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Notícia de Economia

TECNOLOGIA

Atraso em leilão pode adiar a chegada da internet 5G ao Brasil

Publicado em: 04/11/2019 08:56

Lindsay Gorman, especialista em tecnologias em inteligência artificial, Big Data, 5G e cibersegurança da Alliance for Securing Democracy fala sobre os desafios da novidade no mercado brasileiro (Ana Rayssa/CB/D.A Press)
Lindsay Gorman, especialista em tecnologias em inteligência artificial, Big Data, 5G e cibersegurança da Alliance for Securing Democracy fala sobre os desafios da novidade no mercado brasileiro (Ana Rayssa/CB/D.A Press)
O Brasil corre o risco de atrasar a comercialização da tecnologia 5G, quinta geração da conexão móvel, fundamental para a revolução da Internet das Coisas (IoT), indústria 4.0, agricultura de precisão, assistências médicas remotas e veículos autômatos, entre outras inovações. Apesar de já ter sido testada na cidade do rock, durante o festival Rock in Rio 2019, a tecnologia depende do leilão da frequência para entrar no mercado.

O certame, inicialmente marcado para março do ano que vem, deve ficar para 2021, se as principais grandes operadoras forem atendidas. Oi, Tim e Vivo manifestaram, na quinta-feira passada, durante a Futurecom, o desejo de que o leilão da internet 5G seja adiado. A data ainda não foi definida pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). A Oi considera que uma prorrogação da data pode ajudar as empresas a “tomarem fôlego” após os investimentos feitos nas redes 4G. Já a Tim e a Vivo afirmaram que defendem a ideia se isso resultar em regras mais favoráveis.

A tecnologia, no Brasil, provoca interferência na recepção do sinal das antenas parabólicas, a chamada Banda C. Além disso, o país usa equipamentos da chinesa Huawei e os Estados Unidos estão provocando um boicote generalizado no mundo para evitar a hegemonia da China na tecnologia 5G. De acordo com o sócio da área de Telecom, Entretenimento e Tecnologia, do Vinhas e Redenschi Advogados, Rafael Pistono, a principal banda será 3.5 GigaHertz (GHz), ainda usada em áreas rurais pelos satélites. “São poucos receptores nesse tipo de frequência, basicamente as parabólicas de televisão por assinatura”, afirma. “O Brasil não pode mais tropeçar com o 5G, há necessidade dessa conectividade, é um vetor para o desenvolvimento”, destaca.

O especialista explica que o 5G multiplica por 100 a velocidade que existe hoje e aumenta a capacidade. Nesse contexto, a chinesa Huawei está muito à frente dos concorrentes, garante. “Os Estados Unidos demoraram a se posicionar no 5G. Hoje, as grandes empresas são a Nokia, da Finlândia, a Ericsson, da Suécia, e a Huawei, da China”, ressalta. No Brasil, a chinesa tem presença dominante nas rádio-bases (antenas), com 70% de participação. “Os EUA usam argumentos de que a Huawei faz espionagem e quebra de segurança e que o Estado comunista chinês está por trás da companhia. Por isso, ameaça vários países caso não restrinjam o uso dos equipamentos da Huawei”, diz.

Investimentos
Pistono alerta que faz todo o sentido o interesse da chinesa na Oi. “A empresa está estimulando a China Mobile a comprar a brasileira em recuperação judicial. Mesmo que tenha negado, como negam Vivo e Tim, mas todas sondam. Isso porque a Oi tem uma estrutura de fibra essencial para a tecnologia 5G”, assinala o especialista. Por isso, o leilão da frequência é apenas o primeiro passo. A tecnologia exigirá grandes investimentos em infraestrutura das operadoras.

Enquanto as discussões não avançam, a Oi ofereceu wi-fi com tecnologia 5G na cidade do rock, durante o Rock in Rio. O diretor de operações da companhia, José Cláudio Moreira Gonçalves, explica que a diferença crucial da tecnologia é a latência, que reduz o atraso em transmissão ao vivo, por exemplo. “Faz toda a diferença. É o tempo de conexão entre dois equipamentos. Isso permite que, no caso de carros autômatos que estejam se comunicando, um freie antes do outro”, exemplifica o diretor.

Gonçalves diz que a tecnologia muda completamente o grau de automação. “Minha leitura é que vai ter ciclos de desenvolvimento para internet das coisas. Muito mais do que baixar vídeo, toda a parte da realidade virtual, holografia. No Brasil, a Oi tem uma vantagem competitiva, porque a tecnologia precisa ter meio de transmissão por uma rede robusta. E a Oi tem 365 mil quilômetros de fibras óticas”, destaca.

