Entrevista 'Eu sei o que podem fazer com nossos dados', diz André Ferraz, CEO da In Loco

Por: Kauê Diniz

Por: Luciana Morosini - Diario de Pernambuco

Publicado em: 08/09/2019 17:20 Atualizado em: 10/09/2019 16:08

Foto: Fabricio de Almeida/Imagem e Art/Divulgação
Foto: Fabricio de Almeida/Imagem e Art/Divulgação
Privacidade é uma questão que cada vez mais ganha importância. Mas até que ponto nossos dados estão seguros? A Lei Geral de Proteção de Dados, que entra em vigor em agosto de 2020, promete ser um marco regulatório importante no Brasil, mas alguns pontos ainda deixam brechas para questionamentos em relação à segurança dos brasileiros. Além disso, as novas regras prometem impactar empresas não apenas do ramo de tecnologia, mas de diversos setores da economia nacional. A pernambucana In Loco, que trabalha com dados através da geolocalização, já está preparada para encarar esta nova fase de regulação e promete continuar crescendo a números exponenciais, principalmente porque toda a atuação é feita através do comportamento dos usuários, mesmo sem identificar gênero, número do CPF, e-mail ou outras informações pessoais. O trabalho é justamente o inverso: usar o comportamento das pessoas para protegê-las, como explica o CEO e cofundador André Ferraz. Em entrevista ao Diario de Pernambuco, ele falou sobre os pontos positivos e negativos da nova lei, como vai impactar a economia nacional e também a sua empresa, revelou que ele está protegido, mas que a maioria das pessoas não tem os dados seguros e deu dicas de como elas podem proteger as suas informações pessoais. 

Além disso, contou a história da In Loco, promessa de virar um unicórnio, ou seja, uma empresa avaliada em US$ 1 bilhão, e como está esse processo tão esperado no estado, afinal de contas, pernambucano gosta mesmo é dessa megalomania, além dos empregos gerados no estado. Falou ainda sobre o mercado de trabalho. Como referência para tantas outras startups pernambucanas que nasceram pequenas e sonham em crescer, o CEO ainda falou da importância de incutir uma cultura que norteie os passos da empresa em busca do seu lugar entre as grandes, mesmo que para continuar seguindo os seus princípios precise negar uma proposta milionária, como fizeram os sócios da In Loco. A questão, para eles, não é apenas ganhar dinheiro, é conseguir resolver um problema na sociedade mundial. E, em termos de privacidade de dados, ainda há muito o que ser feito. O caminho do crescimento está aberto e eles estão buscando essa trilha. 

Como está a questão da Lei Geral de Proteção de Dados?

Na minha opinião, ela é um marco importante e acho que cria algumas regras básicas para, pelo menos, ter um mínimo de ordem nesse caos. Mas, sinceramente, eu acho que ela não resolve o problema ainda. A GDPR, que é o espelho europeu dessa lei brasileira, já teve algumas consequências não plenajadas. Então, por exemplo, a GDPR e também a LGPD têm uma parte que é sobre os direitos do usuário, o direito à informação e ao esquecimento. O direito à informação é você poder chegar para qualquer aplicativo e dizer que quer ver todos os dados que pegou sobre mim. Por exemplo, tem aquelas caixinhas de som que coletam tudo que está sendo falado na sua casa e não tem um sistema de autenticação muito seguro. Já tiveram mais de 1.700 ocorrências na Europa de pessoas que baixaram os áudios inteiros de outras pessoas porque esse direito acabou abrindo essa brecha sem atrelar esse direito a mecanismos de autenticação que sejam realmente muito seguros. Não existe um link entre essas duas coisas. Então, se o mecanismo de autenticação não é muito seguro, mas aquele produto dá o direito à informação, você tem grandes chances de ter seus áudios vazados por outra pessoa. 

Em algum canto, em uma letra miúda, tem especificando isso de que você aceita ou simplesmente isso não existe?

