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Notícia de Economia

MEMÓRIAS

Viúva de Celso Furtado lança as Memórias Intermitentes do economista e professor

Publicado em: 04/11/2019 08:30

Celso Furtado foi um dos maiores economistas do país e seu livro mais famoso Formação Econômica do Brasil foi traduzido em oito idiomas.
Anotações pessoais de uma reservada pessoa pública. Reflexões a respeito do seu povo, país e de vivências que incluem fortes experiências como a participação na Segunda Guerra Mundial e longos anos de exílio, além de análises sobre a América Latina e Europa durante a segunda metade do século XX. Esta é boa parte da temática dos textos resgatados e reunidos em livro pela jornalista Rosa Freire D´Aguiar a partir dos diários do seu marido: ninguém menos do que o conceituado economista Celso Furtado, falecido em 2004. No último dia 29 de outubro, a organizadora veio ao Recife lançar a obra intitulada Diarios Intermitentes 1937 - 2002 (Cia das Letras). Em conversa com o Diario de Pernambuco, falou sobre a descoberta dos textos, os trechos mais marcantes e o processo de produção do livro. O economista e professor Celso Furtado foi um dos mais destacados intelectuais do país. É autor do livro Formação Econômica do Brasil, clássico da historiografia econômica brasileira, traduzida em oito idiomas (inglês, francês, castelhano, italiano, romeno, polonês, japonês e chinês). A obra, ilustrada com fotos, documentos e outros registros inéditos, pode ser encontrada nas livrarias físicas e online.

* A senhora sempre teve acesso às anotações e textos que deram origem ao livro? Ou descobriu o material apenas após a morte de Celso?

Nunca tive acesso total a todas estas informações. Estavam uma parte comigo, outra no apartamento que tínhamos no Alto da Boa Vista e também em Paris. Já sabia que existiam dois cadernos como diários, mas somente há pouco fui descobrindo todos. Na verdade, acho que nem Celso talvez se lembrasse que tinha escrito e guardado tanta coisa nos diários desde sua época da juventude. Enfim, foi um prazer muito grande encontrá-los.

* De quantos textos, aproximadamente, compõe-se o livro? Muita coisa ficou de fora por falta de espaço ou algum outro critério editorial? Qual foi o critério, inclusive?

Muito difícil saber este quantitativo porque, como todo diário, não há obediência quanto a tamanho específico de texto. Há anotações de duas, três linhas. Outras de quatro ou cinco páginas. Além disso, ele não escrevia necessariamente todo dia. Ficava anos, às vezes, sem escrever. Quando recomeçava, poderia escrever durante 10 a 15 dias, diariamente. Depois passava mais três meses sem registar nada. Daí, o adjetivo intermitente que coloquei no título. Achei mais ou menos 50 cadernos mas, raramente, algum deles está preenchido até o final. Nada do que foi escrito, de toda forma, ficou de fora.

* Quais fatos mais poderiam ser destacados deste longo período em que ele escreveu?

Gosto muito, particularmente, do dia a dia de Celso na Segunda Guerra Mundial. É uma experiência única e poucos intelectuais brasileiros, que a viveram, escreveram sobre isso. Na França, Itália ou Inglaterra, você encontra dezenas de livros sobre combatentes, resistentes ou mesmo sobre pessoas que apenas a viram acontecer. No Brasil, entretanto, deve ter havido uns 10 a 20 livros, no máximo. Estas notas do Celso, portanto, dão uma outra visão de como o brasileiro jovem, de 23 ou 24 anos, via a Guerra naquele momento. Outro destaque é a batalha que ele travou, quando morava no Recife, no final dos anos 50, pela implantação da Sudene. Foi Celso que a idealizou e implantou a Superintendência, depois de uma batalha muito aguerrida, e onde ficou até o ano de 1964 quando foi cassado. Ele sofreu pressões de muitos lados, sobretudo de algumas oligarquias nordestinas e de certa classe política.

* Quais passagens foram mais emocionantes para a senhora ao reler (por qual motivo) e quais acham que mais impactarão os leitores?

Celso era uma pessoa muito reservada e, em alguns momentos, precisava pôr ordem nas próprias ideias para seguir em frente. Há, pelo menos, três dos seus balanços de vida que pôs nos diários e que destaco. O primeiro é quando ele volta da guerra, muito jovem. Tinha acado de se formar em Direito antes de ir e, no retorno, tem certeza absoluta de que não vai exercer a profissão de advogado nem abraçar a magistratura. Quer estudar mais o Brasil, suas ciências sociais e economia. Afirma, claramente, que será economista, embora ainda não tivesse estudado o tema de forma sistemática até então. O segundo balanço, muito dolorido, é quando ele parte para o exílio. Nos Estados Unidos, no dia 1 de setembro de 64, faz um longo e profundo balanço, como se estivesse querendo acertar contas consigo mesmo. Como se quisesse também cortar com o passado com a própria família (a geração anterior, dos pais). Então, faz um panorama de quem foi e de como foi educado desde criança. O terceiro balanço é exatamente este do Nordeste, das dificuldades em tentar estabelecer mudanças e fazer reformas neste país. São, talvez, os relatos mais íntimos de Celso. Ele não era de falar de si com facilidade e, aos cadernos, se abriu mais.

