Diario de Pernambuco
Diario de Pernambuco
Digital Digital Digital Digital
Digital Digital Digital Digital
Notícia de Ciência e Saúde

REDES SOCIAIS

Filtros do Instagram modificam procura por procedimentos estéticos

Publicado em: 08/01/2021 18:00 | Atualizado em: 17/01/2021 18:12

Especialistas alertam para a relação que muitos usuários tem desenvolvido com os filtros. (Foto: Pixabay)
Especialistas alertam para a relação que muitos usuários tem desenvolvido com os filtros. (Foto: Pixabay)
 
A nossa imagem nas redes sociais já faz parte indissociável da maneira como nos enxergamos. E essa nossa relação, através da tela e das redes sociais, só se intensificou com a pandemia, que trouxe as reuniões por vídeo de maneira intensa. Dentro dessa maneira de se mostrar e relacionar no virtual, os filtros para stories se tornaram mecanismo essencial para "uma boa aparência": melhoram a pele, geralmente tornam o contorno de nariz mais delicado, emagrecem as bochechas e aumentam o tamanho da boca, por exemplo. Segundo uma pesquisa da universidade americana de Boston Medical Center, os filtros para Instagram e a nossa relação com modificações das nossas imagens já têm sido gatilho para pessoas procurarem por procedimentos. Em alguns casos, os efeitos são potencialmente desencadeadores de problemas como Transtorno Dismórfico Corporal (TDC).

A onda dos filtros surgiu de imediato junto com o Snapchat, em 2011. Nesse início, a maioria deles tinham tons cômicos e viralizaram de tempos em tempos na internet. Quando o Instagram adicionou a função stories, em 2016, muitos desdobramentos começaram a existir: desde filtros mais lúdicos, até funções para maquiar fotos em selfie e, finalmente, alguns filtros capazes de "suavizar a pele e as feições dos usuários". No começo de 2020, alguns deles chegaram a ser banidos pelo próprio Instagram, como forma de criar um ambiente mais saudável em rede. 

Quem trabalha no setor dos procedimentos estéticos viu alguns hábitos simples das redes se tornarem demandas por modificações. Hoje, já podemos dizer que esses desejos são uma uma realidade dos consultórios. Para a Dra. Palmyra Santa Rosa, cirurgiã-dentista e especialista em Harmonização Orofacial, o crescente número de pacientes em busca desses procedimentos faz parte de um movimento de padronização do atendimento estético. "A harmonização não é um padrão, mas uma opção de valorizar o que há de beleza em cada um. O problema dos filtros é que eles não têm limitações. Podem deixar qualquer pessoa 'bonita' de um jeito irreal", pontua.  

Essas novas demandas incluem modificações como pele mais lisa e sem manchas, nariz mais fino e a boca maior, sobrancelha mais arqueada. Mas segundo Dra. Palmyra Santa Rosa, a maioria dos resultados são impossíveis de serem alcançados, do ponto de vista ético e científico. "O formato do rosto, do ponto de vista ósseo, não é possível. As pessoas não conseguem se aceitar sem isso", critica. Se antes o padrão era algo distante e que existia somente na TV, agora muitos usuários têm se confrontado mais com desejos para aparência, quando se enxegam "diferentes" na tela do próprio celular. 
 
Ainda segundo a especialista, toda tendência de busca e resultados padronizados que tem tomado o mercado da harmonização faz parte de um movimento amplo de banalização e negligência da ciência, em prol de resultados fáceis e um estilo de produção desumanizada. "Harmonização não é moda. Moda é tendência e isso vai e volta. Harmonização é ciência. O que aconteceu foi um modismo, das pessoas olharem as celebridades e imitarem os casos. Os procedimentos existem como opção do tratamento para incômodos", comentou. "É preciso existir esse equilíbrio do bom senso e da ciência", explica a dentista. 

Casos de Transtorno Dismórfico Compulsivo
Um dos problemas mais graves que todo esse processo pode acarretar é o Transtorno Dismórfico Compulsivo (TDC). Em pesquisa feita no ano de 2019, estimou-se que cerca de 2% da população brasileira apresentava o quadro de TDC. O transtorno envolve um grave comportamento compulsivo com a aparência, que se desenrola em questões como baixa autoestima e uma visão deturpada da realidade. Segundo a psiquiatra e professora Camila Carvalho Ferro, o transtorno chega a níveis preocupantes quando afeta áreas importantes da vida, como relacionamentos interpessoais e problemas profissionais.

Dentro dos novos paradigmas da relação entre autoestima e likes nas redes, o desenvolvimento de transtornos como TDC tomam novas proporções. "As redes sociais produzem uma imagem corporal considerada socialmente perfeita. Em associação com esse transtorno, se tornou comum uma maior oferta de procedimentos estéticos e a procura desenfreada para se obter o corpo perfeito. Tudo isso em busca da aceitação social", explica a médica.
 
Para a psiquiatra, a comunidade científica e os profissionais da saúde exercem um papel ético essencial para sanar o crescimento da doença. "O papel ético dos profissionais da área da estética seria uma linha tênue em respeitar as características físicas individuais e saber até que ponto aquele procedimento estético é necessário para aquela pessoa. Muitos pacientes com Transtorno Dismórfico Corporal procuram os profissionais para realizar inúmeros procedimentos estéticos e quando não indicam o procedimento desejado, procuram outro especialista até que seja realizado", pontua. "Essa padronização do corpo é a busca por aceitação pela sociedade e uma busca na aceitação consigo mesmo", completa. A médica lembra que para o diagnóstico correto é essencial a consulta, buscando diagnosticar precocemente e com tratamento adequado. 


Os comentários abaixo não representam a opinião do jornal Diario de Pernambuco; a responsabilidade é do autor da mensagem.
Mundo tem recorde de mortes por Covid-19 em 24 horas
Manhã na Clube com Rhaldney Santos - 27/01
AstraZeneca defende eficácia em idosos depois de questionamentos
Manhã na Clube com Rhaldney Santos - 26/01
Galeria de Fotos
Grupo Diario de Pernambuco