Aí é outro problema dessa nova lei porque ela requisita que a política de privacidade seja simples, direta e objetiva, mas, na prática, como aplicativo ou plataforma, você continua podendo fazer uma política de privacidade com 15 páginas que ninguém vai ler. Então, por mais que esteja lá, você não vai chegar nesta sessão para dizer que autoriza. Por exemplo, teve um caso que aconteceu recentemente que descobriram que havia funcionários do Google escutando os áudios das pessoas. Acho que 0.2% dos usuários Google tinham pessoas escutando áudio. Então, os outros 99,8% eram máquinas escutando. Teve um outro caso que também descobriram que o Facebook estava contratando pessoas para escutar os áudios de outras pessoas. Se as políticas de privacidade fossem realmente transparentes, a maioria dessas empresas ia falar coisas bizarras do tipo: "Por mais que você desligue seu celular, eu vou continuar rastreando a sua localização". Se tivesse isso escrito de forma clara na sua frente, eu duvido que você iria aceitar. 
 
Então, um primeiro ponto de falha dessa lei é essa questão do direito à informação e o outro é o direito ao esquecimento. O que está acontecendo muito na Europa?
Vamos supor que tem um político muito corrupto, bate na porta do meio de comunicação e manda apagar. Esse negócio abriu brecha para censura. E não ficou especificado que tipo de informação você pode pedir o direito de esquecimento. E a última é a política de privacidade em si, que deveria ser mais direta e transparente. Então, por exemplo, você está usando uma rede social para falar com seus amigos, postar coisas, por que ela precisa saber para quem eu liguei? Se ela falasse isso, possivelmente eu não iria aceitar, mas ela não avisa. Então a lei é um marco importante, mas ainda está longe de resolver o problema e tem esse e vários outros gaps que precisam ser resolvidos.

Então, na Europa é totalmente questionável? E se o Brasil tem esse espelho, o que já poderia melhorar?

Na Europa já está em vigor e teve muito tiro saindo pela culatra. E parece que não estão olhando para rever, não tenho visto muita discussão sobre como melhorar a lei e torná-la mais robusta. E é normal, a primeira versão não viria perfeita. O Brasil teria a oportunidade de já consertar, mas não sei, não. No país, criaram vários exceções ao governo, muita coisa que não se aplica a ele, mas vale ressaltar que o governo é um dos principais controladores de dados sobre a população. Ele tem nossos dados de votação, de saúde, de viagem, financeiros, tem a receita, quanto a gente ganha, onde a gente mora, ele tem tudo. E a lei tem uma série de exceções para que no governo não seja tocado. Então, na Europa, inclusive, boa parte da motivação para a lei existir foi para que os governos não abusassem das informações. 

A opinião de vocês está sendo escutada durante a concepção da lei?

Vou ser bem honesto, a gente não está nem querendo falar neste momento porque as motivações não parecem muito genuínas. A gente não quer se misturar com isso.

Existe alguma forma de as pessoas se protegerem ou se entrei em uma rede social não tem mais jeito?

É complicado se você for entrar nessas principais plataformas e for navegar por essa parte de privacidade e segurança, eles sempre tornam esse tipo de configuração mais complicado do que qualquer outro. Para você mudar o nome do seu perfil, é rapidinho, mas para você dizer que não quer que peguem o seu histórico de ligações telefônicas, aí tem que passar por um labirinto grande para chegar lá. As plataformas tornam isso difícil. Hoje uma das formas de se proteger de fato é gastando tempo configurando as coisas. Do tipo: baixou um app de uma rede social, vai ter que navegar por todas as configurações, desligar um monte de coisas, ir nas configurações do celular, de privacidade, são coisas difíceis para um leigo. E a opção para um leigo é não usar, o que não vai acontecer.

Você, André Ferraz, considera-se protegido?

Eu estou protegido. Me considero protegido. Por exemplo, eu não uso o buscador mais popular, não tenho conta pessoal em redes sociais, tenho conta empresa, mas não tenho com meus dados pessoais, os serviços que uso são bem configurados. Eu tenho um cuidado adicional, mas isso me faz gastar tempo, ter muito mais atenção para usar a internet e não deveria ser assim. Mas eu sei o que acontece, eu sei o que eles podem fazer. 