* O livro também traz o relato de frustrações e desabafos do Celso Furtado. Poderia exemplificar alguns deles, relatados na obra?

Naqueles anos mais combativos dele, na Sudene, uma das frustrações foi não ter conseguido votar a lei da reforma agrária. O Brasil vivia um momento muito complicado de polarizações políticas. O simples fato de usar a expressão reforma agrária já assustava muita gente. Outra, um pouco a posteriori, foi quando, depois do exílio, ele volta ao Nordeste dez anos depois e encontra uma região bem diferente da que sonhava construir. E que continuava com os mesmos problemas, ainda mais agravados. O problema de concentração de renda piorou, o da pobreza também. Celso chega a dizer, em certa altura, que sentia como se fizesse parte de uma geração que foi derrotada na batalha para vencer o subdesenvolvimento do país.

* A senhora acredita que “Formação Econômica do Brasil” teria, atualmente, o mesmo impacto que teve quando do seu lançamento?

Acho que o livro é uma leitura indispensável para quem quer estudar como este país se formou do ponto de vista econômico. Formação, inclusive, foi uma palavra usada bastante nos anos 50, quando os intelectuais brasileiros estavam pensando nisto sob vários pontos de vista. O de Celso, evidentemente, do ponto de vista mais econômico, desde a colonização até final do século XX. Ainda faltavam 40 anos para este final, mas ele o projeta, afirmando como acharia que estivesse neste momento. Fez isso baseado em algumas permanências que existem na nossa história, mas deixa os caminhos abertos. Acho que o livro continua indispensável para quem quer saber como este país se formou também sob o viés histórico. Esta era uma característica de Celso, calcada um pouco na escola estruturalista, que é introduzir análise histórica na economia ou vice-versa.

* O que acha que ele pensaria do Brasil atual?

Não sou médium, não tenho a menor ideia, mas posso imaginar que estaria vendo o que acho que todos nós estamos vendo: ataques constantes à democracia, desconstrução de conquistas sociais. Coisas que não vem só dos governos mais recentes, desde o final do de Fernando Henrique, mas de antes, desde a ilusão dos anos 50, de Getúlio Vargas. O país está indo pra trás, sendo desmantelado em várias conquistas e isto é muito grave. Isto tenho certeza de que ele pensaria. É difícil, entretanto, imaginar que solução ele daria. Afinal, o problema não é fazer o diagnóstico, mas trazer propostas para superá-lo. Tenho até certas desconfianças em relação a isto, mas não quero falar em nome dele.

* Qual o maior desafio de se aprofundar estas memórias?

Não foi propriamente um desafio e, sim, muito trabalho. Digitei todos os cadernos sozinha porque, obviamente, foram escritos a mão. A letra de Celso era razoável de ser compreendida até certo ponto. Depois, fica muito difícil de ler. Não conheço outra pessoa que leia todas as fases desta escrita, por isso eu que fiz. E à medida que fui tomando conhecimento do que ele tinha escrito, mais me convenci de que tinha de publicar por tratarem-se de depoimentos importantes da segunda metade do século XX ou um pouco antes disso. Há muitas pistas abertas a partir do que Celso disse para quem estuda a história recente do país. Ele acompanhou muito de perto, por exemplo, os anos de redemocratização do país (1982 a 1984). Este é um capítulo imenso do livro e muito detalhado, no qual ele relata as manobras políticas, quem estava querendo fazer o quê. Quando foi pra França, em seus 20 anos de exílio, Celso pensou também o mundo europeu, os EUA, a China, mas sempre trazendo estas reflexões para o quadro brasileiro. O Brasil está subjacente a todo o seu pensamento da vida inteira. Agora, evidentemente, quando você mexe em memórias, imerge em um território muito íntimo, reservado. Então, tem que ir um pouco pé ante pé, como fui. Foi, também, quase um trabalho de entomologista que fica ali com uma lupa olhando cada detalhe. Muitas pessoas, por exemplo, ele chamava pelo prenome. Então, tive que ir atrás para saber a identidade. Descobri todas. Tanto que fiz mais de 200 notas para situar o leitor, para ele saber de quem se tratava.

Rosa Freire D’aguiar - Nasceu no Rio de Janeiro. Nos anos 70 e 80, foi correspondente em Paris das revistas Manchete e IstoÉ. Retornou ao Brasil em 1986 e, no ano seguinte, traduziu seu primeiro livro, para a editora Paz e Terra: O conde de Gobineau no Brasil, de Georges Raeders. Em mais de vinte anos de atividade, traduziu mais de sessenta títulos nas áreas de literatura e ciências humanas. Traduz francês, espanhol e do italiano. Dentre os prêmios que recebeu, estão o da União Latina de Tradução Científica e Técnica (2001) por O universo, os deuses, os homens (Companhia das Letras), de Jean-Pierre Vernant, e o Jabuti (2009) pela tradução de A elegância do ouriço (Companhia das Letras), de Muriel Barbery.

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