bagunçadas". Do outro lado, funcionários abrem as caixas de produtos recém-chegados dos fabricantes via caminhão e os despacham pelas esteiras até outros colegas nas prateleiras. As mercadorias são então guardadas nos cubículos apertados, sem nenhuma ordem.

Cada item é registrado num escâner de mão com seu buraco correspondente. Assim, qualquer alfinete fica localizável e também espalhado no centro para diminuir as chances de um funcionário ter que andar muito para achá-lo.

Quando uma compra é feita online, um operário sai com um carrinho atrás da prateleira correta e coloca as mercadorias num recipiente de plástico amarelo. Aqui, são processados apenas itens pequenos que cabem nesses recipientes. São mais de 40 mil a circular sem parar pelas esteiras.

A próxima parada é no segundo andar, onde uma dúzia de funcionários embala apenas produtos individuais. De pé, eles pegam da esteira um recipiente amarelo, retiram a mercadoria e a escaneiam.

O computador avisa o tipo da embalagem necessária, que o funcionário monta na sequência. Uma máquina emite fita adesiva do tamanho exato e, para finalizar, um adesivo com um código de barras.

Pacote fechado, o funcionário o joga na esteira. E já pega outro recipiente amarelo. O processo todo leva menos de 30 segundos. Ainda na esteira, o pacote passa por um túnel onde é pesado e escaneado (de novo) e recebe um adesivo com o endereço, aplicado por uma máquina. Um operário fica de olho e retira da esteira caso algum ultrapasse o peso ou caso o comprador tenha desistido.

A etapa final inclui um escorregador por onde os pacotes chegam mais perto da saída. Cada um é colocado em grandes caixas de papelão, um processo realizado por um grupo de funcionários, um deles como se atirasse uma bola de basquete ao cesto. As caixas são então levadas aos caminhões e instaladas como num jogo de Tetris.

Pelos corredores, há estações para retirar protetores de ouvido e máquinas que dispensam luvas e remédios variados, gratuitos. Ninguém usa uniforme, mas a vestimenta tem regras, como sapatos fechados e colete fluorescente.

Os empregados têm metas rigorosas a cumprir, e a guia diz que cada uma é acertada individualmente. Afinal, é preciso agilizar a entrega das compras dos 100 milhões de clientes Amazon Prime, que pagam US$ 99 (R$ 400) por ano pelo delivery em dois dias.
Parte do tour é ouvir os benefícios trabalhistas: o salário mínimo é de US$ 15 a hora  (R$ 60, ante US$ 12, ou R$ 48,  no estado), há licença remunerada de maternidade e paternidade (raridade no país), seguro-saúde, contribuição à aposentadoria e ajuda escolar.

Mas nada disso faz esquecer as manchetes sobre reclamações das condições de trabalho em centros de distribuição. Reportagem do jornal britânico The Guardian neste ano revelou diversos casos de empregados que sofreram lesões no trabalho e ficaram sem receber, passando meses na Justiça para conseguir benefícios e ajuda médica.

"Muitos dos casos contra a Amazon são sobre lesões por esforço repetitivo", disse a advogada trabalhista Kim Wyatt à publicação. "Basicamente, as pessoas são apenas um componente da indústria de máquinas de produção em massa."

Ao final, passamos por um mural com com pinturas de paisagens e super-heróis dos funcionários. Somos convidados a tirar fotos oficiais e, claro, ganhamos lembrancinhas (uma garrafa de água). Uma visitante pergunta se o centro está contratando, e a guia sugere olhar na internet. Há vagas.


Os comentários abaixo não representam a opinião do jornal Diario de Pernambuco; a responsabilidade é do autor da mensagem.