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Notícia de Moda
Maquiagem 'É uma atitude política', diz pernambucano pioneiro em desafio de maquiagem O estudante Mateus Rodrigues, o Phyno, publica uma nova produção por dia nas redes sociais e exalta o empoderamento que a maquiagem pode oferecer

Por: Larissa Lins - Diario de Pernambuco

Publicado em: 29/10/2017 11:01 Atualizado em: 27/10/2017 16:25

Aos 19 anos, Mateus se inspira em ícones da música pop e tendências dos anos 1980. Foto: Gabriel Melo/Esp. DP/DA Press
Aos 19 anos, Mateus se inspira em ícones da música pop e tendências dos anos 1980. Foto: Gabriel Melo/Esp. DP/DA Press


Uma jornada de empoderamento e autodescoberta separa o mês de agosto em que o estudante pernambucano Mateus Rodrigues se maquiou pela primeira vez e o agosto seguinte, quando ele se tornou o primeiro brasileiro a encarar o Desafio 100 Dias de Maquiagem, proposto na internet. Durante o intervalo entre os dois eventos, o jovem acumulou um arsenal de cosméticos, adquiriu habilidade com os pincéis e passou a propagar na capital pernambucana o uso da maquiagem como ferramenta de construção da própria identidade, desmistificando a participação masculina no segmento. Hoje, a menos de 20 dias da conclusão do desafio, Mateus se tornou referência para seguidores virtuais de todo o país: moda e indústria cosmética, ele ensina, podem ajudar as pessoas a se tornarem quem elas sempre quiseram ser.

“É uma forma de mostrar ao mundo a persona que você vê em si mesmo. E, além disso, [maquiagem] é uma atitude política. Eu sendo um homem e saindo de casa maquiado, frequentando diferentes espaços com meu rosto pintado, isso é um discurso de libertação. Eu me imponho ali”, avalia o estudante. Aos 19 anos, ele é reconhecido pelo codinome Phyno e se destaca pelo pioneirismo no Brasil em meio às mais de 350 mil publicações com a hashtag #100daysofmakeup, propagadas no Instagram por maquiadores profissionais e amadores de todo o mundo.

Não se considera, contudo, caso isolado: é parte, segundo ele, de uma geração disposta a subverter padrões e abrir caminhos em meio a preconceitos e convenções, fazendo uso de ferramentas como música, moda e estilo pessoal para travar suas batalhas e defender ideologias. “Eu faço parte de um todo, a minha geração é assim. Sobretudo nas redes sociais, onde os debates estão mais avançados e o mundo parece estar mais à frente, mais no futuro. Todas as discussões podem ser encontradas nas redes e todos se sentem mais livres nesse ambiente virtual”, diz.

No Instagram, o pernambucano publica uma maquiagem por dia e serve de inspiração a meninos de todo o país. Fotos: Instagram/Reprodução da internet
No Instagram, o pernambucano publica uma maquiagem por dia e serve de inspiração a meninos de todo o país. Fotos: Instagram/Reprodução da internet

Uma busca rápida pelos marcadores #100daysofmakeup e #100daysofmakeupchallenge revela, de fato, produções de todos os tipos, remetidas à rede a partir de vários pontos do globo. São maquiagens artísticas, cinematográficas, casuais, estampando milhares de rostos livres, coloridos. Há alguns contornados, transformados, propositadamente desfigurados, pessoas se divertindo consigo mesmas. Mateus (@phynocomph_), em meio aos outros participantes, dá destaque às pálpebras, se inspira em ícones da música pop e resgata tendências dos anos 1980, listando todos os produtos usados em cada composição. “Todos os dias, logo cedo, observo o que está acontecendo no mundo, na música, na moda… coisas que estão 'bombando' podem virar maquiagens, além das referências ao estilo vintage. Já me inspirei em Rihanna, em Anitta… Sempre que tenho tempo livre, leio sobre maquiagem, sobre o que há de novo no segmento. Me tornei um apaixonado pelo tema”, conta o pernambucano. 

A escolha do verbo é cuidadosa: Mateus Rodrigues se tornou um aficionado por cosmética. Isto porque o jovem não se mostrava interessado pelo ramo desde sempre. Foi aos 15 anos, assistindo a tutoriais de maquiagem no YouTube, que se despertou nele a curiosidade pelas técnicas e foi comprada a sua primeira base líquida – que misturava ao hidratante, para obter uma cobertura mais leve. “Eu testei as primeiras maquiagens na minha irmã, porque me sentia muito travado para usar em mim mesmo. Depois, descobri homens youtubers que se maquiavam e aquilo me encorajou. Eu perguntei: por que não posso me maquiar também?”, lembra Mateus. Foi a única vez que ele se fez a pergunta. Depois disso, foi mais livre: a maquiagem, ao que parece, tem lhe dado todas as respostas. 

O jovem foi "construindo" seu arsenal de maquiagem por conta própria: "O primeiro produto foi uma base líquida da marca Quem Disse, Berenice?, com cobertura bem leve", ele recorda. Fotos: Gabriel Melo/Esp. DP/DA Press
O jovem foi "construindo" seu arsenal de maquiagem por conta própria: "O primeiro produto foi uma base líquida da marca Quem Disse, Berenice?, com cobertura bem leve", ele recorda. Fotos: Gabriel Melo/Esp. DP/DA Press


>> TRÊS PERGUNTAS: Mateus Rodrigues, estudante

Quais os efeitos da maquiagem, além dos estéticos?
É a forma de mostrar ao mundo quem você é, quem você realmente quer ser. Pela maquiagem, a gente consegue expressar 100% o que a gente quer, passar mensagens, posicionamentos políticos. Além disso, a maquiagem dá confiança, empodera. Às vezes, quando estou me sentindo para baixo, boto uma roupa legal, faço uma maquiagem e já me sinto melhor. A maquiagem é uma ferramenta para mostrar nosso eu, nosso melhor. Quando eu saio na rua maquiado, quando eu consigo executar minha imaginação, o look e a maquiagem que eu planejei, eu me sinto muito poderoso. Me sinto forte.

