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PANDEMIA

Redução de renda e problemas na saúde mental afetam idosos durante a pandemia

Por: Aline Melo

Publicado em: 31/03/2021 19:50 | Atualizado em: 31/03/2021 19:57

 (Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil)
Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil
Com a necessidade de aplicar medidas restritivas e manter o distanciamento social, a pandemia do Covid-19 agravou a situação socioeconômica, a saúde física e mental das pessoas maiores de 60 anos, um dos principais grupos de risco da doença. Um estudo divulgado nesta quarta-feira mostra que houve diminuição de renda em quase metade dos domicílios dos idosos durante a pandemia no Brasil, sobretudo entre os mais pobres. A pesquisa da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), em parceria com cinco universidades do país, publicado nos Cadernos de Saúde Pública (CSP) traz ainda que a saúde mental na terceira idade foi bastante afetada também, intensificando sentimentos relacionados à solidão, ansiedade e tristeza, especialmente entre as mulheres. 

De acordo com o estudo, 50,5% dos idosos trabalhavam antes da pandemia, dos quais 42,1% sem vínculo empregatício. Durante o período analisado, houve diminuição da renda em 47,1% dos domicílios, sendo que 23,6% relataram forte redução e, até mesmo, ausência de renda. Entre aqueles que trabalhavam sem carteira assinada, a diminuição de renda ocorreu em 79,8% dos lares e a ausência de renda, em 55,3%. A diminuição também afetou de forma mais intensa os que tinham renda per capita domiciliar menor que um salário mínimo. Apenas 12% afirmaram que alguém do domicílio recebeu algum benefício do governo relacionado à pandemia.
 
O aposentado da Petrobrás Umberto Gondim, 63 anos, teve sua aposentadoria reduzida desde o início da pandemia: “O meu financeiro foi uma das áreas mais atingidas. Começaram a descontar na minha aposentadoria coisas que vão contra a lei trabalhista. Mês passado recebi 3% do meu salário, enquanto o correto é 30%”. Umberto também sofreu com cortes no plano de saúde e quando precisou ser internado após o diagnóstico de Covid-19, precisou pagar anestesista por fora: “O plano não tem mais anestesista, preciso pagar outro plano de saúde privado para ter acesso aos serviços que foram cortados”, lamenta.
 
O estudo trouxe ainda que  87,8% dos idosos aderiram ao isolamento social total ou de modo intenso, enquanto 12,2% não cumpriram o distanciamento ou tiveram poucas medidas restritivas e que 66,6% continuaram trabalhando normalmente durante a pandemia.


Gênero e saúde mental
“O aumento da crise econômica desde 2015, a perda de renda familiar, pensões insuficientes, o alto custo dos medicamentos, o desemprego dos filhos e a responsabilidade com os netos são algumas das razões que forçam os idosos a continuarem trabalhando, inclusive depois de aposentados. Na pandemia, só políticas de proteção social e o apoio de programas, como o de renda mínima, permitirão proteger idosos e seus dependentes da fome e da grande vulnerabilidade”, diz Dalia Elena Romero, principal autora do estudo.

Em relação a gênero e saúde mental, o estudo apontou que a sensação de tristeza ou depressão recorrente foi mais expressiva em domicílios com menor renda (32,3%) e na população feminina (35,1%) em comparação com a masculina. O sentimento frequente de solidão pelo distanciamento dos amigos e familiares foi indicado por metade dos idosos, sendo maior entre as mulheres (57,8%).

A aposentada Sônia Freitas, 75 anos, está em isolamento social rígido desde o início da pandemia e teve a saúde mental bastante afetada: “Antes eu viajava muito, era muito ativa, saía todos os dias, me movimentava bastante. Tive que parar e me fechar no quarto. No começo da pandemia eu fiquei com depressão, precisei tomar remédios”, conta a aposentada.
 
Para se adaptar às medidas restritivas, Sônia procurou algumas alternativas para diminuir a saudade e acalmar a ansiedade: “Gosto muito de ler, tenho lido bastante, caminhado pelo prédio onde eu moro, sempre de máscara. Não é como a gente estar juntos, mas sempre que dá saudades a gente liga pras amigas, faz chamada de vídeo”, afirma.
 
Para a pesquisadora, o fato da solidão e tristeza serem mais acentuados nas mulheres pode ter relação com a sobrecarga de cuidado do ambiente domiciliar durante a pandemia e, também, com a vulnerabilidade econômica que elas enfrentam. “Essa vulnerabilidade, que é bem maior entre mulheres do que homens, pode levar ao sentimento de ansiedade em períodos em que há um aumento do desemprego e da pobreza”, finaliza a pesquisadora.

Os pesquisadores usaram dados da Pesquisa de Comportamentos (ConVid), inquérito de saúde realizado pela Fiocruz, em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) para chegar aos resultados. A coleta de dados foi feita por meio de um questionário eletrônico preenchido por 9.173 pessoas com idade igual ou superior a 60 anos, entre 24 de abril e 24 de maio de 2020.
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