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Notícia de Ciência e Saúde

PANDEMIA

Covid-19: epidemiologistas temem que primeira leva de vacinas perca a eficácia

Publicado em: 31/03/2021 17:16

 (Para 88% dos entrevistados, há o risco de a baixa cobertura vacinal fazer com que os imunizantes deixem de fazer efeito contra as cepas do Sars-CoV-2 que estão surgindo. Foto: Pascal Guyot/AFP)
Para 88% dos entrevistados, há o risco de a baixa cobertura vacinal fazer com que os imunizantes deixem de fazer efeito contra as cepas do Sars-CoV-2 que estão surgindo. Foto: Pascal Guyot/AFP
Uma pesquisa feita com 77 epidemiologistas de 28 países — o Brasil ficou de fora — constatou que, para 88% deles, a baixa cobertura de imunização, especialmente nos países em desenvolvimento, pode tornar as vacinas para a Covid-19 inócuas. O medo dos especialistas é que, ao chegar à grande parte da população, a maioria das substâncias já não se adeque a novas variantes que possam surgir.

Realizada por um conjunto de organizações não governamentais, como a Anistia Internacional e a Oxfam, a enquete também mostra que dois terços dos participantes acreditam que as vacinas de primeira geração devem ter efeito médio de nove meses. Até agora, os principais laboratórios produtores de imunizantes, como Pfizer, Moderna, AstraZeneca e Sinovac, afirmaram que seus produtos funcionam com as variantes que, hoje, são dominantes: da Inglaterra, da África do Sul e do Brasil. As farmacêuticas já se manifestaram também sobre a viabilidade de adaptar anualmente as vacinas, assim como ocorre com a da influenza. Os especialistas ouvidos pela chamada Aliança Popular da Vacina, que fez a pesquisa, disseram acreditar que essas alterações serão necessárias para que os imunizantes continuem fazendo efeito.

Preocupada com a morosidade na cobertura vacinal, a coalizão alerta, no relatório, que, no ritmo atual, “é provável que apenas 10% das pessoas na maioria dos países pobres sejam vacinadas até o próximo ano”. “Quanto mais o vírus circula, mais provável é que surjam mutações e variantes, o que poderia tornar nossas vacinas atuais ineficazes. Ao mesmo tempo, os países pobres estão sendo deixados para trás sem vacinas e suprimentos médicos básicos, como oxigênio. Como aprendemos, os vírus não se importam com as fronteiras. Temos que vacinar o máximo de pessoas possível em todo o mundo, o mais rápido possível. Por que esperar e assistir em vez de se antecipar a isso?”, questiona Devi Sridhar, professor de Saúde Pública Global da Universidade de Edimburgo.

Gregg Gonsalves, professor da Universidade de Yale ouvido pela pesquisa, ressaltou que o interesse por uma ampla cobertura deveria ser mundial. “Com milhões de pessoas em todo o mundo infectadas com esse vírus, novas mutações surgem todos os dias. Às vezes, elas encontram um nicho que as torna mais adequadas do que seus antecessores”, disse Gonsalves, que preferiu não estipular um prazo de validade para as vacinas de primeira geração. “Essas variantes sortudas poderiam transmitir de forma mais eficiente e, potencialmente, evadir as respostas imunológicas às cepas anteriores. A menos que vacinamos o mundo, deixamos o campo aberto a mais e mais mutações, que podem produzir variantes que podem escapar de nossas vacinas atuais e exigir doses de reforço para lidar com elas.”

A coalizão destacou, em um comunicado, que nações ricas estão atrapalhando a divisão justa dos imunizantes. “A defesa dos países ricos aos monopólios dos gigantes farmacêuticos significa que os suprimentos globais estão sendo artificialmente racionados, com um punhado de empresas decidindo quem vive e quem morre. No início deste mês, os países ricos bloquearam uma proposta de renúncia aos direitos de propriedade intelectual das vacinas da Covid-19. A aliança os exorta a reconsiderar quando as negociações forem retomadas na Organização Mundial do Comércio, em abril”, diz.

