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Amor-próprio

Por Elas mostra que a beleza vai além dos padrões estéticos

Projeto incentiva mulheres a aceitarem seus corpos e amá-los como são

Publicado em: 19/02/2018 08:18 | Atualizado em: 19/02/2018 09:22

"Você vai reconhecer o tamanho que você possui, o valor que você carrega e o quanto você é incrível. Vai agradecer por todos os machucados que você mesma se curou, vai até sorrir pra quem um dia foi o motivo da tua dor." (Autor: @iandealbuquerque). Foto: Leangel Ramos/Divulgação

Aceitar-se nunca foi uma tarefa fácil para a pernambucana Leangel Ramos. Ainda em seus primeiros meses de vida, Céu, como gosta de ser chamada, foi diagnosticada com Hiperplasia Adrenal Congênita (HAC), uma doença genética caracterizada por distúrbios no funcionamento das glândulas adrenais, o que desencadeia a falta de produção de hormônios adrenaise responsáveis pela manutenção do nível de açúcar no sangue e pela conservação da água e sal no organismo, dentre outras funções. Uma outra característica da HAC é a ambiguidade sexual.

Com um ano de idade - hoje tem 26 anos - ela passou por uma genitoplastia feminizante, o que desenvolveu problemas de autoaceitação e crises de depressão ao longo de sua vida. “Para mim sempre foi difícil aceitar meu corpo por conta da minha magreza excessiva e da mutilação genital desnecessária que sofri. Em consequência disso, passei a ter vários distúrbios emocionais. Após uma crise forte de depressão, que durou seis meses, encontrei na fotografia motivos para seguir em frente”, revela.

Antes de serem registradas pelas lentes de Céu, a fotógrafa busca conversar e criar uma ligação com cada uma. Foto: Leangel Ramos/Divulgação

Em outubro de 2016, a estudante de engenharia civil sentiu a necessidade de mudar em si e em outras pessoas o modo como se viam, já que a sociedade em sua maioria, impõe que para ser bonita tem que ter as medidas ideais, o cabelo perfeito, entre outros “padrões”. Visando quebrar esse paradoxo da beleza, Céu criou o Por Elas. O projeto promove ensaios fotográficos com mulheres de todas as cores e formas, despidas em lugares que fogem do comum.

“Eu percebi que se elas pudessem se ver em seu momento cru, numa fotografia, poderiam se enxergar com outros olhos e isso estimularia a autoestima delas, e é o que exatamente estou conseguindo alcançar ao longo desse tempo. Elas me falam que esses registros mostraram o potencial que há dentro de cada uma e que passaram a se amar como são. A cada mulher que eu fotografo, me desconstruo também e passo a me observar de outra forma. Tem sido uma troca de empoderamento. Tudo isso tem sido meu refúgio depois que saí da depressão e tem me ajudado a dar um passo à frente”, detalha.

Mais de 50 mulheres de 14 estados diferentes já posaram para o Por Elas. Antes de serem registradas pelas lentes de Céu, a fotógrafa busca conversar e criar uma ligação com cada uma. “Dialogamos muito antes. Quando elas me procuram para fazer o ensaio, há insegurança, pois boa parte delas carrega a insatisfação com seus corpos e busca fazer isso para quebrar esse sentimento. Normalmente, quando nos encontramos, elas ficam um pouco tímidas e durante o trabalho vão percebendo o quão natural é o nu, a ponto de alguns minutos depois já se sentirem libertas desse tabu da nudez e isso é fantástico. E quando elas veem o resultado, sentem-se ainda mais livres e isso é transformador para mim”, afirma.

Mais de 50 mulheres de 14 estados diferentes já posaram para o Por Elas. Foto: Leangel Ramos/Divulgação

As fotos são publicadas no Instagram @porelass, que possui quase 20 mil seguidores. “Diariamente eu recebo muitas mensagens de mulheres que relatam que passaram a se amar mais ao verem as fotografias de pessoas tão reais quanto elas. A receptividade tem sido maravilhosa. Nosso público é formado por 82% de mulheres. No começo, eu tinha muito medo de publicar por se tratar de ensaios com nus. Mas tem sido lindo ler inúmeras mensagens de identificação, mulheres marcando outras para que elas vejam meninas lindas como elas. Até homens também enviam mensagens de apoio. Tem sido muita luz é como eu defino. Tudo que é feito de amor, só se pode haver retorno de amor”, complementa.

A cada foto publicada, um poema é colocado para compor a postagem. “Eu defino a fotografia como uma arte mágica. É o registro mais belo de um momento único. E uma fotografia feita com amor capta exatamente todos os detalhes, que talvez tenham passado despercebidos por tantos anos. Os textos que coloco geralmente são de poetas mulheres. Vejo que, além das fotos, muitos dos poemas contam muito sobre diversas situações já vividas por elas e outros servem como uma força de empoderamento”, pontua.

"Cada mulher possui seu tempo de desconstrução. Mas é certo que, no final, todas acabam se redescobrindo". Leangel Ramos, Fotógrafa. Foto: Arquivo Pessoal

Hoje, Céu ainda não se sente totalmente à vontade com seu corpo, mas frisa: “Eu tenho buscado me superar a cada dia. Eu não sei se um dia vou conseguir chegar a ficar 100% comigo mesma. Contudo, eu vejo que a minha missão é ajudar essas mulheres a se amarem mais. Fotografá-las e transformar a vida delas é algo que vai me deixar grata pelo resto da minha vida. E vou continuar lutando contra a mutilação genital para as meninas que também possuem a HAC”, finaliza.

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Resistência nordestina em cartaz

Diego Rocha *
Celebrando a resistência da arte nordestina e a arte nordestina de resistir, o 21º Festival Recife do Teatro Nacional está em cartaz na cidade para confirmar a vocação de um povo à resiliência e à criatividade. Até o próximo dia 24, a programação montada com muita assertividade pela Prefeitura do Recife irá apresentar 12 espetáculos em vários teatros da cidade, entre eles seis montagens nacionais jamais vistas na capital do Nordeste.
Mas não está toda no ineditismo a urgência que esses espetáculos carregam. Mas também e principalmente na referência e reverência que muitos fazem à estética e às temáticas fincadas no árido solo fértil do Nordeste. Alguns textos, como o da montagem Ariano %u2013 O Cavaleiro Sertanejo, da companhia carioca Os Ciclomáticos sequer foram produzidos no Nordeste. Mas sabem, bebem e comungam do povo que somos. Foram buscar inspiração em autores ensolarados como Ariano Suassuna e os tantos tipos e símbolos que ele fundou e transportou do imaginário nordestino para o mundo.
Há na programação citações ainda mais explícitas à nossa produção teatral. Parido do punho do próprio Ariano, em carne e pena, o clássico Auto da Compadecida chega ao Festival com sotaque mineiro, numa belíssima montagem do Grupo Maria Cutia, com a direção cênica precisa e sensível de Gabriel Villela, que conseguiu unir a cultura do cangaço pernambucano ao barroco mineiro, sem sair da trilha aberta pelo Movimento Armorial de Ariano.
São montagens que nos representam e, ao mesmo tempo, nos apresentam a nós mesmos, além de nos hastear bandeira a congregar territórios artísticos, afetivos e cívicos, num país assombrado e repartido por um projeto de poder excludente. Em cima e embaixo dos palcos, durante e depois do 21º Festival Recife do Teatro Nacional, que a arte e a força nordestina persistam farol aceso a nos guiar.

* Presidente da Fundação de Cultura Cidade do Recife

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