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Separatistas querem mobilizar 100 mil homens no leste da Ucrânia

Publicado: 02/02/2015 às 18:50

Combatentes ucranianos descarregam um avião com ajuda humanitária de voluntários no leste do país/Oleksandr Ratushniak/AFP

Combatentes ucranianos descarregam um avião com ajuda humanitária de voluntários no leste do país(Oleksandr Ratushniak/AFP)

Confiantes após as derrotas infligidas nas últimas semanas ao Exército ucraniano, os rebeldes pró-russos anunciaram nesta segunda-feira sua intenção de mobilizar 100.000 homens, mais uma prova de que o processo de paz no leste da Ucrânia está paralisado desde o fracasso das negociações no último fim de semana em Minsk.

"A mobilização geral acontecerá na República Popular de Donetsk em dez dias. Prevemos mobilizar até 100.000 homens", declarou o líder da autoproclamada república de Donetsk Alexandre Zakhartchenko, citado pela agência oficial separatista DAN.

Essas declarações da direção rebelde ocorrem após o fracasso das negociações de paz em Minsk sábado visando a assinatura de um acordo de cessar-fogo permanente, a fim de acabar com um conflito que já deixou mais de  5.000 mortos em nove meses.

Na semana passada, os rebeldes ameaçaram estender sua ofensiva a todo o território das regiões de Donetsk e Lugansk, em grande parte ainda controlado pelas autoridades de Kiev, em caso de fracasso das negociações.

Segundo o porta-voz do exército ucraniano, Andri Lyssenko,os anúncios de Zakhartchenko "significam que os rebeldes não têm recursos humanos e não chegaram a atingir seus objetivos, a saber a tomada da cidade estratégica de Debaltseve", entroncamento ferroviário que liga as capitais rebeldes de Donetsk e Lugansk e palco de intensos combates nas últimas semanas.

"O conflito tem tomado uma amplitude sem precedentes", reconheceu nesta segunda-feira Yuri Lutsenko, próximo do presidente ucraniano Petro Poroshenko.

Para Sergui Zgurets, especialista militar independente em Kiev, este anúncio poderia antecipar o envio de importantes reforços da Rússia, cujo governo desmente qualquer envolvimento no conflito.

"As repúblicas separatistas não têm os meios para mobilizar tantos homens, se não é com mercenários russos", destacou.

Segundo outro analista ucraniano, Olexandre Sushko, à Rússia, que participa ao lado da Organização para a Segurança e a Cooperação na Europa (OSCE) nas negociações de paz de Minsk, "não interessa negociar um cessar-fogo antes de infringir uma importante derrota militar à Ucrânia para poder ditar estas condições".

Mas Kiev não dá sinais de arrefecimento: as autoridades lançaram no final de janeiro uma quarta série de mobilização, que deve atingir cerca de 50.000 homens.

Nesta segunda-feira, líderes separatistas informaram que 242 civis e 92 de seus combatentes morreram no mês de janeiro. Outros 411 combatentes ficaram feridos. Mais de 50 pessoas perderam a vida nos confrontos do fim de semana passado.

Ceticismo em Donetsk

Mas em Donetsk, reduto dos separatistas pró-russos, o anúncio da próxima mobilização é recebido com ceticismo.

"Não acredito que dará resultados. Ou é falso, ou trata-se de uma estratégia da imprensa ucraniana, reagiu  Alexandre, de 28 anos,  un funcionário de uma companhia de transportes que apoia as autoridades separatistas.

"Mas se for verdade o objetivo é matar toda a população de Donetsk", acrescentou, considerando que Zakhartchenko está "destruindo a popularidade que conseguiu junto aqueles que o apoiaram".

Vitali, um web-designer de 24 anos, considera, que por sua vez, que tais iniciativas "levam a um impasse". "A cada dia e sinto um pouco mais refém das autoridades separatistas", desabafa.

A situação tem degenerado perigosamente no terreno nas últimas semanas, com pesada perdas entre os soldados ucranianos e os civis na linha de frente.

Doze pessoas, incluindo sete civis, morreram nas regiões de  Donetsk e Lugansk nas últimas 24 horas, após um fim de semana sangrento que registrou 50 vítimas entre soldados e civis.

Armas letais à Ucrânia?

Sinal da preocupação crescente do Ocidente ante a perspectiva de uma vitória rebelde, o comando militar da Otan e membros da administração americana estão prontos a apoiar o envio de armas defensivas letais às forças ucranianas, afirmou no domingo o jornal New York Times.

O presidente Barack Obama ainda não tomou uma decisão oficial sobre o envio de "uma ajuda letal", mas sua administração tem evocado o assunto em razão do aumento dos combates entre a forças de Kiev e os separatistas apoiados pela Rússia, de acordo com o jornal.

Na quinta-feira, o chefe da diplomacia americana, John Kerry, realizará uma visita à Ucrânia para expressar "firme apoio" às autoridades pró-ocidentais de  Kiev.

Os Estados Unidos acusam a Rússia de conduzir uma guerra por procuração na Ucrânia, mas excluem até este momento o fornecimento de armas às autoridades de Kiev.

Um relatório americano independente, redigido por vários especialistas, incita os Estados Unidos a enviar armas defensivas e equipamentos por um valor total de 3 bilhões de dólares, entre os quais drones de conhecimento e mísseis anti-tanques, para lidar com uma situação "crítica".

"Outros membros da Otan devem ajudar a equipar as tropas ucranianas com antigos equipamentos soviéticos, compatíveis com aqueles do exército ucraniano", acrescenta este relatório, redigido por ex-autoridades da Otan e embaixadores dos Estados Unidos na Ucrânia.
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