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RELAÇÕES INTERNACIONAIS A conexão Venezuela-Vietnã

Por: Thales Castro

Publicado em: 27/02/2019 07:53 Atualizado em:

Hoje é data histórica no âmbito da diplomacia presidencial de cúpula, não somente dos EUA, mas de todo o entorno geopolítico da Península da Coreia (Japão, Coreia do Sul e do Norte, China e Rússia). E, como em toda a data decisiva, há nuances significativas, dilemas e consequências a serem trazidas à reflexão aqui, ressaltando a conexão – aparentemente distante entre Venezuela e Vietnã – neste quadro panorâmico.

Com efeito, dois países distantes geograficamente e sem quase nenhuma aproximação sociocultural se destacam na nossa análise. Aliás, o mundo todo tem olhado, nestes dias tumultuados, para os dois países com um misto de grande pesar e com esperança cautelosa. Estamos falando da Venezuela e do Vietnã, que, embora unidos pela posição alfabética e pelo regime socialista, estão em campos opostos quando estamos falando de tempo presente e de expectativas futuras.

A Venezuela vive seu momento mais duro e penoso em razão de múltiplas e simultâneas crises de ordem socioeconômica, política e diplomática. O isolamento crescente, por parte do Grupo de Lima e pelas pressões da UE e dos EUA, do regime chavista-madurista com a tese do “socialismo do século XXI” tem trazido sofrimento indizível para parcela crescente da população que tem sido expulsa no imenso fluxo migratório para países vizinhos como Colômbia e Brasil. Os fracassos deste modelo, sobretudo desde a queda brutal no preço das commodities (a partir de 2012), são visíveis e tem sido apontado como principal causa para a redução do sucesso do ímpeto revolucionário bolivariano. Aliás, fora o apogeu no preço do petróleo (2007-2012) que gerou toda ilusão de opulência e de aumento de capital político e de influência na região. A fórmula do personalismo populista de caudilhos latino-americanos com manipulação demagógica nacionalista trouxe, repetidamente, danos profundos às populações sofridas da região. Na guerra das narrativas – por um lado o regime de Maduro insiste na velha tática de elencar o inimigo externo comum que, em decorrência do imperialismo sabotador, é o grande responsável pelas mazelas da Venezuela e, pelo outro lado, Juan Guaidó, presidente interino, assim reconhecido por mais de 50 países, carrega a veia de esperança na implosão do regime já claudicante – percebemos as contradições do atual momento deste país caribenho. O sangue tem sido derramado e a alma venezuelana está combalida; é hora de acolhimento e não de aventuras militares. Os remédios político-jurídico-diplomáticos precisam ser utilizados na sua inteireza diante do delicado quadro.

Distante da geopolítica da América do Sul, o Vietnã, país do sudeste asiático, palco de sangrento confronto com os EUA nos anos sessenta e setenta, com uma população de 95 milhões de habitantes, adotou o regime socialista unipartidário com colorações específicas no campo sociopolítico, doutrinário e econômico. Tal regime de capitalismo de Estado – ou de um socialismo de mercado na plena acepção do termo – bebeu da fonte da experiência chinesa, após Deng Xiapoing que, sob sua liderança, trouxe crescimento da economia de maneira galopante por quase três décadas e meia entre os anos 80 até bem recentemente. O Vietnã, atualmente, é um dos cinco países no mundo que advoga e tem, institucionalmente, o regime comunista pleno, de partido único, com base no marxi-leninismo; os outros quatros Estados nesta mesma condição são a China, o Laos, Cuba e a Coreia do Norte. Pois, justamente, no Vietnã se realiza, hoje, a segunda reunião de cúpula entre o Presidente Trump e o líder da Coreia do Norte, Kim Jong Un, para debater a desnuclearização da Península da Coreia. A primeira reunião de cúpula aconteceu em Singapura, em junho de 2018, que teve a declaração final vaga e de pouco compromisso para atingir mecanismo operativo e de fiscalização sobre o fim das ações de armamentismo nuclear. Assim, o Vietnã tornou-se (ironia do destino!) objeto do desejo da comunidade internacional como porta-voz esperançoso do futuro.

Neste sentido, Venezuela e Vietnã não estão no meio da encruzilhada fatalista; ambos estão, efetivamente, posicionados de forma oposta, na contramão de uma mesma via expressa: a Venezuela, lastimavelmente, implodindo por dentro e por fora e o Vietnã revelando ao mundo oportunidades frutiferas e grandes expectativas. Observemos que ambos estão unidos pelo mesmo sistema socialista em que um projeta-se de maneira alvissareira (terras vietnamitas) com crescimento econômico e hospedando a reunião de cúpula sobre o futuro pacífico do entorno coreano e o outro é engolido e destroçado pelos seus fantasmas do presente (regime venezuelano de Maduro). Longa vida à esperança e à paz!

* Doutor em Ciência Política. Coordenador do Curso de Ciência Política da UNICAP. Cônsul de Malta e Presidente da Sociedade Consular de Pernambuco.


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