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Notícia de Economia

CRISE

O declínio do Vale do Silício: famosa região sofre para se manter

Publicado em: 08/11/2019 07:19

Capital mundial das empresas de tecnologia sofre com imóveis caros, impostos altos e fuga de startups, o que está levando a região à perda da já consolidada reputação (Justin Sullivan/AFP)
Capital mundial das empresas de tecnologia sofre com imóveis caros, impostos altos e fuga de startups, o que está levando a região à perda da já consolidada reputação (Justin Sullivan/AFP)
Berço das empresas de tecnologia mais inovadoras do mundo, o Vale do Silício, região a 60 quilômetros de São Francisco, nos Estados Unidos, e que abrange as cidades de Palo Alto, Santa Clara e Mountain View, está perdendo o seu ativo mais precioso: a reputação. Pela primeira vez nos últimos 80 anos, o vale corre o sério risco de deixar de ser a capital mundial da tecnologia.

Para alguns analistas, pode ser precoce falar em decadência, mas são cada vez mais evidentes os sinais de que há algo de errado no ar. Estudo recente realizado pela consultoria Brunswik Group constatou que 41% dos jovens entre 18 e 34 anos da região pretendem se mudar da Baía de São Francisco nos próximos 12 meses. Em 2018, pela primeira vez em décadas, mais moradores deixaram o Vale do Silício do que chegaram.

No mundo dos negócios, os danos são crescentes. Há uma década, estimava-se que metade do capital de risco investido em empresas de tecnologia chegava aos empreendedores do Vale do Silício. Atualmente, esse índice está abaixo de 30% – e continua caindo. Nos últimos dois anos, pelo menos 100 startups trocaram o Vale do Silício por outras cidades americanas.

A tendência de deixar a região ganhou até um nome: “Off Silicon Valleying” (ou “Fora do Vale do Silício”), movimento criado por empreendedores de sucesso que defendem que as startups procurem novos caminhos em vez de se sentir obrigadas a se estabelecer na baía de São Francisco.

É o caso do magnata de tecnologia, cofundador do PayPal e membro do conselho do Facebook, Peter Thiel, que, recentemente, anunciou que estava se mudando para Los Angeles e realocando seus fundos de investimento pessoais para outros lugares. Ao falar sobre o tema, Thiel citou a “cultura tóxica” de São Francisco e a falta de diversidade intelectual da região.

Segundo Thiel, o Vale do Silício tem a maior concentração de mentes arrogantes por metro quadrado do mundo e a obsessão por tecnologia fez com que as pessoas deixassem de lado o que ele considera mais importante nas empresas – o lado humano, em vez do puramente técnico.

Em uma palestra recente, o brasileiro Mike Krieger, cofundador do Instagram, recomendou aos empreendedores que participavam do evento a tentar a sorte em outros lugares. “É difícil encontrar um bom engenheiro de software e, quando encontramos, logo o perdemos para gigantes como Facebook e Google, que conseguem cobrir qualquer oferta”, disse ele.

Krieger deixou o Instagram em 2018, por desavenças com Mark Zuckerberg, do Facebook, que, em 2012, pagou US$ 1 bilhão pelo aplicativo de fotos. Pouco depois, se tornou um investidor em diversas startups, a maioria delas estabelecidas no Vale do Silício. Sua campanha para que empreendedores procurem outras fronteiras não deixa de ser curiosa.

Inovações 
Toda a trajetória profissional de Krieger se deve ao Vale do Silício. Nascido em São Paulo, ele deixou o Brasil aos 18 anos para estudar ciência da computação na Universidade de Stanford, a instituição de ensino mais renomada do Vale. Lá, conheceu o americano Kevin Systrom, que se tornaria seu sócio no Instagram.

O roteiro dos fundadores do Instagram foi seguido por inúmeras gerações de empreendedores. Desde que, em 1939, dois graduandos de Stanford, Bill Hewlett e Dave Packard, fundaram, em uma garagem em Palo Alto, na Califórnia, a HP, fazendo da empresa a maior do mundo na fabricação de computadores e impressoras, o Vale do Silício jamais deixou de ser a referência mundial em inovação.