As pessoas andam com tudo logado, redes sociais, aplicativos. Quais os cuidados que as pessoas devem ter?

Alguns cuidados básicos são usar um sistema de autenticação de dois passos. A grande maioria das aplicações tem isso. Tem como você fazer tanto por SMS como fazer por algum aplicativo autenticador. SMS não é bom, não é nada seguro, é muito fácil de interceptar a mensagem. A maioria faz por SMS, inclusive os bancos, e não tem nada OK em SMS, é muito fácil de quebrar, de interceptar e ler a informação. Já teve broker de SMS no Brasil que passou mais de três meses exposto e nem soube. Basicamente, esse broker tinha boa parte dos bancos como clientes. Então, se eu soubesse o número do seu telefone, conseguiria pegar o seu acesso por essa plataforma e conseguiria entrar na sua conta bancária. É muito frágil. Ligação telefônica e SMS têm segurança baixíssima. Então, qualquer tipo de autenticação que use isso não é muito seguro. Eu recomendo usar um aplicativo de autenticação e tem alguns, inclusive, um do próprio Google. Esse é um cuidado básico mais de segurança e privacidade. Aquilo que falei: Ou você não usa ou gasta tempo para configurar. Vai ter que gastar tempo porque poderia ser superfácil, mas as plataformas não ajudam. É trabalhoso, mas não é algo que exige conhecimento técnico.

Já que não estamos mais seguros, existe alguma maneira da pessoa voltar atrás e evitar essa exposição de dados?

O dado que vazou, já vazou. Histórico não vai ter muito como apagar agora. A parte boa é que, quando entrar o direito ao esquecimento, você vai poder falar para aquela farmácia que pediu teu CPF para dar desconto para ela apagar todo o seu histórico. Isso é uma boa aplicação desse direito. Mas, por enquanto, não dá. O grande ponto é que se tem uma farmácia te oferecendo R$ 15 para você dar o CPF para ela, alguém está pagando muito mais para você dar seu CPF. Ninguém é besta. Se fosse para dar desconto para vender mais, não precisava de CPF. Então, o desconto não é isso, não vem pelo CPF, esse dado pode estar sendo vendido para outro lado. Tudo bem, pode ter o benefício, mas como hoje não há transparência, você não sabe para onde esse dado está indo. Você não sabe qual é a consequência. Por exemplo, imagina que essa farmácia pegou esse dado, criou uma base gigantesca para vender o histórico de compra de remédio das pessoas para indústria farmacêutica ou para o plano de saúde. Aí aparece o corretor do seu plano de saúde falando que, infelizmente, vai ter que subir o preço e pagar R$ 300 a mais por mês. Aí os R$ 1 mil que você pegou acumulado de descontos em três meses vão embora. Acabou-se, o benefício vai durar muito pouco. Aí que acho importante a entrada da lei porque, pelo menos, quando você perguntar para que esse dado vai ser usado, qualquer entidade vai ser obrigada a responder. 

No começo parece que vai ser bem complicado em relação a informações. O Brasil está preparado? 

Vai ser uma bagunça, quase ninguém está preparado para isso. Quando você vai para farmácia são dados sensíveis, os de saúde, assim como hospitais. Os hotéis têm muitos dados de muita gente e eles não estão nem preocupados, não fazem nem ideia que essa lei está vindo. A questão é que muita gente acha que essa lei é para empresas de internet, mas não, ela é para tudo. Então, acredito que os negócios tradicionais são os que mais vão sofrer, de longe. O Brasil não está preparado, mas nem a Europa, nenhum lugar. Só para se ter uma ideia, o impacto estimado de custo para adaptação na Europa está hoje em 150 bilhões de euros. 

Informação é o novo petróleo do milênio?

