entrevista 'Há potencial para trabalharmos juntos', diz vice-ministro da Economia da Alemanha

Por: Kauê Diniz

Publicado em: 21/09/2019 12:24 Atualizado em: 21/09/2019 12:33

João Gilberto/Divulgação
João Gilberto/Divulgação
Conversar com um alemão no Brasil inevitavelmente leva à goleada que a seleção brasileira levou de 7 a 1 para a Alemanha, nas semifinais da Copa do Mundo de 2014. “A Alemanha não tem um jogo de futebol tão bonito como os brasileiros, mas, com muitas sorte, às vezes, a gente ganha”, brinca o torcedor do Stuttgart e vice-ministro da Economia e Energia da Alemanha, Thomaz Bareiss. Ele fez uma rápida passagem, pela primeira vez no Brasil, em Natal e no Recife para fomentar uma tabelinha de negócios entre os dois países e, quem sabe, afinar uma parceria com o Nordeste. Primeiro, participou do Encontro Econômico Brasil-Alemanha (EEBA), no Rio Gran- de do Norte, e terça-feira e quarta- -feira esteve em Pernambuco, onde se reuniu com o governador Paulo Câmara (PSB), e com o presidente do Porto Digital, Pierre Lucena. Na agenda, pautas comuns ligadas à produção de energia limpa, meio ambiente e tecnologia. Na segunda quinzena de novembro, os governadores do Nordeste, entre eles Paulo Câmara, irão à Alemanha prospectar oportunidades, através do consórcio formado pelos gestores da região.

O senhor participou do Encontro Econômico Brasil-Alemanha (EEBA) no Rio Grande do Norte. A partir do que foi criado em termos de diálogo digital, o que podemos esperar de concreto?
Minha impressão foi muito, muito boa. É a primeira vez que estou aqui no Brasil. Eu realmente estou muito bem impressionado. Acho este um país fantástico. Gostei muito da hospitalidade das pessoas e do fato de existir uma relação profunda e de longo tempo com a Alemanha. Também, por outro lado, esta relação se expressa no fato de que existem 1.600 empresas alemãs no Brasil e empregam 250 mil pessoas. Isto representa, do ponto de vista da participação no PIB brasileiro, 10% deste PIB. Por exemplo, empresas como a ThyssenKrupp (elevadores), que está já há 150 anos aqui no Brasil. Ou seja, já temos histórico em comum de longa data. Mas não só temos um bom retrospecto histórico como também boas perspectivas para o futuro. Isto também foi discutido no encontro e durante sessão da comissão mista que faz parte do encontro. Há muitas áreas onde podemos colaborar. Digitalização e economia 4.0 são duas áreas com as quais podemos trabalhar juntos. Então, é a primeira vez e já estou muito empolgado com a segunda vez que virá.

O senhor falou da representatividade da Alemanha no PIB do Brasil, mas o Nordeste, diante deste contexto, não tem tanta força assim. O que está faltando para a região conseguir ter um percentual maior nesta parcela da economia alemã no Brasil?
Achei muito bom este encontro ser realizado em Natal e também o fato de eu poder vir visitar Recife. Com isso, também tive oportunidade de conhecer duas cidades importantes na região Nordeste. E, então, foi importante para a política e também para o setor empresarial e para deixar uma marca da importância da região. Hoje (quarta) tivemos um encontro com o governador de Pernambuco (Paulo Câmara) e nós conversamos dentre outras coisas sobre a política energética e vimos também que há várias oportunidade de potencial muito grande de cooperação. Também tomei conhecimento de que existe uma refinaria de petróleo (A Abreu e Lima), indústria química. Acredito, sim, que haja potencial importante para podermos trabalhar juntos.

O governo federal, porém, pretende vender a Refinaria Abreu e Lima. A Alemanha pode se tornar parceiro nesta aquisição futura? Bom, isso é uma decisão que cabe ao setor empresarial. Nós, da área governamental e política não influenciamos nestes tipos de decisões. O que nos interessa, deste ponto de vista governamental, é colaborar na área de novas tecnologias, impactação de geração de energia, principalmente na área de renováveis (eólica, solar, hidroelétrica e gás). Realmente, seriam volumes muito vultosos de investimentos necessários para a aquisição da refinaria e há poucas empresas no mundo com esta capacidade econômico financeira.

