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SAMBA/PAGODE

Jorge Aragão volta ao Recife com sede de samba; confira entrevista

Publicado em: 29/04/2022 17:26

Jorge Aragão se apresenta neste sábado no Memorial Arcoverde (Yves Lohan/Divulgação)
Jorge Aragão se apresenta neste sábado no Memorial Arcoverde (Yves Lohan/Divulgação)
“Se me chamarem de sambista, direi que sou pagodeiro. Se me chamarem de pagodeiro, direi que sou sambista”, afirma Jorge Aragão, veterano do ritmo que volta ao Recife neste sábado, no Reis do Samba, ao lado de Zeca Pagodinho, Fundo de Quintal e Diogo Nogueira no Memorial Arcoverde. É uma frase que elucida bem o poder de um dos maiores artistas da história da música brasileira em aproximar um público dos mais diversos, atravessando gerações e transitando por admiradores das mais diversas origens. 

Aos 73 anos, o músico atravessou um período de criação durante a pandemia, mesmo precisando dar uma desacelerada em sua rotina. Desse período, surgiu por exemplo, a música 2020 D.C, canção de trabalho que dá nome a atual turnê do músico, falando sobre sua trajetória e sua sobrevivência em meio a tempos tão difíceis. Agora, ele faz questão de voltar a se reencontrar com o público da melhor forma possível, trazendo a entrega de sempre. Confira entrevista:

VIVER: Quão importante é ter o samba, especialmente o samba de veteranos como você, marcando presença na retomada cultural que o país vive nos últimos meses?

JORGE ARAGÃO: O samba para mim é como se eu tivesse só a carne e alguém viesse colando a minha pele de cima a baixo. Ele é a maneira como eu me apresento hoje para o mundo. O samba é minha identidade, o samba é meu sorriso, o samba é minha letra. Só não vou dizer que o samba é o ar que eu respiro porque seria muito piegas (risos). Sua importância é a mesma que dou a minha raça. Ele é primordial. E acima de tudo, minha defesa também. 

E agora entro numa fase em que tem muita coisa sendo feita. É uma nova gestão da minha vida, Hoje eu tenho do meu lado as minhas filhas, genro, mais toda a equipe que sempre cuidou muito bem de mim. Maestro, a produção... tudo com pessoas de altíssima competência pra fazer esse show. Quer dizer, só o fato de poder trazer pra mim tudo aquilo que a tecnologia sede pra gente, eu já estou imensamente satisfeito. Eu quero o melhor para o samba, e vou fazer. Se o melhor é você colocar um chocalhinho pequenininho lá nas alturas, eu vou fazer isso, porque eu acho que o samba merece. Então expectativas são as melhores!


VIVER: E que lições você acredita que um bom ouvinte do samba pode ter tirado para enfrentar o período difícil que estamos atravessando e ter perspectivas para o futuro?

Eu tenho certeza que não são só os ouvintes do samba, ou só o Jorge não. É o povo todo hoje, a humanidade toda. Acho que estamos mais conscientes, mais temerosos, porque realmente vimos que independente de classe, de cor, credo, estava todo mundo na linha de perigo. A gente não vê isso (coronavírus) que está por aí, não tem cheiro, não tem cor e você pode pegar da sua própria família. Acho que é isso aí, a mudança na humanidade, de comportamento, de visão, de higiene,  principalmente de cuidar do próximo também.
Na minha cabeça, essa é a maior lição que ficou, não só para mim, mas tenho certeza que para todo mundo. Então, fundamentado nisso, eu vou procurar o melhor caminhos, tentar viver o melhor possível dos momentos, o mais que eu possa, principalmente com a saúde né, porque tem que cuidar disso. Logo eu, que trago comorbidades. Então saber que estou sobrevivendo a esse ano enfeitiçado, que sobrevivi, me deixa muito contente. Até mesmo estar aqui conversando com vocês, já é motivo de congraçamento. 


VIVER: Seu show aqui no Recife é em um evento no qual participarão também Zeca Pagodinho e Fundo de Quintal, artistas que têm uma grande ligação com sua trajetória. Como é seu sentimento de, depois de tudo que passamos, poder voltar aos palcos e ainda presenciar também a retomada de velhos amigos?

JORGE ARAGÃO: Eu só tenho gratidão eterna. Foi mais de um ano que a gente ficou sem ter show e/ou apresentações com o público presente. Então, claro, tem que respeitar o momento, e por isso nós estamos cercados de tudo que é possível para que possa transcorrer naturalmente esse trabalho. Todo mundo está se adequando.  E agora estar de volta ao palco, sentir o carinho do público e poder ajudar tantas pessoas através da minha arte me enche de gratidão. Principalmente ao lado de amigos tão bacanas. 

Tenho muita coisa ainda para viver e quero muito poder aproveitar enquanto estou aqui. Tenho certeza que vou desconstruir alguns mitos que rolam no meu seguimento. Eu não vejo fronteiras. Se me chamarem de sambista direi que sou pagodeiro; se me chamarem de pagodeiro direi que sou sambista.


VIVER: Artisticamente, como foi esse período de pandemia e isolamento para você? Foi de criação ou mais de apreciação?

JORGE ARAGÃO: Foi de apreciação e também de criação. Hoje eu respeito mais ainda as pessoas que estão a minha volta. A minha rotina eu não desacelerei, não. Eu parei. Eu fiquei um ano e pouco sem trabalhar. Isso é óbvio, e era o mínimo que eu podia fazer também para colaborar.Em casa os meus hábitos mudaram. Até mesmo a maneira de fazer música, alimentação, a hora de dormir. Sempre fui de madrugada. Tudo mudou, assim como todo mundo. A preocupação maior é quanto ao futuro, para poder me posicionar. Saber o que eu vou fazer quando voltar. E, principalmente, como sempre fui um provedor, foi difícil entender o que estava acontecendo.

Para além da composição, me fortalece. E o tempo para compor ficou mais exigente e ao mesmo tempo mais democrático. E desse período que surgiu a minha música de trabalho, que também dá nome a minha turnê, “2020 D.C.”, que fala sobre a minha história, que tenho certeza é um pouquinho da história de cada um. 2020 Depois de Cristo. “Eu sobrevivi ao ano enfeitiçado, quase pondo a prova a minha fé em Deus”. Eu acho que vocês já sabem qual é o ano enfeitiçado. “Mas nada nem ninguém nos capacita tanto do que essa mesma fé viral, nesse mesmo Deus. O que eu aprendi jamais se perderá e é tudo que desejo dar aos filhos meus”.  Há o respeito aos que se foram, e também há o respeito aos que sobreviveram, como eu. 



VIVER: Quais as expectativas de reencontro com o público recifense? Como vem sendo sua relação com ele?

JORGE ARAGÃO: As expectativas e os sentimentos, são os melhores! E espero que todos gostem, porque precisamos um pouco dessa alegria que a música nos traz.

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