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Beleza do futuro pede maquiagem natural

Produções suaves, divertidas e autênticas devem dominar as passarelas e ruas nas próximas temporadas, reforçando demanda social por respeito à diversidade

Publicado em: 04/11/2019 16:12 | Atualizado em: 04/11/2019 16:20

Desfile de Lino Villaventura foi um dos que contou com participação do pernambucano nos bastidores. Foto: Nelson Almeida/AFP

As buscas por conforto, reafirmação da própria identidade e libertação de padrões de beleza pré-determinados devem nortear a maquiagem da próxima década. É o que apontam especialistas do setor e foi, também, o que o maquiador pernambucano Mateus Rodrigues percebeu nos bastidores da última São Paulo Fashion Week. Convidado por Marcos Costa, maquiador da Natura, Mateus executou produções concebidas por Marcos para os desfiles de Fernanda Yamamoto e Lino Villaventura, destaques na última semana de moda paulistana. E, em entrevista ao Diario, analisou o que viu. “A maquiagem está mais divertida. A maioria das produções trazia algum elemento criativo, e todas eram marcadas por naturalidade e identidade. Não vimos aquela perseguição por uma beleza perfeita. Percebemos uma beleza mais divertida, mais natural. Muitas maquiagens trouxeram, inclusive, um ar desfeito, como se a pessoa tivesse 'vivido' aquela maquiagem ou se produzido sem se importar demais”, conta Mateus Rodrigues, conhecido artisticamente como Phyno (@phynocomph_).

Para ele, as demandas sociais da atualidade tem sido determinantes para moldar novas diretrizes para a beleza, agora mais libertária e original. “Acho que há, há muito tempo, mas com mais intensidade nos últimos dois anos, um movimento que acompanha o movimento das ruas. Um movimento por liberdade de padrões. Liberdade estética”, analisa. Publicações especializadas no segmento reforçam que o estilo “no makeup” (sem maquiagem, em tradução livre) deve permanecer relevante na cena internacional, assim como o efeito glossy (brilho com aspecto molhado) e as produções mais coloridas. “Além da manutenção do estilo 'no makeup', a maquiagem divertida e menos regrada também é mais vista com frequência”, apostou a publicação francesa L'Officiel, referência para o setor, em previsões para a próxima década. Pesquisas nacionais corroboram: “O consumidor passa a se guiar pelo mote 'minha beleza, minhas regras'. Ele não aceita mais que a indústria determine o que é belo e os produtos que devem ser adquiridos para alcançar esse padrão. O que ele deseja é que as marcas apresentem uma grade de produtos e serviços que atenda à definição pessoal e individual a respeito do que é se sentir bem”, apontam levantamentos do Sebrae no Caderno de Tendências 2019-2020 para os segmentos de higiene pessoal, perfumaria e cosméticos.

No SPFW, Mateus reproduziu a beleza criada pelo maquiador Marcos Costa. Foto: Arquivo pessoal/Divulgação
“Segundo uma pesquisa realizada pela Mintel, 40% das americanas que usam maquiagem, com idades entre 25 a 34 anos, se dizem frustradas porque não encontram produtos que combinam com o tom de pele delas, enquanto 33% das brasileiras, com idades entre 19 e 35 anos, dizem que gostariam de ver mais anúncios com pessoas de diferentes tipos e formatos de corpo. Ou seja: um padrão apenas não serve mais”, complementa a publicação especializada. “Cada dia é mais difícil pensar em tendências, especialmente em relação a beleza. O que é ótimo. Porque há uma beleza para um, e isso é maravilhoso. De forma geral, as peles continuam muito naturais, com efeito glow, mas nada pesado. Não há contornos marcados, iluminadores marcados. O momento é de respeitar muito a textura da pele, e acho que isto é o principal: o respeito às características e à identidade de cada pessoa, inclusive da pele dela”, pondera Mateus Rodrigues.

Nos bastidores da última SPFW, o jovem se emocionou ao ver a fila de modelos produzidas, prestes a cruzar a passarela, depois de replicar nelas as maquiagens idealizadas e demonstradas por Marcos Costa (@realmarcoscosta), maquiador-chefe da equipe de beauty artists que o pernambucano integrou. “Pouco antes do desfile de Fernanda Yamamoto começar, passamos um pouco de óleo no rosto das modelos, meio que desmanchando um pouco do que estava feito, dando aspecto glowy às peles. Há um senso de diversão nisso, de expressividade. De se divertir mais e se importar menos com a perfeição e com os padrões”, pontua Mateus, que participou do evento pela primeira vez. Para ele, essa edição da fashion week paulistana se revelou mais diversa e inclusiva, o que teria se refletido nas produções. “Acho que tudo que fala de inclusividade e individualidade só vai se fortalecer daqui em diante. Contrariando tudo que a gente tem visto nas decisões de poder, na esfera política, a diversidade é um caminho irreversível. Pelo menos, na moda”, ele conclui.

