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Notícia de Economia

CENÁRIO ECONÔMICO

Com os juros em baixa, investidores têm que aumentar risco para lucrar

Publicado em: 01/11/2019 07:45

 (Maurenilson Freire/CB/D.A Press)
Maurenilson Freire/CB/D.A Press
Após a redução da taxa básica de juros de 5,5% para 5% ao ano na última quarta-feira, o Comitê de Política Monetária (Copom), acredita que o cenário econômico esteja positivo para o controle da inflação, permitindo um novo ajuste de 0,5 ponto percentual em dezembro. Com a Selic na mínima histórica, a realidade dos investimentos e rendimentos no Brasil passará por mudanças.

A economista-chefe da XP Investimentos Zeina Latif, acredita que, com a nova taxa, haverá tendência de aumento na participação do crédito na economia do país. “É importante ter educação financeira em vez de tomar o juros baixo como um cheque em branco a consumir”, destacou. Ela ressalta que a redução dos juros pode passar uma falsa noção de que há condições de se pegar crédito e isso pode fazer com que o nível de endividamento da população suba.

Na avaliação de Luciana Ikedo, especialista em educação financeira, o brasileiro terá de mudar a forma tradicional de investimento para ter boa rentabilidade, já que os títulos de renda fixa passam a não ter um ganho real significativo. “Antes, a renda fixa trazia um resultado interessante mas, agora, é o momento para se buscar alternativas e olhar para novos fundos. Para ter um retorno positivo na carteira, o aplicador terá que correr mais risco”, afirmou.

Zeina Latif alerta que o juros baixos não trazem “só notícia boa”, e que o consumidor deve ter alguns cuidados. “É preciso aprender a poupar mais. Os juros menores também significam ter menos rendimento lá na frente. Para os planos de previdência, por exemplo, juros baixos são um problema, já que a quantidade que precisaria ser poupada terá de ser maior”, exemplificou. A economista da XP lembrou que acaba a fase em que o investidor não precisava de muito esforço para fazer o dinheiro render.

Perfil
Luciana Ikedo, no entanto, ressalta a importância de não perder a aderência ao perfil de investimento e capacidade de risco de cada um. “Apesar da mudança na economia, não podemos perder isso de vista. Entender o próprio perfil para que esteja alinhado com a carteira de investimento é essencial”, garante. Para ela, cada um tem uma necessidade e tempo de resgate, portanto, também é interessante manter uma reserva de emergência com liquidez mais imediata. “A questão da oscilação de preços na bolsa, é que muitos brasileiros investem sem calcular horizonte de tempo e, quando aparece um problema que exige a venda, as ações estão em baixa, ele perde”, alerta. Por isso, a especialista reafirma a  necessidade de manter recursos em uma  renda fixa, ainda que fuja da convencional poupança.

Pablo Spyer, diretor da corretora Mirae Asset, acha que o perfil do investidor brasileiro já segue o caminho para maiores riscos há alguns anos. De 2016 até hoje, a taxa Selic caiu de 14,25% ao ano para 5%. Em contrapartida, a Bolsa de Valores de São Paulo (B3), ganhou mais de 877 mil investidores, alcançando 1,4 milhão em setembro deste ano. “Isso reflete a mudança do perfil do investidor brasileiro, mostra que o número de pessoas físicas que aposta na bolsa mais que dobrou no período. Os estrangeiros saíram da bolsa e ela atingiu a máxima histórica este ano”, reforçou.

Para Spyer, o juros baixos, em condições normais, é “melhor para todos”. “Estamos entrando em um terreno nunca antes explorado no país. Se, de fato, formos para 4,5% ao ano, é realmente espetacular para o crescimento do PIB (Produto Interno Bruto). Cria-se um novo ciclo virtuoso importante para a economia brasileira”, afirmou. Na avaliação dele, há “muito espaço” para crescimento econômico sem inflação no país.

Inflação
Na visão dele, o risco que haveria de a inflação do país disparar em detrimento de um juros tão baixo é diminuído por uma economia global que se encontra em deflação. “Hoje, um quarto do dinheiro que está em investimentos no mundo tem rendimento de juros negativos”, citou.

A economista da XP concorda que as chances de a inflação sofrer um choque e retomar uma trajetória de alta são difíceis. “Demos um passo muito importante no estabelecimento de uma agenda fiscal, fortalecemos o regime fiscal, e isso mantém a inflação ancorada, ainda que não tenhamos uma dívida baixa. É difícil imaginar que essa conquista vá por água abaixo e o país perca o controle do reajuste de preços novamente, porque hoje a sociedade não aceita inflação alta”, comentou.

Zeina Latif lembrou, entretanto, que o índice de preço tem ciclos naturais de baixa ou alta. “Hoje a inflação global está baixa, temos grande ociosidade na economia, mas é claro que poderá ter uma reversão disso e até um choque em algum momento e o IPCA subir. É natural  que isso ocorra”, esclareceu.

Os economistas do Banco MUFG Brasil acreditam que a taxa Selic poderá permanecer em 4,5% até, pelo menos, a primeira metade de 2020. A possibilidade de novos cortes no início de 2020, em caso de atividade econômica mais lenta do que o esperado e de uma revisão para baixo das expectativas de inflação do mercado, também não está descartada pelos analistas do banco.
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