A beleza natural, a atitude casual de seus moradores e a proximidade com instituições acadêmicas de prestígio, como Stanford e Berkeley, construíram, durante anos, uma imagem perfeita, o verdadeiro paraíso para os apaixonados por computação, engenharia e ciência avançada. “Com o passar dos anos, o Vale do Silício se tornou para a tecnologia o mesmo que Florença para o Renascimento”, diz Eduardo Tancinsky, consultor especializado em marcas.

O que explica o desejo crescente de empreendedores buscarem novas fronteiras? Há diversas razões para isso. De certa forma, o Vale do Silício tem sido vítima do seu próprio crescimento. A região é uma das 10 mais caras do mundo para viver, à frente de países como Suíça e Japão. Em duas décadas, o preço dos imóveis quadruplicou e, atualmente, não há imóvel disponível por menos de US$ 1 milhão.

Os aluguéis são igualmente exorbitantes. Em média, apartamento de um dormitório custa US$ 3 mil mensais, o que levou funcionários menos graduados das empresas de tecnologia a morar em trailers ou nas garagens de amigos. Mesmo para profissionais estabelecidos, a região se tornou cara demais. Uma escola particular custa aproximadamente US$ 40 mil anuais por criança, mais do que em qualquer cidade ame- ricana. Para aumentar as dificuldades, a Califórnia é o estado com os impostos mais caros do país.

Emprego 
Com custos tão elevados, as startups, que precisam de estruturas enxutas para sobreviver, não conseguem se fixar na região. É consenso entre especialistas que, num futuro próximo, apenas as empresas gigantes poderão permanecer no Vale do Silício, como Apple, Facebook, Google, Netflix, Tesla, Airbnb e Uber, que estão por lá desde o seu início. “O problema é que, neste cenário, o Vale do Silício perde sua razão de ser”, diz o consultor Eduardo Tancinsky. “A inovação e as boas ideias quase sempre surgem de jovens empreendedores, que, na maioria das vezes, dispõem de pouco capital. Se eles forem embora, quem continuará inovando?”

O Vale do Silício também está sendo afetado por aquilo que ele próprio ajudou a despertar – o avanço tecnológico. Inovações, como internet e inteligência artificial permitem que muitos trabalhos possam ser feitos a distância, em qualquer lugar do mundo, sem que a empresa precise, como antigamente, de um ecossistema completo de fornecedores e parceiros.

Em um polêmico artigo escrito para um jornal local, Stuart McLeod, CEO e fundador da empresa de tecnologia Karbon, explicou o que o motivou a deixar o Vale do Silício. “Apenas alguns anos atrás, o ritmo acelerado da inovação tecnológica era visto como divertido e emocionante”, escreveu. “Mas, hoje, as pessoas são mais céticas e temem o potencial da inteligência artificial, que pode roubar empregos e destruir a humanidade.”

O executivo acrescenta que muitos consideram a ganância do Vale do Silício responsável pela crescente desigualdade entre ricos e pobres e pela destruição ambiental do planeta. “Se você tem uma empresa de tecnologia, pode achar que o Vale do Silício é a única opção, mas isso não é verdade”, afirmou o empresário. “Você não precisa aceitar essa besteira. Na realidade, é hora de experimentar outros lugares.”

Os novos polos de tecnologia
Conheça as cidades que estão atraindo startups do mundo inteiro:

Portland
Com a chegada de startups à cidade, o número de pessoas com menos de 65 anos aumentou 32% nos últimos seis anos. No mesmo período, a renda média cresceu 20%

Austin
Nos últimos anos, empresas como Apple, eBay e Dell estabeleceram bases na cidade, o que acabou atraindo um ecossistema gigantesco de startups

Detroit
A decadente capital americana da indústria automobilística se reinventou. Como as montadoras se movem em direção aos veículos autônomos, os laboratórios de inovação estão se proliferando pela cidade

Huntsville
Desde 2017, os empregos em tecnologia cresceram 300% na cidade texana. Programas criados pela prefeitura têm atraído centenas de startups para a região

Orlando
A cidade conta com programas de financiamento para startups. Com imóveis mais baratos e um ecossistema tecnológico consolidado, passou a atrair empresas estabelecidas no Vale do Silício

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