O senhor falou em energia renovável. A Alemanha hoje tem um grande potencial gerador desse segmento, batendo recordes a cada ano, e o Nordeste vem também conseguindo um protagonismo muito grande na produção de renováveis. Como a Alemanha pode ser uma parceira do Nordeste neste sentido de ajudar a potencializar ainda mais esse segmento?
Realmente, a Alemanha está muito avançada nisso. No momento, 40% da energia gerada na nossa matriz energética é de origem renovável. Então, temos amplo aspecto também em termos de tecnologia de geração de energia renovável. Muito a oferecer e isso em termos mundiais. Considerando as condições climáticas e geográficas do Brasil, na verdade o país está numa posição ainda bem melhor de geração a partir de energias renováveis. A incidência solar é maior, além dos recursos hídricos, eólicos e biomassa. Acredito que estes dois elementos se complementam (Alemanha como fornecedor de tecnologia muito avançada e o Brasil com seus recursos naturais). Acredito que diante da grande demanda que se avizinha em termos energéticos, isto é um bom ponto de partida. Em 2008, criamos uma parceria energética. Então, vejo isto com bons olhos. Em 10 anos, a produção de energia solar tem quintuplicado e a de energia eólica, triplicado. Então, vejo um enorme potencial para esta cooperação e espero, futuramente, que contratos e parcerias e empreendimentos não sejam só realizados com a China. 75% dos investimentos são feitos por chineses nessa área de energia. Então, espero que realmente se concretize esta operação Europa-Brasil, não só do ponto de vista econômico, mas também do fato de compartilharmos uma comunidade de valores e princípios comuns. Do ponto de vista da sustentabilidade, também, acredito que damos muito valor a uma relação horizontal, que seja realmente olho no olho, entre iguais, e então, não se trata apenas de uma transferência de tecnologia e know-how, mas também de gerar uma situação de ganha-ganha para ambos os lados.

Quais potenciais podemos esperar deste acordo Mercosul-União Europeia futuramente?
Muito importante para ambos os lados. Vai ser gerado um mercado de centenas de milhões de consumidores e então também a perspectiva é de reduzir o volume de tributos, atingir uma redução tributária de 4 bilhões de euros. Acredito que seja uma excelente base e onde ambos os lados irão se beneficiar. Acredito também que isto seria um sinal em relação a um comércio livre, justo e favoráveis ao protecionismo que vemos hoje.

A China pode se tornar uma ameaça aos efeitos desse acordo, ao tentar barganhar com o Mercosul um melhor negócio?
Não falaria que a China seria uma ameaça. Na Alemanha e na Europa, também temos com eles relações de cooperação e comerciais bastante importantes. Agora, diante destas mudanças, das relações de força que estamos assistindo no mundo, é muito importante estabelecermos alianças com parceiros com os quais compartilhamos mesmos valores culturais, comerciais. Brasil e Alemanha são excelentes exemplos para isto e acredito que é necessário solidificar e aprofundar as parcerias no âmbito ocidental. Que o mundo nos siga, que tenhamos papel de liderança no mundo e não ao contrário. Então, somos contra o isolacionismo e acreditamos que lideranças estratégicas são importantes para o futuro.

