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Notícia de Ciência e Saúde

Cannabis

Especialistas debatem potencial de canabinoides na saúde do idoso

Publicado em: 01/11/2019 19:35

Pesquisadores defendem a abordagem científica do assunto (Foto: Drew Taylor/ Unsplash )
Pesquisadores defendem a abordagem científica do assunto (Foto: Drew Taylor/ Unsplash )
O uso de canabinoides na população idosa para fins medicinais foi tema de um debate na manhã de hoje (1°) promovido no Rio de Janeiro pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia. Os canabinoides são substâncias derivadas da cannabis, considerada ilícita em boa parte do mundo e no Brasil. Com possíveis benefícios em tratamentos contra dor crônica, demência e outros problemas comuns em idosos, o uso terapêutico tem sua discussão atravessada por expectativas e preconceitos, avaliam os pesquisadores, que defendem uma abordagem científica do assunto.

Médico do Centro de Demência de Alzheimer do Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IPUB-UFRJ), Ivan Abdalla apresentou estudos internacionais sobre canabinoides e demência que apontam a necessidade de aprofundar o tema antes de prescrever ou afastar de vez essa hipótese.

"A gente tem evidências de que talvez tenha um efeito, mas a gente precisa caminhar alguns passos para poder chegar lá", disse.

O pesquisador apresentou um mapeamento feito pela Agência Canadense de Drogas e Tecnologias em Saúde (CADTH) que levantou 12 estudos realizados entre 1997 e 2017 em seis países: Canadá, Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha, Suíça, Holanda e Israel. Apesar de ter considerado as pesquisas de baixa qualidade e com alto risco de viés, a agência ainda assim concluiu que elas indicam que os canabinoides podem ser eficazes contra alguns sintomas da demência.

"Têm evidências para algumas situações clínicas, mas para demência a gente ainda não tem essa resposta. Existe um potencial, mas ainda estamos em um momento experimental", afirma o pesquisador. "É preciso estimular a pesquisa e o debate, e derrubar barreiras pra isso, mais do que para o uso."

No Brasil, a Resolução de 2.113/2014 do Conselho Federal de Medicina restringe o uso do canabidiol para o tratamento de crianças e de adolescentes com epilepsia que tenham sido refratários às terapias convencionais. Somente neurologistas, neurocirurgiões e psiquiatras podem fazer essas prescrições. A recomendação da cannabis in natura ou de qualquer outro derivado diferente do canabidiol é proibida pela resolução.

O debate foi mediado por uma das fundadoras da Comissão de Cuidados Paliativos da SBGG, Claudia Burlá, que afirma não ter dúvidas de que os canabinoides podem ter um grande potencial terapêutico para os idosos.

"A gente tem que estudar, não pode ficar em um reducionismo e em um moralismo", diz ela, que vê esse potencial para descobertas no tratamento de dor crônica, quadros de epilepsia e náusea decorrente de quimioterapia. Ela adverte que é preciso cautela no debate, para não criar na sociedade uma expectativa alta demais em relação às possibilidades terapêuticas dos canabinoides. "Nada de panaceia", enfatizou ao iniciar a discussão, que lotou uma das salas do congresso.

O presidente da SBGG, Carlos André Uehara, lembra que qualquer prescrição médica para idosos ainda depende de mais estudos, mas que o papel de uma sociedade científica é apoiar o debate. "Não impede que a gente tenha a discussão."

Sobre o congresso
O debate sobre os canabinoides ocorre em uma programação que trouxe temas contemporâneos para o congresso de geriatria e gerontologia, como o combate aos preconceitos, a Previdência Social, o envelhecimento LGBT e o uso de tecnologia para assistir idosos à distância.

"Temos que discutir a questão de gênero, o velho não é um ser assexuado, e tem a questão de doenças sexualmente transmissíveis", lembra Uehara, que destaca a importância de preparar os geriatras para lidar com idosos diversos. "O profissional tem que entender que existem diferenças. O mundo não é binário. Não é zero ou um, e sim ou não."

O envelhecimento populacional torna o debate da qualidade de vida na velhice urgente para a população brasileira, e o médico chama a atenção que a transição do país para uma sociedade com mais idosos depende de um planejamento público e individual. "Se não nos programarmos e não fizermos uma transição demográfica em melhores condições, isso vai impactar na saúde e até na Previdência. Envelhecer é um planejamento."
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Resistência nordestina em cartaz

Diego Rocha *
Celebrando a resistência da arte nordestina e a arte nordestina de resistir, o 21º Festival Recife do Teatro Nacional está em cartaz na cidade para confirmar a vocação de um povo à resiliência e à criatividade. Até o próximo dia 24, a programação montada com muita assertividade pela Prefeitura do Recife irá apresentar 12 espetáculos em vários teatros da cidade, entre eles seis montagens nacionais jamais vistas na capital do Nordeste.
Mas não está toda no ineditismo a urgência que esses espetáculos carregam. Mas também e principalmente na referência e reverência que muitos fazem à estética e às temáticas fincadas no árido solo fértil do Nordeste. Alguns textos, como o da montagem Ariano %u2013 O Cavaleiro Sertanejo, da companhia carioca Os Ciclomáticos sequer foram produzidos no Nordeste. Mas sabem, bebem e comungam do povo que somos. Foram buscar inspiração em autores ensolarados como Ariano Suassuna e os tantos tipos e símbolos que ele fundou e transportou do imaginário nordestino para o mundo.
Há na programação citações ainda mais explícitas à nossa produção teatral. Parido do punho do próprio Ariano, em carne e pena, o clássico Auto da Compadecida chega ao Festival com sotaque mineiro, numa belíssima montagem do Grupo Maria Cutia, com a direção cênica precisa e sensível de Gabriel Villela, que conseguiu unir a cultura do cangaço pernambucano ao barroco mineiro, sem sair da trilha aberta pelo Movimento Armorial de Ariano.
São montagens que nos representam e, ao mesmo tempo, nos apresentam a nós mesmos, além de nos hastear bandeira a congregar territórios artísticos, afetivos e cívicos, num país assombrado e repartido por um projeto de poder excludente. Em cima e embaixo dos palcos, durante e depois do 21º Festival Recife do Teatro Nacional, que a arte e a força nordestina persistam farol aceso a nos guiar.

* Presidente da Fundação de Cultura Cidade do Recife

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