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REINVENÇÕES SUSTENTÁVEIS Inovações perigosas

Por: Sérgio Xavier

Publicado em: 18/03/2019 08:16 Atualizado em:

Foto: Paulo Paiva/DP
Foto: Paulo Paiva/DP
Invenções e reinvenções geralmente são pensadas pra melhorar a vida. Mas, nem sempre isso acontece. Inovações podem ser usadas para o bem e para o mal. Na antiga era pré-digital (presencial), mesmo as criações mais pavorosas (como armas) não eram capazes de provocar caos global. Hoje, na era das redes digitais planetárias os riscos são gigantescos. Muitas tecnologias (virtuais e reais) já têm o poder de corromper e destruir, em larga escala, a vida humana e a biodiversidade da Terra. 

Genética, biotecnologia e nanotecnologia, por exemplo, abrem infinitas possibilidades de soluções sustentáveis. Mas, também criam assustadores riscos de manipulações transgênicas e produção de armamentos patógenos e microscópicos, autorreplicáveis, muito mais devastadores do que as velhas armas químicas. 

Mesmo tecnologias simples, podem causar grandes estragos. Como produtos de plásticos e fibras sintéticas que, além do lixo visível, soltam na água imensas quantidades de minúsculas partículas, imperceptíveis, que estão infestando rios e oceanos.

Supervírus digitais são outras ameaças invisíveis que já infectam computadores, mas podem causar danos ainda maiores com os avanços da Inteligência Artificial e a disseminação da Internet das Coisas (comando de equipamentos interligados), possibilitando invasões a sistemas que controlam residências, empresas, energia, comunicações e até bases militares.  

Os cibercrimes não param de crescer e emergir do submundo da internet profunda (Deep Web) para a vida real. Os autores do massacre da escola de Suzano (SP) interagiam com grupos extremistas nesse ambiente digital anônimo (também chamado de Dark Web). Um mundo obscuro, sem lei, usado por todos os tipos de criminosos e psicopatas, acobertados pela dificuldade de identificação. 

O covarde assassino das mesquitas da Nova Zelândia foi desgraçadamente mais longe. Inaugurou o terrorismo ao vivo, no Facebook, com perspectiva visual de videogames violentos e viralizou imagens macabras em tempo real. Como conter desencadeamentos dessas loucuras?

As nascentes computações biológica e quântica prometem revolucionar os computadores atuais. A biológica baseia-se na química orgânica e usa moléculas de DNA (que contém todas as informações para manter viva uma célula, portanto, pode acumular trilhões de vezes mais dados que os mais sofisticados computadores de hoje). A quântica usa a matemática das partículas do átomo para fazer cálculos e processamentos impossíveis até agora. 

Um computador biológico ou quântico poderá criar poderosos algoritmos de aprendizagem de máquina (Superinteligência Artificial) e desenvolver infinitas soluções, nas mais diversas áreas. Entretanto, poderá também burlar criptografias (senhas) da computação atual e invadir e controlar qualquer sistema. Já há uma tensa corrida internacional para que a ciência institucionalizada e com normatização ética domine essa tecnologia antes de terroristas e de regimes ditatoriais. Por isso é estratégico investir em pesquisa científica.

As possibilidades de aplicações benéficas e maléficas para inovações disruptivas indicam urgente necessidade de conhecimento, discussão pública e formulação democrática de novos marcos legais (nacionais e mundiais). Com a evolução da Inteligência Artificial; a criação de máquinas autônomas; a captura onipresente de dados pessoais e o uso de algoritmos que descobrem gostos, crenças, desejos e fragilidades de indivíduos (quase um hackeamento cerebral, comandado por um capitalismo invasivo), estamos sendo envolvidos por megainovações sem controle social, que podem nos ajudar e também nos escravizar.  

Suplantando as degradantes FakeNews, surgem as hiperameaçadoras DeepFakes - sofisticadas tecnologias de manipulação de imagens e sons que produzem videos falsos com perfeição. Imagens aparentemente reais vão tornar quase impossível saber se um fato “filmado” é ou não verdadeiro. 

Isso vai gerar uma crise de credibilidade generalizada, ao misturar e confundir fatos reais e invenções irreais. Mais do que nunca, toda informação terá que ser certificada, aumentando a importância do jornalismo profissional, a responsabilidade dos veículos de comunicação e a urgência de regulamentação das redes sociais.

As universidades e instituições científicas serão desafiadas a criar mecanismos ágeis para confirmação de conteúdos duvidosos. Ou a sociedade ficará à deriva, numa era em que autoridades, sem cerimônia, postam mentiras nas redes e, sem a mínima responsabilidade, incentivam até crianças a usarem armas. Em vez de facilitar acesso a armas, governos deveriam fomentar o acesso a informações seguras e a conhecimentos edificantes e pacificadores, fortalecendo a inteligência coletiva ao invés de encorajar a barbárie.    

É paradoxal, após milênios de evoluções e invenções incríveis, ver a comunicação se tornando um dos maiores problema da humanidade.  Mas, reinventar é também simplificar e resgatar princípios e valores genuínos. A melhor solução está dentro de nós, humanos, que compomos o sistema mais sociável e inteligente da Terra. Neste contexto, atualizar e disseminar a antiga “Palavra de Honra”, criando redes de alta confiança social, com propósitos elevados, será a mais essencial reinvenção civilizatória do século 21.    

Interação:  @sergio_xavier (Instagram),  https://bit.ly/2LCmN5u (Cultura de Paz no Brasil – UNESCO)

*Sérgio Xavier é jornalista, empreendedor de inovação tecnológica (InovSi - Porto Digital), consultor e desenvolvedor de projetos de Economia Circular e Gestão da Sustentabilidade. É ativista ambiental e foi Secretário de Meio Ambiente e Sustentabilidade de Pernambuco.



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