Nas últimas semanas, as queimadas e os desmatamentos na Amazônia tornaram-se assunto mundial. O presidente da França, Emmanuel Macron, anunciou alguns posicionamentos contrários que poderiam até ameaçar este acordo Mercosul-União Europeia. A própria Alemanha também colocou a questão da verba do Fundo da Amazônia em consideração. Como a Alemanha observa este momento?
Faz parte também de uma relação de parceria que existam, em certos momentos, divergências, e se fale abertamente sobre isso. Então, quando há conf litos de opinião, é importante que haja esta tentativa de diálogo para dirimir estas diferenças. A melhor maneira de fazer isso é com uma troca de informações baseada nos fatos. Para a Europa, é muito importante levar a sério estes temas como preservação ambiental, conservação da natureza, proteção da diversidade, do clima. Não apenas para o governo e opinião pública. Por isso, também é importante que estes pontos tão relevantes sejam levados seriamente em consideração e sejam cumpridos quando se trata de um acordo União Europeia e Mercosul. Foi importante, nos encontros que tive, ressaltar que só vejo como caminho: o diálogo entre os governos e não de uma forma vertical, mas de maneira cooperativa e de igual para igual. Tive também um encontro com o vice-presidente (do Brasil) Hamilton Mourão e com o governador (de Pernambuco) Paulo Câmara e em todos estes diálogos percebi que existe realmente esta preocupação com a proteção da Amazônia, do meio ambiente, da diversidade. Que estas questões são levadas a sério. Então, quando voltar para Alemanha, vai ser importante para mim transmitir o que ouvi aqui em relação às queimadas, desmatamento ilegal e não tolerância a respeito disso. É importante esclarecer o público da Alemanha quanto a estas questões. Eu espero realmente que o Fundo da Amazônia possa continuar e tanto a Noruega quanto outros parceiros continuem provendo financiamento. Claro que isso requer regras muito claras. Então, se há um desmatamento de mais de 8 mil quilômetros quadrados como foi o fato, é fator a ser levado em consideração.

Qual a observação na Alemanha em relação ao governo Jair Bolsonaro? Conseguiu visualizar melhor com sua presença aqui no Brasil? Sei que a economia é um setor que tem expectativas em relação ao governo. Aqui, vimos que ele foi eleito porque usou argumentos que eram do interesse da maior parte da população, como a vitória na eleição mostrou. Claro que os governantes são medidos conforme suas ações, não só as palavras. Agora, vamos ter que observar se estas reformas que estão sendo iniciadas realmente vão se materializar. Apenas o tempo vai nos dizer. No Brasil, política também é colocada em prática com muita paixão, emoção. Então, isso também pode levar a manifestações que causam surpresa na Alemanha, porque também é um outro tipo de comunicação, de se expressar. Mas, às vezes, na diplomacia, nós temos que medir as palavras e também agir com a cabeça mais fria. Tenho percebido, na minha experiência com a política, que é importante pensar como esta mensagem vai chegar ao outro. Então, infelizmente, algumas mensagens são percebidas dessa maneira como estamos vendo em outros países e isto é uma pena porque dificulta a vida daqueles que têm muito interesse em aprofundar e expandir as relações entre Brasil e Alemanha.

Um dos pilares do governo brasileiro é a desestatização de suas empresas. O governo alemão enxerga quais potencialidades no Brasil que possam atrair investimentos da iniciativa privada do seu país?
Vejo potencial e, com certeza, haverá interesse por parte de empresas alemães em relação a estas perspectivas/possibilidades. Então, acredito que o setor privado não é um pior administrador do que um público e também atua só com pontos de vista do mercado. Então, acredito que isso pode ter boas repercussões em relação também aos consumidores, usuários que receberão estes serviços ou produtos. Na Alemanha, temos o modelo da chamada economia de mercado social, ou seja, não é nem apenas o mercado nem apenas o elemento social que prevalece, mas uma mistura dos dois. Acho também, entretanto, que quando se trata de privatizações e liberalização do mercado, é necessário levar em conta certas considerações, principalmente na questão social. De qualquer forma, é importante assegurar que a concorrência aja de acordo com os princípios do mercado para que atenda as decisões dos consumidores.

Quando a Alemanha olha para o Brasil, o que enxerga?
Um país enorme. Acho que além de ser de grandes dimensões, possui orgulho de si mesmo, um enorme potencial, um povo muito acolhedor, hospitaleiro e também elementos em comum conosco como a imigração alemã, do passado, e também relações que existem atualmente. Existem raízes comuns, relações econômicas e potencial grande para turismo. Então, realmente dói um pouquinho ver que estas divergências afetam essa imagem. A minha visão é de otimismo, vejo com bons olhos este futuro. Por outro lado, o Brasil é uma grande nação do futebol, que se caracteriza por ser brilhante.


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