E qual a influência da internet na sua ligação com o mundo da maquiagem? No seu processo pessoal de empoderamento?
A minha abertura para esse universo se deu através de blogueiras e youtubers, acompanhando os trabalhos delas, os tutoriais. Tudo isso só aconteceu por causa da internet. Hoje, recebo mensagens de gente que se dizem representada, encorajada… as pessoas interagem mais comigo e nós trocamos ideias sobre maquiagem, autoestima, elas me pedem dicas de produtos, técnicas. Tudo veio a mim pela internet. Nunca fiz curso, é meu desejo fazer um curso de automaquiagem. O que eu sei veio da internet, do YouTube. Se esses conteúdos não estivessem acessíveis, talvez eu nem soubesse me maquiar… talvez não se debatesse tanto sobre questões de gênero, sobre questões LGBT, inclusive. Está tudo ali, naquele nicho, online.
Como o Desafio 100 Dias de Maquiagem surgiu para você?
Descobri a tag no perfil de uma drag queen que eu acompanhava no Instagram. Percebi que era uma tag mundialmente forte e eu estava à procura de uma forma de mostrar minha maquiagem, minhas técnicas. Algo que chamasse a atenção para o que eu faço. Pesquisando, vi que nenhum outro brasileiro havia participado. Esse pioneirismo me estimulou ainda mais, ser o primeiro abre portas. Virão muitos outros meninos brasileiros depois de mim, não por minha causa, mas eles virão. E se eu tiver incentivado alguém, já valeu a pena. Comecei no dia 7 de agosto e não perdi nem um dia desde então. Muita gente pelo mundo adere à tag, mas desiste no caminho. 

Mateus Rodrigues é conhecido na internet como Phyno e vê na maquiagem uma atitude política e fonte de empoderamento. Foto: Gabriel Melo/Esp. DP/DA Press
Mateus Rodrigues é conhecido na internet como Phyno e vê na maquiagem uma atitude política e fonte de empoderamento. Foto: Gabriel Melo/Esp. DP/DA Press
>> CINCO DICAS

- Cores quentes estão em alta. Vale apostar em tons de rosa e vermelho, que são as principais cores da maquiagem atual. Laranjas e terracotas também estão valendo.

- Traços muito duros estão fora de moda, vale mais o esfumado. À exceção do delineador marcado, que continua forte.

- Blushs mais quentes têm roubado a cena dos blushs mais leves, que pareciam quase inexistentes. É a vez de marcar um pouco as maçãs com tonalidades de rosa e terrosos.

- A principal etapa é preparar bem a pele. Um rosto limpo e bem hidratado segura muito mais a maquiagem e mantém a pele mais saudável.

- Duas dicas para fixar bem os produtos: selar os líquidos e cremosos (bases e corretivos, sobretudo) com uma leve camada de pó. Além disso, usar spray fixador para finalizar. Costuma ser ainda melhor do que o primer, que às vezes conflita com a base.

>> ACOMPANHE MAIS
Você pode acompanhar as produções de Mateus e de todos os participantes estrangeiros do Desafio 100 Dias de Maquiagem através das hashtags #100daysofmakeupchallenge e #100daysofmakeup, no Instagram. O perfil do pernambucano é @phynocomph_, na mesma rede social. 


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Resistência nordestina em cartaz

Diego Rocha *
Celebrando a resistência da arte nordestina e a arte nordestina de resistir, o 21º Festival Recife do Teatro Nacional está em cartaz na cidade para confirmar a vocação de um povo à resiliência e à criatividade. Até o próximo dia 24, a programação montada com muita assertividade pela Prefeitura do Recife irá apresentar 12 espetáculos em vários teatros da cidade, entre eles seis montagens nacionais jamais vistas na capital do Nordeste.
Mas não está toda no ineditismo a urgência que esses espetáculos carregam. Mas também e principalmente na referência e reverência que muitos fazem à estética e às temáticas fincadas no árido solo fértil do Nordeste. Alguns textos, como o da montagem Ariano %u2013 O Cavaleiro Sertanejo, da companhia carioca Os Ciclomáticos sequer foram produzidos no Nordeste. Mas sabem, bebem e comungam do povo que somos. Foram buscar inspiração em autores ensolarados como Ariano Suassuna e os tantos tipos e símbolos que ele fundou e transportou do imaginário nordestino para o mundo.
Há na programação citações ainda mais explícitas à nossa produção teatral. Parido do punho do próprio Ariano, em carne e pena, o clássico Auto da Compadecida chega ao Festival com sotaque mineiro, numa belíssima montagem do Grupo Maria Cutia, com a direção cênica precisa e sensível de Gabriel Villela, que conseguiu unir a cultura do cangaço pernambucano ao barroco mineiro, sem sair da trilha aberta pelo Movimento Armorial de Ariano.
São montagens que nos representam e, ao mesmo tempo, nos apresentam a nós mesmos, além de nos hastear bandeira a congregar territórios artísticos, afetivos e cívicos, num país assombrado e repartido por um projeto de poder excludente. Em cima e embaixo dos palcos, durante e depois do 21º Festival Recife do Teatro Nacional, que a arte e a força nordestina persistam farol aceso a nos guiar.

* Presidente da Fundação de Cultura Cidade do Recife

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