Sem dúvida. O que está vindo é que a gente está entrando em uma era de automação. Se você parar para pensar, a internet, até então, só revolucionou duas indústrias: a de mídia e a de varejo. Está começando a revolucionar a indústria financeira, a chegar na agricultura, a bater na indústria... Então se você pegar varejo e mídia, deve ser entre 7% e 8% da economia global, que é o que foi influenciado pela internet até então. Os outros 90% ainda vão ser completamente revolucionados por tecnologia. O espaço de tempo depende da indústria, mas olhando para o todo é coisa de 10 anos e que vão passar muito rápido.

Existem indústrias ainda muito tradicionais, como construção, a própria indústria, a automotiva, que estão ainda começando esse processo...

Ou essas empresas se adaptam ou elas serão engolidas por outras que ainda nem existem. Então, por exemplo, a Tesla faz carro elétrico, o próximo passo são os carros autônomos e ela não consegue produzir o volume de carros suficiente para atender a demanda que tem. Ela está construindo a maior fábrica de carro do mundo neste momento para poder atender a demanda. A atuação dela ainda é limitada. Ela vende para os Estados Unidos, um pouquinho para Europa e Brasil, mas é majoritariamente para os Estados Unidos. Uma fábrica dessa estando pronta, as outras montadoras se preparem porque vão passar por cima.

O Brasil está muito atrasado ainda, né?

Quem está muito mais na frente é a China. Ela dá um pau em todo mundo. Coloca os Estados Unidos no bolso. China tem e forma muito mais engenheiro de software do que em qualquer outro lugar do mundo. Lá, as proporções são outras. Inclusive, as empresas de internet lá hoje representam 30% do PIB da China. Fui há dois anos visitar a Tencent, que é a maior empresa de internet da China e ela tem 10 mil PHDs em engenharia de software só em uma empresa. Não existe uma empresa no Brasil que tenha 10 mil engenheiros de software, quanto mais PHDs. No Brasil, existe um déficit de 400 mil engenheiros de softwares. 

Essa é uma das profissões importantes do futuro ou talvez daqui a cinco anos já seja outra?

Engenharia de software muda muito rápido porque sempre tem tecnologia nova e precisa se adaptar. Não pode pensar que se formou em computação e está feito na vida. Tem que se atualizar constantemente. A mudança é uma constante em computação. Mas, com certeza, não tem como uma pessoa se formar em computação e ficar desempregada. Só se ela quiser. 

Mas muito se fala que na hora de abrir uma vaga se pede muitos requisitos e se paga pouco...

Isso ainda é um problema no Recife. O mercado está se aquecendo bastante e hoje a gente tem o papel de inflacionar esse mercado. Aqui, a gente pede muito menos requisitos porque a gente não quer que a pessoa saiba um monte de coisa. A gente quer que a pessoa tenha a capacidade de aprender um monte de coisa. Então, a gente pede menos, mas a gente testa mais aptidão técnica e a capacidade dela aprender. Hoje, por exemplo, a nossa tabela salarial para engenheiro de software aqui no Recife é a mais alta do Brasil. Hoje a gente está com o papel de inflacionar o mercado, e os empresários não estão gostando da gente por causa disso. Mas não estou muito preocupado, sinceramente. Se a gente quer os melhores, a gente vai pagar por isso. 

O Ministério Público do Distrito Federal abriu inquérito para investigar a obtenção de dados pessoais de brasileiros pela In Loco. No que deu?

Não deu em nada, mas teve um impacto grande. Atrasou o processo de investimento porque os investidores requisitaram mais diligências em relação à privacidade. A gente fez três diligências com três escritórios diferentes, que vieram aqui, investigaram tudo e passou e a gente recebeu investimento. Mas esse processo atrasou a entrada de investimento uns três meses. Teve um impacto grande em termos de investimento e também comercial muito grande. A gente perdeu, mais ou menos, R$ 10 milhões em contratos por conta disso. Então se a gente fosse menor, mais frágil, a gente poderia ter quebrado por uma investigação que não aconteceu.

Muito se fala que a In Loco se tornará um unicórnio, vocês têm essa expectativa? 