>> TRÊS PERGUNTAS: Mateus Rodrigues, maquiador

A beleza natural é uma tendência sem volta? O que ela indica?
Eu acho que a beleza mais natural é um reflexo do que está nas ruas. A gente caminha para isso, cada vez mais. A beleza natural é uma beleza que respeita a mulher, o homem, quem está usando aquela maquiagem. Não tenta encaixar a pessoa em nenhum padrão, mas ressaltar o seu melhor. É um caminho sem volta, ainda bem.

Quais as principais apostas para as próximas temporadas?
Naturalidade, identidade, leveza. E muitas cores. Maquiagens divertidas, coloridas, com brilho, com efeito glowy. Vi muitos tons de rosa. Rosa clarinho, rosa coral, rosa intenso… presentes de várias formas, no blush marcado, na boca natural, no olho rosa. Além das cores, também veremos muitos produtos cremosos com acabamento confortável, natural e brilhante. A ideia, agora, é diversão. Brincar com as cores, adicionar elementos, criar. Se jogar, sem buscar a perfeição, procurando se divertir.

Como foi sua experiência na SPFW, em linhas gerais?
Fui convidado por Marcos Costa, maquiador oficial da Natura, e integrei a equipe de beauty artists que ele coordenou. Foi minha primeira fashion week, foi a realização de um sonho. Marcos assinou a beleza dos desfiles de Fernanda Yamamoto e Lino Villaventura, e eu fui um dos maquiadores assistentes. Ele criou as maquiagens, e nós executamos nas modelos. Acompanho a SPFW há anos, desde antes de ser maquiador. Estar lá foi uma experiência de muito aprendizado: é preciso ser rápido, executar as coisas da melhor forma, no menor intervalo de tempo possível. É muito bom, muito emocionante. No desfile de Lino, chorei de emoção. Me senti parte daquele todo, parte de uma equipe que estava ajudando a criar uma imagem muito forte, muito bonita, que vai influenciar pessoas. 

O maquiador aposta em tons de rosa e pele iluminada, sem marcações evidentes. Foto: Arquivo pessoal/Divulgação


>> DICAS

Aposte na pele bem hidratada, saudável. “Reforçamos esse aspecto aplicando óleo sobre o rosto das modelos. Mas, no dia a dia, a hidratação vem antes. Cada um pode hidratar a pele como preferir”, explica Mateus.

- Corrija somente o que lhe incomodar. “Na maioria das modelos, nem usamos base. Ou usamos a base como corretivo. A ideia é corrigir somente o necessário. A olheira, alguma marquinha, alguma espinha. Mas, ainda assim, não corrigindo 100%. Deixando algum detalhe, alguma coisinha ali. Para deixar o rosto o mais natural possível”, recomenda.

- Não tenha medo do blush. Nas próximas temporadas, o blush pode ser mais marcado, rosado, mais divertido. Não tenha medo de experimentar.

- Invista no batom rosé. “Um batom leve, rosé, é uma boa aposta. Deixa a boca com cara de saúde, natural”, indica o maquiador. Quem quiser, pode aplicar um gloss coral por cima do batom. Ou um gloss transparente, bem luminoso.
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Resistência nordestina em cartaz

Diego Rocha *
Celebrando a resistência da arte nordestina e a arte nordestina de resistir, o 21º Festival Recife do Teatro Nacional está em cartaz na cidade para confirmar a vocação de um povo à resiliência e à criatividade. Até o próximo dia 24, a programação montada com muita assertividade pela Prefeitura do Recife irá apresentar 12 espetáculos em vários teatros da cidade, entre eles seis montagens nacionais jamais vistas na capital do Nordeste.
Mas não está toda no ineditismo a urgência que esses espetáculos carregam. Mas também e principalmente na referência e reverência que muitos fazem à estética e às temáticas fincadas no árido solo fértil do Nordeste. Alguns textos, como o da montagem Ariano %u2013 O Cavaleiro Sertanejo, da companhia carioca Os Ciclomáticos sequer foram produzidos no Nordeste. Mas sabem, bebem e comungam do povo que somos. Foram buscar inspiração em autores ensolarados como Ariano Suassuna e os tantos tipos e símbolos que ele fundou e transportou do imaginário nordestino para o mundo.
Há na programação citações ainda mais explícitas à nossa produção teatral. Parido do punho do próprio Ariano, em carne e pena, o clássico Auto da Compadecida chega ao Festival com sotaque mineiro, numa belíssima montagem do Grupo Maria Cutia, com a direção cênica precisa e sensível de Gabriel Villela, que conseguiu unir a cultura do cangaço pernambucano ao barroco mineiro, sem sair da trilha aberta pelo Movimento Armorial de Ariano.
São montagens que nos representam e, ao mesmo tempo, nos apresentam a nós mesmos, além de nos hastear bandeira a congregar territórios artísticos, afetivos e cívicos, num país assombrado e repartido por um projeto de poder excludente. Em cima e embaixo dos palcos, durante e depois do 21º Festival Recife do Teatro Nacional, que a arte e a força nordestina persistam farol aceso a nos guiar.

* Presidente da Fundação de Cultura Cidade do Recife

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