Seis perguntas para Lindsay Gorman, especialista em tecnologias em inteligência artificial, Big Data, 5G e cibersegurança da Alliance for Securing Democracy:

Qual a importância do 5G?
A tecnologia vai gerar uma explosão de dados, transmitidos com mais qualidade, maior velocidade e menor latência. Logo, teremos conexão em todos os dispositivos, com a Internet das Coisas (IoT, na sigla em inglês). Com o 5G, haverá menos problemas de conectividade, o que permitirá que a IoT funcione de fato. Isso deve ocorrer em cinco ou 10 anos. Há uma estimativa segundo a qual, nos próximos anos, cada indivíduo vai produzir uma interação de dados a cada 18 segundos. Tudo será conectado. Isso vai garantir um potencial econômico enorme para quem conseguir captar, processar e analisar essas informações. 

O leilão de 5G no Brasil só deve ocorrer no ano quem, talvez ique para 2021. O que esse atraso pode provocar?
Mais do que implementar a infraestrutura de 5G, devemos nos preocupar em proteger as informações e a privacidade das pessoas. Os países estão correndo para ver quem vai construir as redes antes. Mas o desenvolvimento total acontecerá na próxima década. O espectro é importante, mas não é tudo. A segurança é mais relevante porque as decisões que tomarmos agora terão importância nos próximos 30 anos. Nesse sentido, o Brasil está mais avançado, pois já tem uma lei sobre o tema. Contudo, a implementação dessa regulamentação é muito difícil.

O 5G é mais vulnerável em termos de cibersegurança?
Quem controlar a infraestrutura de implementação do 5G terá acesso à informação que será transmitida. Em países como os Estados Unidos e o Brasil, a privacidade individual é importante. Com os dados coletados pela IoT, é possível saber tudo sobre as pessoas. Tudo o que estiver disponível ficará armazenado em apenas um lugar e o dono da infraestrutura terá acesso. É potencialmente mais vulnerável porque vai permitir uma transmissão muito maior de dados. Por isso, temos que ter cuidado com quem detiver a infraestrutura, que é um mercado muito mais concentrado. Há muitas empresas no ecossistema de telecomunicações, mas, em infraestrutura, mal enche a mão: Huawei, Ericsson, Samsung e Nokia.

O Brasil usa muitos equipamentos da Huawei. Há preocupação em relação à empresa?
Se temos uma empresa que é dona da infraestrutura e ela não respeita a regra, todas as informações estarão vulneráveis. Esse é o maior risco. Por isso, há uma grande preocupação em relação à Huawei, que já tem um histórico de fazer espionagem. Especialmente para o 5G, essa é uma área de preocupação. Não só por espionagem tradicional, mas por espionagem comercial e roubo de propriedade intelectual. Pagam funcionários para roubar tecnologia. É o modelo normal com o qual a China trabalha. Você faz mais dinheiro, se consegue roubar tecnologia. 

Esse temor é porque a empresa é chinesa?
A China não é um país democrático. O país rouba informações dos demais. O pior é a vulnerabilidade dos dados pessoais. O país tem um sofisticado regime de vigilância, coleta informações sobre os seus cidadãos. E está exportando esse regime para todo mundo. A China, de fato, treina como vigiar pessoas, como entender o que as pessoas estão dizendo, usando sofisticada inteligência artificial, lendo o que dizem e determinando o que é perigoso para o governo. Sabem o que as pessoas fazem. Isso é assustador. Além disso, o governo influencia nas empresas que estabelecem a infraestrutura. Com o 5G e a IoT, a chinesa Huawei terá acesso às câmeras de vigilância, à iluminação pública e poderá passar isso tudo para a China, aumentando o risco geopolítico. Com o 5G, o monopólio é extremamente perigoso. Os Estados Unidos não têm companhias de infraestrutura. Samsung (coreana), Nokia (finlandesa) e Ericsson (sueca) são as companhias que competem com a Huawei. Os governos desses países não dão subsídios para suas empresas e por isso são tecnologias mais caras. Quando uma empresa tem subsídios e pode cobrar mais barato que as outras, é um perigo, porque as demais podem não sobreviver no longo prazo. A China subsidia a tecnologia da Huawei, por isso é mais barata, mas faz isso porque considera o setor de telecomunicações estratégico, da mesma forma que os governos brasileiro e norte-americano investem em equipamentos militares. Por isso, temos que ser cuidadosos com o que compramos. 

Qual o maior desafio para os regimes democráticos em relação ao 5G?
A democracia valoriza a liberdade de expressão, a liberdade de criticar o governo. Se uma companhia de uma regime não democrático dominar o setor agora, vai ser um problema mais adiante. Porque infraestrutura é justamente a área mais difícil de fazer substiuições. As redes que estamos construindo agora serão as bases para as tecnologias que estão por vir, como 6G e 7G. A decisão de agora vai determinar o futuro. 
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