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Notícia de Economia

ENTREVISTA

Francisco Saboya: Não existe país desenvolvido sem uma dinâmica empreendedora vigorosa

Publicado em: 01/01/2022 09:00 | Atualizado em: 31/12/2021 16:00

 (Foto: Divulgação)
Foto: Divulgação
Com o desafio de fazer a transformação digital de uma instituição prestes a completar 50 anos, o superintendente do Sebrae Pernambuco, Francisco Saboya, analisa, em entrevista ao Diario, as mudanças enfrentadas pelos empreendedores brasileiros nos últimos anos. De modo particular, os impactos da pandemia de Covid-19 no empreendedorismo. “A estatística aponta que, em algum momento da pandemia, tivemos cerca de 70% dos estabelecimentos impactados negativamente”, ressalta o superintendente, indicando para o envelhecimento do perfil dos empreendedores e para a quadruplicação do número de universitários entre os empreendedores por necessidade. Por outro lado, Saboya aponta a baixa competitividade do Brasil no cenário mundial, o que  resulta do fato de o país negligenciar os fundamentos da competitividade: a educação, a formação profissional, a formação superior, a ciência, a tecnologia e a inovação.

Entrevista Francisco Saboya // superintendente do Sebrae Pernambuco

PANDEMIA

Três movimentos ocorreram nesta pandemia. O primeiro foi um envelhecimento da população empreendedora, em especial naquele empreendedorismo que tem um valor agregado mais baixo e é feito por necessidade. Hoje, a proporção de empreendedores mais maduros está maior do que era há cinco anos. O que está por trás disso é que os negócios foram impactados, muitos fecharam. Na pandemia, a estatística aponta entre 12% e 18%, mas muitos foram impactados. O Global Entrepreneurship Monitor (GEM) divide os empreendedores em três grupos, o de estabelecidos, que estão há mais de três anos e meio no mercado. O inicial, que inclui os nascentes e os novos. Os nascentes estão em gestação, existem há três meses, e os novos entre três meses e três anos e meio. Na categoria dos estabelecidos, a pancada pegou metade das empresas, o que é um tsunami. No Brasil, se você pensar no formal, tem 20 milhões de negócios, dos quais 13 milhões são Microempreendedores Individuais (MEI’s). A estatística aponta que, em algum momento da pandemia, tivemos cerca de 70% dos estabelecimentos impactados negativamente, ou seja, fecharam, reduziram a jornada de trabalho ou o faturamento. Cerca de 2/3 dos estabelecimentos em um período da pandemia em 2020 tiveram redução de faturamento, o que pode significar para esses estabelecimentos a incapacidade de se manter de pé, já que existe um mínimo para manter os custos básicos do negócio. Muitas vezes se manter de pé significa acumular um déficit que se empilha e vira uma dívida. Os negócios mais impactados foram os pequenos, mas estruturados. Isso coloca os empreendedores mais maduros para o fim da fila porque eles voltam para o começo para empreender em um negócio menor, mais precário, de sobrevivência. 

POR NECESSIDADE

Na questão etária, o empreendedor por necessidade é hoje um empreendedor mais maduro. O que leva a uma outra reflexão: para onde estão indo os jovens, se os mais velhos eram um percentual que agora é muito maior e a participação do jovem reduziu, mas essa população não reduziu?  Outra questão é a escolaridade. Se formos ver a média dos últimos 20 anos, a participação do empreendedor de formação de nível superior na categoria de empreendedores por necessidade era 6%. Nos últimos dois, três anos, foi para 24%. Quadruplicou a participação relativa de empreendedores por necessidade com formação superior. Ou seja, está mudando o perfil do MEI e do empreendedor, que está ralando porque não tem opção no mercado, não tem emprego. Ele fez engenharia, não encontrou nada interessante e vai ser Uber.  Isso gera problema de toda sorte porque o país investe na formação da pessoa de nível superior esperando que ela tenha uma participação compatível com seu nível de formação, para aumentar o padrão de produtividade da economia como um todo. Por exemplo, o jardineiro que toma conta do jardim da minha casa faz engenharia agronômica  e trabalha por necessidade absoluta. É um problema social, pois milhões de pessoas apostaram seus sonhos, seu futuro, seus ideais. É um país que não está crescendo a ponto de oferecer oportunidade. Tem um problema nas estruturas de suporte. E nenhum aparelho de fomento está preparado para essa realidade. 