Alta circulação
Jan Felix Drexler, pesquisador do Instituto de Virología Charitè, em Berlim, e autor de um estudo recente sobre mutação do Sars-CoV-2, explica que, enquanto os números de infecções seguirem altos, o vírus continuará sofrendo alterações. Segundo Drexler, o causador da Covid-19 tem uma taxa de mutação muito inferior à da influenza, mas superior à de outros coronavírus. Isso acontece justamente devido à alta circulação do micro-organismo.

“Com base nas taxas de evolução observadas nos coronavírus endêmicos do resfriado comum, nós esperamos que o Sars-CoV-2 comece a mudar mais lentamente quando as infecções começarem a diminuir — ou seja, uma vez que uma grande proporção da população global tenha desenvolvido imunidade como resultado da infecção ou por vacinação”, diz Drexler, que não participou da pesquisa da Aliança. “As vacinas da Covid-19 precisarão de ser monitoradas regularmente durante toda a pandemia e atualizadas quando necessário. Uma vez que a situação se estabilize, as vacinas, provavelmente, permanecerão eficazes por mais tempo.”

Defesas ativas
Ao mesmo tempo, um estudo científico divulgado ontem por pesquisadores do Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas (Niaid) dos EUA e da Faculdade de Medicina de Johns Hopkins sugere que as variantes podem não afetar a resposta das vacinas de primeira geração. Os cientistas analisaram amostra de células do sangue de 30 ex-pacientes de Covid-19, que se recuperaram antes do surgimento das novas cepas, e descobriram que células chamadas T CD8+ — que matam as infectadas, impedindo o ciclo de infecção do organismo — permaneciam ativas contra o Sars-CoV-2.
Nos testes com as células dos voluntários, os cientistas notaram que as T CD8 conseguiram reconhecer as principais variantes em circulação (Reino Unido, África do Sul e Brasil). As mutações na proteína viral spike dificultaram a detecção do Sars-CoV-2 pelos anticorpos neutralizantes, mas não impediram esse grupo celular de reconhecer células infectadas e atacá-las. Os pesquisadores afirmaram que são necessários estudos maiores, mas disseram que os resultados obtidos nessa análise sugerem que a resposta celular em pessoas que se recuperaram da doença — e, mais provavelmente, nas vacinadas — não é afetada por novas cepas.

Um dia depois de um relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS) afirmar que a hipótese de o Sars-CoV-2 ter surgido a partir do escape acidental do vírus de um laboratório chinês ser muito baixa, o diretor-geral da agência das Nações Unidas, Tedros Adhanom Ghebreyesus, deu uma declaração que gerou reação imediata global. Em uma coletiva de imprensa na qual apresentou oficialmente o documento, ele pediu que essa possibilidade seja investigada novamente. “Isso requer mais investigações, provavelmente com novas missões com especialistas, o que estou disposto a implantar”, disse Ghebreyesus, que também criticou o fato de os especialistas não terem conseguido acesso a muitos dados durante a missão especial na China, em janeiro e fevereiro.
Os Estados Unidos e outros 13 países expressaram “preocupações comuns” em uma declaração conjunta sobre o relatório. “É essencial expressar nossas preocupações comuns de que o estudo de especialistas internacionais sobre a origem do vírus Sars-CoV-2 foi significativamente atrasado e (que a equipe) não teve acesso exaustivo aos dados e amostras originais”, declarou o governo americano com outros países, incluindo Reino Unido, Israel, Canadá, Japão, Austrália, Dinamarca e Noruega.

Três hipóteses
Na apresentação oficial do relatório sobre a origem do vírus, o chefe da organização disse que a investigação permitiu avançar no tema “de forma importante”, mas gerou “outras questões que precisam de outros estudos”. O trabalho favorece a teoria amplamente aceita da transmissão natural do vírus de um animal reservatório (provavelmente o morcego) para o ser humano por meio de outro animal ainda não identificado.

A transmissão direta do vírus através de um animal reservatório é considerada de “possível a provável” pelos especialistas, que também não descartam a hipótese do contágio ter ocorrido por carne congelada — pista defendida por Pequim —, considerando esse cenário “possível”. O relatório recomenda a continuação dos estudos com base nessas três hipóteses, mas deixa de lado a possibilidade de transmissão para humanos durante um acidente de laboratório, contrariando as declarações do diretor-geral da OMS.
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