A gente não comenta sobre o valuation da empresa, mas não é um objetivo. Não é por isso que a gente está trabalhando, pode ser uma consequência. E, se for, vai ser visto como uma consequência, não é um número que vai ditar que a gente chegou lá. Até porque, a nossa ambição é muito maior. E, entrando na questão da privacidade, a gente acredita que ela vai ser um dos maiores problemas da humanidade nos próximos anos. Se você resolve um dos maiores problemas da humanidade, você constrói uma empresa muito grande. Nosso objetivo é resolver esse problema. Então, do ponto de vista de regulação, para a gente se adaptar à LGPD é consideravelmente simples porque uma das decisões que a gente tomou lá atrás, dado esse objetivo que a gente tinha desde a fundação da empresa, foi de nunca ter dado identificado da pessoa, ou seja, nunca ter CPF, e-mail, telefone, nada da pessoa. O que torna muito mais fácil a nossa vida quando chega uma lei como essa. A lei entra em vigor em agosto do ano que vem. A gente tem algumas coisas para serem ajustadas para estar 100% de conformidade que a gente planeja terminar em novembro ou dezembro deste ano. E que são, inclusive, aqueles dois direitos, à informação e ao esquecimento. Pela lei, a gente já poderia ter feito, gerava um número identificador aleatório, mandava para nós e a gente deletava ou mostrava o seu dado. Mas isso não seria seguro o suficiente para a gente saber que aquela pessoa que está mandando o identificador é realmente a pessoa que está pedindo o direito. Como a gente não sabe quem é ela, fica um pouquinho mais complicado. Então, se a gente quisesse, teria feito desse jeito e teria se despreocupado da segurança porque a lei não exige isso. Então, a gente já poderia estar em conformidade, mas a gente decidiu fazer do jeito certo. Então, estamos criando um mecanismo de autenticação superseguro para poder viabilizar isso. Vai ser um aplicativo que o usuário vai poder baixar e vai ver qual dado está coletando, para quem está indo esse dado, como está sendo usado, para poder bloquear cada uso. E aí sim se torna algo seguro. Não é apenas uma página na web que joga um código e recebe uma informação.

Então você pode estar jogando contra a sua própria empresa?

Exatamente, esse é o nível máximo de transparência que pode ter. Nenhuma empresa no mundo fez algo parecido. Mas isso faz parte da nossa missão. A gente aceita o risco.

Mas você, como empresa, diria para as pessoas que ainda é legal ter dados acessados? Quais seriam os benefícios?

A gente, de forma invisível, já gera muitos benefícios para as pessoas. Por exemplo, hoje a gente está fazendo muita coisa de segurança para os bancos. Estamos protegendo sua conta bancária e protegendo o banco de ter um laranja abrindo uma conta para fazer lavagem de dinheiro. Milhões e milhões de contas bancárias são protegidas por nós. Por exemplo, a pessoa tem agência, conta, senha e, no cadastro do banco, tem o comprovante de residência, o endereço declarado. A gente tem a nossa tecnologia embarcada dentro do aplicativo do banco. Vamos supor que alguém roubou seu celular e sua senha e vai acessar sua conta. A gente consegue identificar que esse celular não dormiu na sua casa e bloqueamos esse acesso. Essa é uma das formas. A gente consegue fazer isso sem saber quem é você porque o banco sabe quem você é, mas a gente só sabe que aquele número aleatório que está associado à sua conta, está associado ao seu endereço. Quando a gente vê que aquele mesmo número está em outro lugar, avisa ao banco. A gente traz muitos benefícios para a população que ela nem sabe. Milhões e milhões de usuários recebem cupons de desconto e benefícios e a inteligência que está por trás é a da In Loco. A gente está por trás de muitos programas de fidelidade. 

Quando a lei estiver funcionando e as pessoas puderem optar por não passar os dados, como vocês vão fazer para mostrar que a tecnologia é In Loco e vale a pena?