GÊNERO

Historicamente, a pesquisa do GEM aponta que não há relação entre crise ou bonança econômica e gênero. Olhando estatisticamente os índices de empreendedorismo até hoje, não tem mudança. Há períodos em que o PIB está subindo e a participação das mulheres cresce, e outras vezes cai. Não tem uma tendência. O fato concreto é que, hoje, 55% dos empreendedores são do sexo masculino e 45% do sexo feminino. Significa que as mulheres foram expulsas, perderam expressão estatística nesse período pandêmico. Eu associo isso à precarização completa do trabalho, em especial onde elas são mais expressivas, como no trabalho doméstico. Na pandemia, as mulheres tiveram uma perda como se parte do mercado tivesse desaparecido para elas. A questão de gênero chama a atenção para como você organiza a sociedade do ponto de vista do trabalho. Algumas atividades, interpretadas como mais essenciais, ficam para os homens, e as mulheres ficam com aquelas mais acessórias, como cuidados pessoais que serão fundamentais daqui  a 50 anos. 

EDUCAÇÃO

Se quisermos interpretar a ocupação no Brasil na história recente, não estamos oferecendo nem para o jovem, nem para o adulto, nem para o velho. Não conseguimos engrenar uma dinâmica que gera ocupação para a população porque negligenciamos os fundamentos da competitividade, que são a educação, a formação profissional, a formação superior, a ciência, tecnologia e inovação. No Brasil nós temos uma parcela expressiva da população que não chega sequer ao segundo grau, quase 30% abandonam, nem concluem. Esse é um componente. De um lado, o país não vem gerando oportunidade de ocupação porque não é um país cujos níveis de produtividade geram oportunidade para todo mundo. O Brasil perde em participação relativa no ranking global de comércio exterior, perde em posição relativa no ranking global do PIB. O Vietnã, Indonésia, Filipinas, Malásia estão acima no ranking de competitividade. A Coreia do Sul, em 1970, era um país com mais analfabetos que o Brasil. Quando o Brasil criou o Mobral, a Coreia criou um equivalente. Em 1988, na Olimpíada da Coreia do Sul, o então presidente aproveitou para divulgar a educação, dizendo que o país não tinha mais analfabeto, enquanto o Brasil ainda tem 16% de analfabetos, sem contar os funcionais. Um país que não fez a tarefa de base, que negligencia a educação, a ciência, tecnologia, pesquisa e inovação. Do custo Brasil, o maior componente é a negligência com a educação. Não é a burocracia, o manicômio tributário… nada é tão importante quanto a negligência com a educação. Deveríamos ter um sistema único de educação assim como temos com a saúde, que se revelou como a salvação do país. durante a pandemia.

MAIS DIGITAL

O Sebrae está muito seriamente envolvido com o programa de transformação digital seu e dos pequenos negócios. Temos um entendimento que essa transformação muda o perfil não só do empreendedor como das demandas, com a missão de entendermos ou ficarmos fora do jogo. É algo que fala mais do digital e menos de estratégia. Estamos buscando nos conectar mais, seja com o empreendedor estabelecido ou com novo empreendedor, para podermos jogar nosso portfólio e entregarmos um produto diferente. Estamos fazendo 50 anos, com muitos acertos, muitos erros e muita coisa cristalizada também. O Sebrae está muito nessa de entender as mudanças do mundo, as novas demandas dos empreendedores. Não atuamos diretamente na geração de emprego, mas sim no empreendedorismo. O empreendedor é muito especial porque gera vagas para os outros ocuparem. Não existe um país desenvolvido que não tenha uma dinâmica empreendedora vigorosa. O Sebrae é um agente dinamizador do empreendedorismo através da educação empreendedora, da formação, da melhoria das práticas. Se parte do que o Brasil tem hoje passa pelos microempreendedores, isso passa pelo Sebrae. O Sebrae tem trabalhado muito para aumentar o seu alcance. Saímos de 57 mil empresas atendidas há três anos para 130 mil. Se foi um aumento espontâneo, eu não saberia dizer, mas trabalhamos muito indo atrás do pequeno, apostando em novas abordagens e no digital. No aplicativo Sebrae também. Hoje, 2/3 do fluxo de dados na internet é feito por dispositivos mobile. Estamos em um mundo digital, conectado, móvel e em rede. Uma instituição do porte do Sebrae não pode ficar fora desse fluxo. 

NOVA ABORDAGEM

Os segmentos mais alcançados pelo Sebrae são bares; restaurantes; lanchonetes; minimercados; cabeleireiros; e, as campeãs, as lojas de moda e confecção. O que temos agora é uma abordagem diferente, chegando junto com um olhar atualizado e falando a língua desses empreendedores. Fizemos um uso mais intensivo do digital, seja do aplicativo, seja convidando as pessoas a utilizarem mais o site do Sebrae. Temos uma linguagem mais apropriada, falando desse mundo novo no lugar de falar de consultoria, treinamento e crédito. O Sebrae era e ainda é estruturado nesse tripé de atuação, que é válido e poderoso, mas temos mais coisas. Estamos em um mundo de transição e introduzimos essa figura da transformação digital, com vendas eletrônicas, comércio eletrônico, o novo jeito de fazer negócios, incentivando que as pessoas passem para o digital. 

