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ESPERANÇA

Covid-19: tratamento em ratos de inalação de anticorpos se mostra promissor

Publicado em: 27/05/2021 14:19

 (As células de defesa artificiais reduzem a presença do Sars-CoV-2 no corpo das cobaias em um milhão de vezes. Foto: Nambulli et al./Science Advances)
As células de defesa artificiais reduzem a presença do Sars-CoV-2 no corpo das cobaias em um milhão de vezes. Foto: Nambulli et al./Science Advances
Uma minúscula molécula do sistema imune se mostrou promissora no combate à Covid-19 em testes laboratoriais. Pesquisadores americanos aplicaram um nanocorpo, uma espécie de anticorpo monoclonal de tamanho reduzido, diretamente nas vias nasais de ratos infectados pelo Sars-CoV-2. A estratégia terapêutica deu certo: o medicamento reduziu em um milhão de vezes as partículas do vírus presentes no organismo das cobaias e impediu a ocorrência de danos severos. Os resultados foram detalhados na última edição da revista Science Advances e, segundo a equipe de cientistas, abrem as portas para o desenvolvimento de uma terapia eficaz e mais barata contra o novo coronavírus.

De acordo com os autores do estudo, o experimento é o primeiro a testar o uso de nanocorpos por inalação como um tratamento da infecção pelo Sars-CoV-2 em um modelo pré-clínico (em cobaias não humanas). Antes dos experimentos, eles avaliaram um grupo de mais de 8 mil nanocorpos que, em testes in vitro, se mostraram eficazes no combate ao agente da Covid-19. Chegaram ao melhor elemento, o Nb21, e o modificaram, com ferramentas da bioengenharia, para potencializar ainda mais sua ação antiviral. “Após aperfeiçoá-lo, batizamos nosso produto final de PiN-21. Podemos dizer que ele é, de longe, o nanocorpo antiviral mais potente contra o Sars-CoV-2 visto até agora”, enfatizam.

Doses baixas de PiN-21 em formato aerossol foram aplicadas nas vias nasais de ratos infectados pelo Sars-CoV-2. O medicamento reduziu o número de partículas de vírus infecciosos presentes nas cavidades nasais, na garganta e nos pulmões das cobaias em um milhão de vezes, em comparação a animais tratados com um nanocorpo que não consegue neutralizar o coronavírus (placebo). “As cobaias que receberam nanocorpos de PiN-21 em aerossol também tiveram alterações mais leves na estrutura do pulmão e um menor grau de inflamação do que aquelas que receberam o placebo”, relatam os cientistas.

A terapia também protegeu os roedores de uma severa perda de peso, que é tipicamente associada à infecção grave pelo Sars-CoV-2. Ao contrário, os animais tratados com placebo perderam até 16% do peso corporal após uma semana de infecção. “Para o ser humano adulto médio, a taxa de perda de peso corresponderia a perder cerca de 9kg por semana”, comparam.

Os resultados iniciais animaram a equipe. “Ao usar uma terapia de inalação que pode ser administrada diretamente no local da infecção — no trato respiratório e nos pulmões —, podemos tornar os tratamentos mais eficientes”, afirma, em comunicado, Yi Shi, professor-assistente de biologia celular na Universidade de Pittsburgh, nos Estados Unidos, e um dos autores do estudo. “Estamos muito empolgados e encorajados com os dados sugerindo que o PiN-21 pode ser altamente protetor contra doenças graves e também prevenir a transmissão viral de pessoa para pessoa”, complementa.

Baixo custo
Até chegar à administração do nanocorpo pelas vias nasais, os cientistas tiveram que superar vários desafios técnicos. Para serem aplicadas no nariz, as partículas precisam ser pequenas, mas não ao ponto de se agruparem, o que enfraqueceria o seu efeito. Também têm que ser fortes o suficiente para resistir a pressão usada durante a aplicação. “Os nanocorpos PiN-21, que são aproximadamente quatro vezes menores do que os anticorpos monoclonais típicos, apresentam essas valiosas características e são perfeitamente adequadas para a tarefa”, afirmam os autores.

Outra vantagem é que eles são de baixo custo e, por isso, podem ser produzidos em escala industrial. Há ainda a possibilidade de modificá-lo sem muitas dificuldades — para adaptá-lo, por exemplo, às prováveis mudanças na estrutura do novo coronavírus. Os investigadores acreditam que esses fatores são essenciais para gerar terapias que contribuam para o combate ao Sars-CoV-2.

