ATUALIDADE Pesquisa mostra que quem posta muita selfie é visto como inseguro

Por: Correio Braziliense

Publicado em: 25/08/2019 14:33 Atualizado em: 25/08/2019 14:43

Foto: INDRANIL MUKHERJEE / AFP
Foto: INDRANIL MUKHERJEE / AFP
Segundo Martha Medeiros, atualmente, “é um luxo poder sofrer sem ter ninguém nos observando”. A frase da escritora brasileira pode ser usada para resumir a influência das redes sociais no cotidiano. As plataformas tecnológicas têm sido usadas para compartilhar exaustivamente momentos felizes, mas a tristeza não é totalmente ofuscada, segundo cientistas norte-americanos. Em um estudo, pesquisadores concluíram que pessoas que postam muitas selfies são vistas como mais inseguras e menos agradáveis por outros usuários da rede. Outra equipe concluiu que grande parte dos adultos que faz postagens sobre o uso de drogas acaba se arrependendo, o que pode maximizar os danos causados pelos entorpecentes. Para especialistas, resultados como esses reforçam a necessidade de uma maior atenção à forma como temos nos comportado nas redes virtuais.

Pesquisadores da Universidade Estadual de Washington estudaram o efeito das famosas selfies por cinco anos. Eles suspeitavam que os autores das imagens poderiam sofrer algum tipo de efeito comportamental em decorrência das postagens. “Em nossos trabalhos anteriores sobre esse tipo de foto tão comum, nos concentramos em saber se a autopercepção estava relacionada à publicação, mas não encontramos muitas relações. Então, nos perguntamos se a percepção de quem via essas fotos sofreria alguma alteração”, conta ao Correio Chris Barry, professor do Departamento de Psicologia da universidade e principal autor do estudo, publicado, na última terça-feira, no Journal of Research in Personality.

Chris Barry e seus colegas analisaram dados de dois grupos de estudantes. O primeiro era composto por 30 alunos de graduação de uma universidade pública no sul dos Estados Unidos. Eles foram convidados a preencher um questionário de personalidade e concordaram em deixar os pesquisadores usarem as 30 postagens mais recentes em uma rede social de exposição de fotos. As postagens foram divididas em selfies e poses normais. O segundo grupo tinha 119 alunos de graduação de uma universidade no noroeste do país. Para eles, os cientistas pediram que classificassem os perfis de fotos do primeiro grupo considerando 13 atributos — entre eles, autoabsorvido (focado em si), baixa autoestima, extroversão e sucesso.

A análise mostrou que os estudantes que postaram mais fotos com poses eram vistos como relativamente mais autoconfiantes, mais aventureiros, menos solitários, mais extrovertidos, mais confiáveis, mais bem-sucedidos e com alto potencial de ser um bom amigo. O inverso foi registrado com relação aos participantes que tinham publicado um número maior de selfies. “Em outras palavras, postar selfies pode não informar muito sobre a personalidade ou os motivos de quem publicou. Mas há o risco de haver percepções ou julgamentos de terceiros em relação a esse comportamento”, detalha Chris Barry.

O autor do estudo ressalta que os questionários de personalidade resultaram em classificações negativas para os respondentes que postavam mais fotos com culto à aparência física, como realizando uma flexão no espelho. O estudo mostrou ainda que os alunos do primeiro grupo classificados pelos do segundo grupo como altamente autoabsorvidos tenderam a ter mais seguidores na rede social, e também seguiam mais usuários. “Uma das coisas que devemos ressaltar é que nenhum desses estudantes se conhecia ou estava ciente do número de seguidores das pessoas que estavam avaliando, o que ajuda a dar mais validade aos nossos dados”, ressalta Chris Barry.

Contrastes
Para o psicólogo Vladimir Melo, a pesquisa mostra dados interessantes e um contraste inesperado. “O estudo permite compreender a contradição que existe entre a exposição dos jovens nas redes sociais e o ponto de vista crítico que eles adotam observando os seus pares”, explica. O especialista também observa que, mesmo com uma “imagem negativa”, o compartilhamento de imagens é mantido. “A exposição gerada pelo excesso de selfies tem resultados negativos para a imagem dos jovens dentro de um grupo, mas isso não inibe esse comportamento. As pessoas, em geral, reconhecem o prejuízo pela excessiva exposição de dados e da própria imagem na internet, mas têm dificuldade de se relacionar fora dessas redes”, diz.

Para os autores do estudo, as reações geralmente positivas às fotos postadas podem ter ocorrido devido ao fato de as  imagens parecerem mais naturais, similares à forma como as pessoas são vistas na “vida real”. A equipe, porém, não descarta a contribuição de outros fatores e ressalta que os resultados obtidos podem ter efeitos práticos. “Embora as descobertas sejam apenas uma pequena peça do quebra-cabeça, elas podem ser importantes. A pessoa pode se lembrar delas antes de fazer o próximo post”,  ilustra Chris Barry.  “Mesmo que não tenhamos a intenção de que uma publicação seja percebida pelos outros de uma certa maneira, é interessante sabermos que certas sugestões em nossas postagens podem estar relacionadas ao modo como nossos seguidores/amigos nos percebem”, complementa.

