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A Cara do Recife

Obstetra defensora do parto humanizado quebra preconceitos e, com experiência própria, inspira mulheres

Leila Katz só se sentiu completamente realizada como mãe e profissional depois do parto normal na terceira gravidez e leva mulheres a buscarem atendimento na rede pública de saúde

Publicado: 01/09/2018 às 10:00

Foto: Rafael Martins/DP/

Foto: Rafael Martins/DP/

Foto: Rafael Martins/DP
Formada em medicina em 1996, Leila Katz escolheu, entre tantas opções de especialidades, a obstetrícia. Ela se tornaria defensora ativa do parto normal e humanizado. Não era apenas por questões profissionais, mas suas crenças pessoais também a levavam por esse caminho. Quando ainda fazia residência, engravidou da primeira filha, Sara, hoje com 19 anos. À época, fez-se crer, como para tantas outras mulheres, que uma cesariana era necessária. Maria, 16, nasceu três anos depois e o processo mais uma vez terminou numa cesárea. Nesta época, já realizada profissionalmente com o caminho que trilhava na defesa do parto humanizado, Leila não se sentia da mesma forma no âmbito pessoal. Engravidou mais uma vez e não abriu mão de sentir em seu próprio corpo o que defendia para outras mães. Nani, de sete anos, nasceu de parto normal, completando o ciclo de realizações de Leila como obstetra e mãe. Das três experiências, tirou lições que mudaram sua forma de trabalhar e a tornaram mais humana como médica.

Foto: Rafael Martins/DPLeila acredita que o sistema praticado no Brasil, atualmente, está predisposto à cesárea. Nos hospitais privados, a assistência é de um para um e, assim, a pessoa só pode parir com um determinado médico. Em países desenvolvidos, é comum o acompanhamento na gravidez ser feito por uma equipe multidisciplinar e o parto ser feito pela equipe que estiver de plantão. A questão é que a rotatividade da cesariana no hospital é maior, tem hora marcada, enquanto o parto normal é imprevisível, podendo durar 30 minutos ou 30 horas. "O sistema não gosta desse improviso e ainda existe a filosofia de que o médico é o detentor da sabedoria e a mulher fica submissa. Mas não é culpa dela, é uma questão social", afirma a obstetra.

A defesa de Leila vai além da questão do parto normal. Isso faz parte, mas não é tudo. "O protagonismo da mulher vem verdadeiramente num parto mais humanizado, quando ela faz as escolhas dela. Ela que diz se quer tomar anestesia, se quer que rompa a bolsa. Não é o fato de ter procedimento ou não, mas o fato dela poder escolher ", diz. E é justamente essa filosofia que Leila Katz defende em seus atendimentos no Hospital da Mulher do Recife (HMR), no Curado, onde são assistidos 400 partos por mês, sendo entre 75% e 80% normais - o inverso do que é registrado hospitais privados, frisa a obstetra. "Aqui, o carro-chefe é atender ao parto respeitoso, vamos discutir com a mulher o que ela deseja, respeitando, claro, a fisiologia e a segurança dela", completa.

O Hospital da Mulher do Recife conta com a estrutura para atender as mulheres em trabalho de parto e qualquer mulher pode parir no local. Existe o centro de parto normal, com três suítes, três salas de pré-natal com dois leitos cada, um bloco cirúrgico (caso a cesariana seja necessária) e enfermarias. Ainda há a casa das mães, com quatro quartos e 20 leitos, onde elas podem ficar enquanto o bebê não recebe alta. O lugar já tem se tornado referência quando o assunto é parto normal humanizado. Se antes era preciso convencer algumas mães da importância do procedimento, hoje o HMR é procurado justamente por atender a esse desejo da mãe. "A aceitação nos últimos anos têm crescido bastante. Existe mais informação disponível, as mulheres estão mais empoderadas e buscando o direito de definir como elas querem ter seus filhos. Inclusive, muitas mulheres que têm plano de saúde acabam vindo para cá porque sabem que aqui seus desejos podem ser atendidos", vibra Leila.

Foto: Rafael Martins/DPO nome da própria Leila como militante da causa do parto humanizado, inclusive, já é motivo suficiente para atrair ao HMR muitas mulheres que desejam ter seus filhos de forma normal. "A própria construção desse hospital foi feita pensando em prestar esse tipo de atendimento e ela é uma das precursoras dessa assistência em Pernambuco, tem papel importante nisso. Ela se dá a esse trabalho e dá credibilidade a ele, respeita a mulher, faz com amor e segurança e oferece justamente o que a gente acredita", ressalta Isabela Coutinho, diretora-geral do HMR. A dona de casa Amanda Vicente da Silva, de 21 anos, decidiu ter seus segundo parto assistido no Hospital da Mulher do Recife. Geovana, de cinco anos, havia nascido de uma cesária. Agora, ela desejava um parto normal para Richard Miguel. "A recuperação da cesariana é difícil e, como já tinha ouvido falar daqui, já cheguei querendo normal", conta, em meio às contrações, sob olhar atento de Leila.O bebê nasceu no dia 27 de julho, às 21h49, pesando 3,3 Kg, exatamente da forma como a mãe desejou.

Foto: Rafael Martins/DPA obstetra, inclusive, leva sua relação para além do parto e costuma manter contato com mães que tiveram o parto assistido por ela. "Eu mantenho uma boa relação com as mulheres, umas até se tornaram amigas pessoais nessa minha jornada", revela. Aos 44 anos, Leila vai, desta forma, acumulando experiências, conquistas, amizades. Vai, além de tudo, se sentindo cada vez mais realizada. "Eu já militava na causa e ter conseguido ter um parto normal foi a realização de tudo que acreditava e defendia. Me sinto, hoje, muito realizada como mulher e como profissional", comemora de forma despretensiosa, com sorriso largo no rosto, a pessoa que, com atendimento diferenciado e cuidadoso - algo que deveria ser requisito básico na saúde -, quebra preconceitos e leva mulheres a buscarem assistência em um hospital público.
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