Para Claudia França Cavalcante Valente, membro do Departamento Científico de Imunização da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (ASBAI), a forma de administração é um dos principais destaques da pesquisa. “É algo que já rendeu resultados positivos no tratamento de outras doenças. Hoje em dia, a maioria das terapias para asma é feita dessa forma, com corticoides aplicados por via nasal. Com o uso desse método, os efeitos colaterais foram reduzidos e os efeitos esperados, mais fortes. Isso porque você vai direto para o órgão mais atingido, que é o pulmão”, explica. “No caso da Covid-19, os maiores danos gerados ao organismo são respiratórios, então faz muito sentido usar esse mesmo caminho.”

A médica acredita que o uso de anticorpos criados em laboratório será cada vez mais explorado em pesquisas médicas diversas. “No início, era uma terapia voltada quase exclusivamente para o câncer, mas, agora, ela é usada no tratamento de outras enfermidades, como as doenças reumatológicas, a dermatite atópica, entre outras. Faz muito sentido que isso seja testado para a Covid-19, mas é preciso criar estratégias tendo em mente o valor de produção, que precisa ser baixo. Essas terapias precisam ser acessíveis.”

Em laboratório
São células de defesa produzidas em laboratório com o objetivo de tratar doenças. Para desenvolvê-las, os especialistas precisam saber qual é o alvo da enfermidade em questão. Esse é o tipo de tecnologia mais utilizada atualmente para o tratamento de tumores diversos e, mais recentemente, para terapias contra a Covid-19.

Cientistas da Alemanha desenvolveram um programa de computador que consegue avaliar uma grande quantidade de dados médicos de forma mais segura e usá-los como base para diagnósticos e tratamentos mais refinados. A nova ferramenta, baseada em inteligência artificial, está em testes, mas já mostrou resultados positivos, conseguindo, por exemplo, distinguir perfis de indivíduos doentes e saudáveis em análises iniciais mantendo a privacidade dos dados. A expectativa é de usá-la para identificar a presença de câncer no sangue, de doenças pulmonares e da Covid-19.

Em artigo divulgado na edição desta semana da revista Nature, os autores enfatizam que a ciência e a medicina estão se tornando cada vez mais digitais, e que a análise dos volumes de informações coletadas por médicos é considerada a chave para oferecer melhores opções de tratamento, mas demanda uma série de cuidados.

“Os dados de pesquisas médicas são um tesouro. Eles podem desempenhar um papel decisivo no desenvolvimento de terapias personalizadas, que são feitas sob medida para cada indivíduo, com mais precisão do que os tratamentos convencionais. É fundamental para a ciência ser capaz de usar esses dados de forma abrangente e de tantas fontes quanto for possível”, afirma, em comunicado, Joachim Schultze, pesquisador da universidade alemã e um dos autores da pesquisa.

O intercâmbio de dados de pesquisas médicas em diferentes locais ou mesmo entre países, porém, está sujeito a regulamentos de proteção e soberania dos dados. Para preservar esses quesitos, os cientistas desenvolveram a tecnologia chamada Swarm Learning. Trata-se de um sistema que permite a troca de informações de forma extremamente segura, por meio de algoritmos treinados para reconhecerem apenas computadores projetados para o uso desse software.

Mais segurança
Ela também permite que os dados sejam bem compreendidos sem a necessidade de enviar informações pessoais dos pacientes ao sistema. “Além da segurança, não existe poder central sobre o que acontece e sobre os resultados. Portanto, não há, de certa forma, nenhum superchefe controlando a teia de dados. As informações inseridas são usadas apenas para fins médicos”, explica Schultze.

Nos primeiros testes, foram inseridos dados relacionados a células do sistema imunológico (glóbulos brancos) de pacientes com enfermidades no sangue — leucemia, por exemplo. “Esse tipo de molécula contém informações importantes sobre como o organismo reage a uma doença. Esse é exatamente o tipo de dado que você precisa para realizar uma análise de inteligência artificial”, diz o autor do estudo.

A precisão, ou seja, a capacidade dos algoritmos de distinguir entre indivíduos saudáveis e doentes, foi de cerca de 90%. Os pesquisadores acreditam que o mesmo poderá ser feito para a análise de outros problemas de saúde. Eles pretendem, como próximo passo, dar foco a enfermidades respiratória a partir da análise de informações de raios X de pulmões. “Estamos otimistas e apostamos alto que esse software acertará em outras análises. Acreditamos que o sistema poderá ser usado no futuro até em hospitais, algo que o refinaria ainda mais”, cogita Schultze. A equipe da Universidade de Bonn trabalha com uma empresa de tecnologia do país e outras instituições de pesquisa no desenvolvimento da ferramenta.

90%
É a precisão obtida pela ferramenta em testes para acusar enfermidades no sangue, como a leucemia
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