Segundo Vladimir Melo, a exposição excessiva pode se tornar um problema para a imagem de quem está nas redes sociais. “Isso faz com que as pessoas busquem novas atrações, novos espetáculos, pois se trata de um meio extremamente volátil. Encontrar a medida certa de exposição na rede social se tornou um trabalho, por exemplo, para muitos influenciadores, que criam cada vez mais recursos para manter a atenção dos internautas. Portanto, permanecer sempre em evidência e sem entediar é um desafio para quem busca reconhecimento no mundo virtual”, frisa.

O especialista brasileiro também acredita que o tema merece ser mais investigado. “O estudo ajuda a compreender como as pessoas se percebem nas redes sociais, mas essa ainda é uma questão recente, que precisa ser analisada profundamente. De qualquer modo, esses são dados preciosos, que podem ser usados para aperfeiçoar as redes sociais”, diz. 

Para o psicólogo, a análise do comportamento on-line pode contribuir para a pesquisa.“A tecnologia vem sendo bem explorada para influenciar as pessoas e tem sido decisiva, por exemplo, em eleições e na economia mundial. É difícil dizer onde a tecnologia não influencia. O interesse maior, para os pesquisadores, é saber como ocorre essa influência e que tipo de ganhos ela pode proporcionar”, diz.

Risco de efeito rebote 
Postagens em redes sociais, muitas vezes, são feitas sob o efeito de drogas, e esse hábito pode ser prejudicial os usuários, alerta um estudo publicado, no início deste mês, na revista especializada Substance Abuse. “Mensagens de mídia social consideradas arriscadas, incluindo aquelas que mostram pessoas com drogas, têm o potencial de causar constrangimento, estresse e conflitos para os usuários”, ressalta Joseph Palamar, principal autor do estudo e professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Nova York, nos Estados Unidos.

Na pesquisa, Joseph Palamar e sua equipe examinaram dados de 872 adultos, que foram entrevistados antes de entrarem em festas de música eletrônica na cidade de Nova York e relataram o interesse de usar drogas (álcool, maconha ou cocaína) durante o evento. Após a festa, os participantes foram questionados se se ligaram e mandaram mensagens para alguém, se estavam sob o efeito de drogas durante a comunicação e se se arrependiam disso.

Mais de um terço dos participantes (34,3%) postou nas redes sociais, com 21,4% lamentando o fato. Além disso, mais da metade (55,9%) enviou mensagens de texto ou telefonou para alguém enquanto estava no nível mais alto do efeito da droga, com 30,5% lamentando ter feito uma ligação ou enviado um texto. “Pelo menos um em cada cinco dos entrevistados sentiu arrependimento, sugerindo que esse comportamento pode gerar efeitos sociais prejudiciais ou embaraçosos”, frisa Joseph  Palamar.

A pesquisa também mostrou que as mulheres são mais propensas a usar as mídias sociais nessa situação, e que, em comparação com os usuários de outras drogas, os adultos que consumiram maconha apresentaram menor risco de se engajar nesses comportamentos de risco, enquanto os consumidores de cocaína apresentaram riscos maiores.

Prevenção
Para os autores do estudo, os dados obtidos podem ajudar na criação de estratégias de prevenção ao uso de drogas. “Embora mais pesquisas sejam necessárias, nossas descobertas sugerem a necessidade de programas de prevenção ou redução de danos para educar grupos de alto risco, não apenas sobre os efeitos adversos do uso de substâncias, mas também sobre os possíveis resultados sociais negativos”, explica Joseph Palamar. “Embora os programas de prevenção tenham se concentrado principalmente na segurança física — por exemplo, não dirigir depois de beber —, essas ações também podem enfatizar que o uso de um smartphone pode aumentar o risco de alguém se arrepender”, complementa.

Fábio Henrique Mendonça Corrêa, psiquiatra do Instituto Castro e Santos (ICS), em Brasília, acredita que o estudo norte-americano mostra dados que servem como alerta importante para a população. “Sabemos que as pessoas sob efeito de drogas podem perder a noção do certo e do errado, e, com as redes sociais, isso fica ainda mais fácil de acontecer. É algo muito fácil, o celular está ali, nas mãos. E isso é muito ruim, pois pode gerar alguns danos significativos. Por exemplo, muitas empresas buscam saber mais dos candidatos pelas redes sociais, isso pode fazer com que a pessoa perca a oportunidade de ser contratada”, ilustra.


O especialista frisa que as redes sociais têm benefícios. “Muita gente que sofre distúrbios comportamentais, como a depressão, consegue ajuda por meio delas”, exemplifica. “Mas é importante considerar esses riscos também para usá-las da melhor forma possível.” Fábio Henrique Corrêa também acredita que essas informações podem ajudar a incrementar campanhas de combate às drogas e que uma continuação do estudo é muito bem-vinda. “Podemos usar esses dados para reforçar os danos relacionados ao uso dessas substâncias, e seria muito interessante também saber se cada droga está relacionada a um tipo de comportamento diferente”, sugere.   




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