Bombardeios Autoridades apontam para ligação do Irã em ataques na Arábia Saudita

Por: Rodrigo Craveiro - Especial para o EM

Publicado em: 17/09/2019 08:48 Atualizado em:

HO/Planet Labs INC./AFP
HO/Planet Labs INC./AFP
Washington e Riad responsabilizaram Teerã pelos bombardeios às duas principais instalações petrolíferas da Arábia Saudita, no último sábado. “A investigação segue, e todas as indicações mostram que as armas usadas provêm do Irã”, afirmou o coronel Turki Al-Maliki, porta-voz da coalizão liderada pela Arábia Saudita contra os rebeldes huthis (xiitas) no Iêmen. Ele assegurou que os ataques não partiram do território iemenita e ameaçou uma retaliação direta contra Teerã. Para Al-Maliki, os huthis são um “instrumento nas mãos dos Guardiães da Revolução e do regime terrorista iraniano”.

As declarações de Al-Maliki foram uma resposta ao presidente norte-americano, Donald Trump. “Estamos armados, carregados e prontos a disparar, dependendo da verificação, mas estamos esperando ouvir do Reino (Arábia Saudita) quem eles creem que causou esse ataque”, escreveu o republicano no Twitter, na noite de domingo. No dia seguinte, Trump disse que “está parecendo” que o Irã é o culpado pelos ataques. “Nós deixaremos vocês saberem, definitivamente. Isso está sendo checado agora”, admitiu. “Os Estados Unidos estão mais preparados (para um conflito). Nós certamente o evitaríamos.”

Em outro tuíte, publicado nesta segunda-feira (16/9), Trump se referiu diretamente ao Irã: “Lembrem-se de quando o Irã abateu um drone, dizendo conscientemente que estava em seu ‘espaço aéreo’, quando, na verdade, não estava nem perto. Eles se apegaram fortemente a essa história sabendo que ela era uma grande mentira. Agora, dizem que não tiveram nada a ver com o ataque à Arábia Saudita. Veremos?” 

As autoridades americanas divulgaram imagens de satélite com detalhes dos danos causados em Abqaiq, a maior unidade de tratamento de petróleo bruto no mundo, e ao campo petrolífero de Khurais. Os ataques à Arábia Saudita levaram ao maior corte de produção de petróleo da história. “Os militares dos Estados Unidos (...) estão trabalhando com nossos parceiros para fazer frente a este ataque sem precedentes e para defender a ordem internacional, com base em um sistema de regras, contra a tentativa de miná-lo” por parte do Irã, disse o secretário de Defesa dos EUA, Mark T. Esper. Em meio à tensão ante uma possível retaliação saudita ou norte-americana, o presidente do Irã, Hassan Rohani, negou envolvimento direto nos atentados contra a infraestrutura petrolífera de Riad, mas tentou justificá-los. “O povo do Iêmen foi obrigado a reagir. Está apenas se defendendo”, disse, em Ancra, durante entrevista coletiva com os colegas Vladimir Putin (Rússia) e Recep Tayyip Erdogan (Turquia). Segundo o líder iraniano, os iemenitas exercem “legítima defesa” e “reciprocidade”, ante os bombardeios contra o seu país.

Desestabilização
Em visita a Bagdá, Jens Stoltenberg, secretário geral da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), admitiu estar “extremamente preocupado” com a situação e acusou o Irã de “desestabilizar a região inteira”. A Rússia externou solidaridade com a Arábia Saudita, enquanto a China e a União Europeia defenderam moderação por parte de Washington, Riad e Teerã.

Alon Ben-Meir, professor de relações internacionais da Universidade de Nova York, disse ao Correio que pode não ter existido um envolvimento direto de Teerã nos bombardeios às refinarias. “No entanto, o fato de Teerã suprir os rebeldes huthis com os mísseis usados os torna cúmplices”, opinou. O especialista duvida que os EUA ataquem o Irã em retaliação à ofensiva dos huthis contra a infraestrutura petrolífera saudita. “Pelo que sei, EUA e Irã mantêm negociações em andamento com a ajuda de uma terceira parte, a fim de começarem a dialogar sobre o programa nuclear de Teerã. Por isso, acho que Trump se absterá de atacar o Irã neste momento.”

O saudita Ali Al Ahmed, especialista do Instituto para Assuntos do Golfo (em Washington), afirmou à reportagem que os mísseis e drones utilizados nos bombardeios são de origem iraniana, mas lembrou que o Iêmen também projeta armamentos baseados naqueles pertencentes ao Irã. “Ainda acredito que o Iêmen esteja por trás dos ataques. Os Estados Unidos desejam aumentar a pressão sobre Teerã. É uma manobra conveniente: os americanos lançam o Irã no meio disso e evitam serem responsabilizados por seu papel nos crimes de guerra no Iêmen”, explicou.

Moscou oferece mísseis a Riad
O presidente russo, Vladimir Putin, ofereceu à Arábia Saudita a compra de um sistema de mísseis antiaéreos para defender seu território após os ataques registrados contra sua infraestrutura de petróleo durante o fim de semana. “Estamos dispostos a ajudar a Arábia Saudita para que ela possa proteger seu território. Isso poderia ser feito da mesma maneira que o Irã, comprando sistemas de mísseis russos S-400”, disse Putin em Ancara. “Essas armas certamente protegerão qualquer sítio de infraestrutura na Arábia Saudita”, acrescentou.


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