É transparência total. O primeiro passo é começar a ter contato maior com usuário final. Um aplicativo desse é um passo importante por mais que a gente tenha o risco de ser bloqueado. A gente vai começar um trabalho para o usuário final, falando sobre privacidade, a tal ponto que a gente espera se tornar essa marca de confiança das pessoas em relação aos seus dados para começar a virar um selo. No e-commerce, teve um tempo que existia um selo de site blindado para passar a segurança que aquilo é legítimo e queremos ser algo equivalente em relação aos dados. E que os aplicativos queiram falar aos seus usuários que eles usam a nossa tecnologia e nossa inteligência e eles estão preocupados com a segurança do usuário. Então, tem todo um trabalho de construção de marca e é nisso que a gente quer chegar. 

O sistema funciona só pelo comportamento, como funciona?

A nossa tecnologia vai além do GPS, que é de nossa propriedade. Ela faz duas coisas: ela detecta entrada e saída dos lugares, ou seja, a gente não está preocupado com a rota, a gente está preocupado com o momento que aquele celular entra e sai de um lugar. Esse dado só é visto quando tem alguma aplicação. Por exemplo, um aplicativo de delivery precisa acessar quando você chega em casa.Então, ele pediu autorização, você liberou a localização. Quando você chegar em casa, ele vai ser avisado para te mandar o cupom de desconto. O que o aplicativo pede para a gente é qual o contexto que eu quero identificar. O de delivery vai pedir o contexto casa. Por exemplo, a gente tem um aplicativo interno para bater o ponto dos funcionários, então ele monitora se a pessoa chegou no trabalho. Por mais que nossa tecnologia tenha a capacidade de pegar todos os eventos do dia, aquele aplicativo só vai ver o que ele realmente tem uso determinado. Para a gente tem que estar muito claro qual é o uso e benefício que dá para o usuário, se não tiver a gente não pode passar.

Vocês chegaram a ser procurados por políticos e, inclusive, com propostas que aumentariam bastante o faturamento...

A gente recebeu proposta de R$ 20 milhões para fazer campanha de pegar pessoas que estavam nos protestos e anunciar no período eleitoral. A gente negou de imediato, mas teve muita gente que aceitou. A gente foi procurado em vários níveis, seja estadual ou para presidência, a resposta que eu dei foi sempre a mesma: a gente sabe o poder dos nossos dados, da nossa tecnologia, e não queremos ser responsáveis por mudar o processo eleitoral. Então, tem os cuidados técnicos, mas, no final das contas, o mais importante é a cultura da empresa voltada a proteger o usuário em todos os níveis, seja como sociedade ou individual. As decisões que a gente toma aqui são alinhadas com o propósito de liberdade e não em busca do dinheiro que aparecer.

Podemos afirmar que o processo eleitoral foi mudado, de alguma forma, por esses trabalhos de quem aceitou e como conseguiremos não ficar reféns daqui para frente a quem tem mais dinheiro ganhe de ideias e propostas em uma eleição?

Não sou especialista no tema, mas eu acho que, por um lado, cada um usa a estratégia que quiser e investe onde quiser e esse é o estrategista e melhor execução. Mas, quando estamos falando de uma democracia, isso é um pouquinho mais complicado. Acho muito questionável, tanto é que a gente negou, o uso de tecnologias como essa tem a capacidade de até interferir na intenção das pessoas e nos seus gostos e usar isso em um processo eleitoral, que deve ser o mais neutro possível. Não deveria ser utilizado nenhum mecanismo de comunicação dirigida, mas, ao mesmo tempo, é quase impossível controlar porque a quantidade de ferramentas que tem por aí é grande. Algumas melhores do que as outras, mas em uma escala absurda. Então, do ponto de vista teórico, eu acho que deveria ser barrado esse tipo de coisa. Mas, do ponto prático, não vejo como poderia acontecer, se não for uma ação proativa das empresas como a gente teve no passado.

Você falou da cultura da empresa e, quando se fala de uma startup, incutir isso desde o começo é algo importante e vai nortear as decisões e vocês parecem ter isso bem definido. Como as startups devem enxergar isso desde o começo? 

