Arte Com artistas imigrantes, mostra nos EUA traz reflexão sobre crise migratória

Por: FolhaPress - FolhaPress

Publicado em: 10/09/2019 22:06 Atualizado em: 10/09/2019 22:47

 

Refugees 4 (2015) - Liu Xiaodong - Créditos: Phillipescollection.org
Refugees 4 (2015) - Liu Xiaodong - Créditos: Phillipescollection.org

A parede verde-esmeralda enquadra perfeitamente os gestos afoitos de Muhammed. Aos 13 anos, o garoto é surdo e mudo e traduz com uma clareza minuciosa o horror de ter sobrevivido a um ataque do Estado Islâmico.

De joelhos, mostra com as mãos e gemidos estridentes como soldados do grupo faziam para amarrar, vendar e executar pessoas na Síria. 

Seu rosto está estampado em um vídeo de menos de quatro minutos intitulado "Wonderland", do artista turco Erkan Özgen, e é hoje a obra mais impactante na Phillips Collection.

A galeria de arte contemporânea de Washington abriga até 22 de setembro uma das maiores exposições do mundo sobre imigração e crise dos refugiados.

"The Warmth of Other Suns: Stories of Global Displacement" (do inglês, "o calor de outros sois: histórias do deslocamento global") mostra em filmes, fotos, quadros e instalações a dificuldade de se representar um trauma.

São 75 artistas –muitos deles imigrantes europeus, asiáticos e latinos– que tentam fazer uma reflexão ambiciosa sobre a crise imigratória no mundo, com cenas que vão desde movimentos do século 19 até as controvérsias atuais em torno da construção de um muro na fronteira dos Estados Unidos com o México.

Os três andares dedicados à exibição convidam para um roteiro forte e intenso, assim como os sons emitidos por Muhammed, que são ouvidos de outras salas em uma trilha sonora quase que obrigatória.

No primeiro pavimento, estão expostas 14 capas da revista italiana La Domenica del Corriere, semanal que era distribuída como suplemento do jornal italiano Corriere della Sera.

A revista dava destaque a desenhos e pinturas que retratavam o drama da migração em massa que envolveu 26 milhões de italianos entre 1876 a 1976 –quase metade da população do país.

Homens, mulheres e crianças que entravam nos navios com destino à América se misturam nas imagens coloridas que incluem o famoso naufrágio do Titanic, em 1912, com 1.600 pessoas a bordo.

Foi exatamente da Itália que a exposição hoje na capital americana acabou importada para a Phillips Collection, em parceria com o New Museum, de Nova York.

Em 2017, Milão expunha as obras que retratavam a tragédia dos refugiados que já deslocou cerca de 65 milhões de pessoas fugindo de guerras, perseguições políticas e violação dos direitos humanos.

"The Warmth of Other Suns" quer colocar o imigrante como parte da construção de um país –e não um objeto estranho a ele–, mas imprime nas obras as barreiras do percurso para se chegar em terra firme. O mar é uma das principais rotas de quem quer entrar na Europa, geralmente com origem da África ou do Oriente Médio, e é parte central da exposição.

O francês Kader Attia, por exemplo, fez de uma das salas da galeria palco para dezenas de peças de roupas e sapatos de tom azul, que remetem às vítimas que ficam pelo caminho nas travessias do Mediterrâneo.

Ao lado da instalação, é possível ler uma carta de apelo à União Europeia assinada pela prefeita de Lampedusa, ilha italiana onde 21 corpos de imigrantes que tentavam chegar ao país foram encontrados só em 2012.

"Não consigo entender como uma tragédia dessas pode ser considerada normal", escreve Giusi Nicolini.

A menos de 2 km da Casa Branca, de onde ecoa o discurso anti-imigração de Trump, a exposição conta também histórias que beira muros. 

A artista espanhola Griselda San Martin fez o retrato de famílias e indivíduos na barreira que já existe na fronteira entre EUA e México –e que o presidente americano quer ampliar desde sua eleição, em 2016.

"The Wall" é um dos resultados do projeto fotográfico que tomou a rotina de Martin nos últimos cinco anos.

O sistema de transporte público de Washington chegou a ameaçar não divulgar a exposição da Phillips Collection nas estações de metrô e nos pontos de ônibus da cidade.

Dizia que a legislação não permite anúncios que influenciam pessoas em torno de temas sobre os quais há opiniões variadas –ou mesmo considerados políticos.

Depois, voltou atrás. Os artistas querem justamente amplificar a tese de que a questão imigratória não é política, mas sim humanitária, e que a ideia de casa, como diz a indiana Zarina Hashmi, "é uma ideia que carregamos onde quer que vamos".

Confira algumas obras:

MOIA's NYC Women's Cabinet (2016), por Aliza Nisenbaum - Créditos: Phillipescollection.org
MOIA's NYC Women's Cabinet (2016), por Aliza Nisenbaum - Créditos: Phillipescollection.org

The Wall (2015-16), por Griselda San Martin - Créditos: Phillipescollection.org
The Wall (2015-16), por Griselda San Martin - Créditos: Phillipescollection.org
 

Don%u2019t Cross the Bridge Before You Get to the River (Strait of Gibraltar, Morocco-Spain) (still) (2008) - Créditos: Phillipescollection.org
Don%u2019t Cross the Bridge Before You Get to the River (Strait of Gibraltar, Morocco-Spain) (still) (2008) - Créditos: Phillipescollection.org
 



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