INCUBADORA

Empreender, assim como tudo na vida, requer conhecimento. O Sebrae prepara as pessoas para empreender. O que faz uma incubadora? Prepara o empreendedor para estruturar seu negócio. Um dos nossos papéis é a qualificação do empreendedor para que possa avançar no seu negócio. Metaforicamente, o Sebrae é uma grande incubadora no sentido de orientação para as pessoas empreenderem melhor. Um negócio tem regras. Neste sentido, o Sebrae é fundamental no jogo para você começar a empreender melhor e, estando já empreendendo, procurar o Sebrae para lhe ajudar a performar melhor. No empreendedorismo, a taxa de mortalidade das empresas em dois anos é de 50%. Aqui, assim como as empresas de tecnologia que passam por uma incubadora, a longevidade é maior e isso é o natural de quem se prepara. Um exemplo é um programa do Porto Digital com o Sebrae, em que elaboramos uma formação de 10 semanas com o básico de como empreender um negócio em tecnologia da informação. Em seis anos, descobrimos que metade das empresas que estão no Porto Digital, em incubação ou aceleração, passaram por esse programa. Temos que olhar a atuação mais pelo que ela impulsiona do que pelo que evita. As empresas que procuram o Sebrae têm um ticket médio de faturamento maior, mais empregados, maior margem de lucro e mais tempo de sobrevivência do que as empresas do mesmo segmento que não procuram o Sebrae. 

INTEGRAÇÃO

O Sebrae tinha um entendimento do déficit existente na integração com a política pública, apesar de sermos uma instituição privada. O nível de interação com governos e prefeituras era zero. Então, entre os pilares estabelecidos, existia o de que o Sebrae se tornasse um ator relevante na formulação e implementação das políticas públicas. Fizemos um programa com a Alepe (Assembleia Legislativa de Pernambuco), o Fala PE, que fez uma escuta bem estruturada nas 12 regiões do estado, com 200 instituições envolvidas como um todo, para elaborar o ambiente de negócios dos lugares. As demandas são diversas, mas você faz uma seleção do que tem relação com o ambiente de negócios dos pequenos. A Alepe circulou isso rapidamente e os projetos foram assinados. Um exemplo é a licença do bombeiro, que agora tem validade de três anos. Isso foi fruto do trabalho de escuta com o Sebrae. Outra coisa é que agora Pernambuco passa a ser o terceiro estado com o maior número de atividades isentas de licenciamento por serem consideradas de baixo risco, o que faz com que a gente saía de outro garrote. A lei federal prevê 200 e poucas atividades de baixo risco que dispensam o licenciamento ambiental, mas Pernambuco avançou e temos 490 atividades econômicas que estão isentas. O que está acontecendo hoje é a materialização de uma estratégia que impedia que realizássemos uma ação sinérgica. Temos  ainda um convênio com 50 municípios do estado que envolvem ações voltadas para o aperfeiçoamento da legislação, das políticas públicas, da qualificação das pessoas, da abertura ou melhoria das salas de empreendedores. São 80 salas que agora estão melhor estruturadas. Antes, não tinha muito um padrão, mas montamos um kit básico. São espaços municipais com pessoas qualificadas para receber os pequenos negócios e orientá-los, conectar com consultores. Este ano fizemos 23 mil atendimentos na sala do empreendedor. Ou seja, 23 mil pessoas procuraram as salas e agora encontram um espaço melhor preparado. 

GESTÃO

Eu tenho uma relação histórica com o Sebrae, já fui estagiário, consultor, sempre vi a importância dele e agora mais ainda. Há cada quatro anos, uma nova gestão assume e é da cultura do Sebrae promover um rodízio. Não é da tradição do Sebrae renovar a gestão. Acho saudável porque você traz um novo olhar. No meu horizonte não tem a reeleição. O Sebrae é uma instituição que sempre foi muito próxima de mim, mas o pequeno negócio não era. Quando aceitei vir para cá junto com um time, escrevemos o que pensamos sobre o pequeno negócio e o Sebrae. Quando chegamos submetemos ao Conselho nossa plataforma, apresentamos essas ideias com uma formulação e direcionamentos muito claros. Foi aprovado e, em seguida, chamamos a casa para apresentar o caminho que seria trilhado. A encomenda foi sair de um ecossistema de inovação, no Porto Digital, e trazer isso para um sistema tradicional. Desde então estamos tentando introduzir inovação por todos os poros. Meu mandato vai até 2023.
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