Uma vez eu estava numa reunião e depois dela eu tive uma conversa com Jorge Paulo Lemann (economista e empresário suíço-brasileiro considerado um dos homens mais ricos do Brasil). Ele falou que em todo tipo de negócio e todos os mercados sempre vão ter aquelas pessoas que estão ali para construir um negócio a longo prazo e sempre vão ter os oportunistas que estão vendo um monte de dinheiro e vão correr para pegar. Esses oportunistas acabam ganhando dinheiro muito mais rápido do que você e, às vezes, você fica um pouco tentado a fazer o mesmo, mas não tem como construir uma empresa que vai durar desse jeito, que muda de direção. Por exemplo, a gente passou quatro anos trabalhando sem nenhum cliente e sem faturar nada para só depois começar a crescer porque a gente queria resolver um problema. A gente não pensou: 'Eita, é a nova moda e vamos ganhar dinheiro'. Aí Jorge Paulo falou para ter cuidado com os oportunidades, não se importar com eles e continuar focando no resultado porque é assim que se constrói uma empresa que dura. Então, vai muito do que cada empreendedor tem como ambição. Para alguns, é só ganhar dinheiro mesmo, ficar rico, viajar e ter uma casa legal, um carro massa. E tem empreendedores que querem resolver um problema mesmo e todo o resto é consequência. Para os que querem de fato resolver um problema, não adianta só centralizar tudo na sua cabeça e tomar todas as decisões. Para crescer, vai precisar criar uma cultura forte para que as pessoas saibam o jeito certo de tomar decisões naquele contexto. E cultura é primeiro quem está na empresa, quem você contrata e também quem você demite. Cultura é também os seus rituais, o que você diz que é, mas também o que faz. Tem muita empresa que tem os valores muito bonitos, como ética e respeito, e é pega na Lava-Jato. Então a gente não tem, por exemplo, isso escrito na parede, mas a gente tem um papel que a gente entrega a cada pessoa quando ela entra na empresa com, além dos valores, os pecados capitais, como ego, preguiça, apontar o dedo, focar na metade vazia do copo, politicagem, esse tipo de coisa. E a gente é bem explícito que ter esses pecados capitais leva cartão amarelo, se levar dois, está fora, e a gente não é tolerante. Às vezes, a gente é visto como muito duro, mas, sinceramente, se a gente não fizer desse jeito, a gente não vai construir um negócio duradouro. Prefiro ser uma empresa amada por 50% das pessoas e odiada pelos outros 50% do que ser meio termo.

Vocês passaram quatro anos sem faturamento e como foi sobreviver a isso?

Fomos eu e mais cinco pessoas nos dois primeiros anos e depois entraram mais dois. Os dois primeiros anos foram os mais difíceis porque a gente não tinha nenhuma remuneração. A gente largou a faculdade e tinha aquela coisa de que não estava ganhando nada, mas a gente tinha uma crença muito forte no problema e que seria capaz de resolver e isso ia demorar. Então, a gente persistiu muito. A parte bonita de empreender em tecnologia é que não precisa ter muito recurso, a gente não tinha espaço físico, ficávamos no quarto de um dos sócios, todo mundo já tinha computador porque fazia ciência da computação (na universidade) e é um item obrigatório para o curso. Então, tinha o material de trabalho e internet, que era o que a gente precisava. A gente levava uma vida supersimples, comendo miojo e gastando o mínimo possível. Eu tive muita sorte porque meus pais são da área de computação e isso ajudou a eles entenderem o que a gente estava fazendo e facilitou muito, mas, ao mesmo tempo, tinha pressão pela faculdade. Foi duro, quando a gente estava perto de receber o investimento, já estávamos chegando no limite. 

O que você fez com o primeiro salário?

O primeiro salário da gente, pelos quatro primeiros anos da empresa, que já tinha investimento, hoje equivale à bolsa de estágio. Então, a gente botou o mínimo possível para gente. Tudo bem que a bolsa de estágio da gente é bem boa. Acho que quase uns R$ 3 mil. 





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