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DESCOBERTA

Cientistas desenvolvem método de autoteste para o câncer cervical

Publicado em: 06/11/2019 09:35

 (Foto: Valdo Virgo/CB/D.A. Press)
Foto: Valdo Virgo/CB/D.A. Press
Terceiro câncer mais frequente nas mulheres, o de colo de útero, também chamado de cervical, tem 100% de chance de ser evitado quando descoberto precocemente. Na fase pré-tumoral, momento em que lesões assintomáticas provocadas pela infecção por alguns tipos do vírus do papiloma humano se desenvolvem no tecido uterino, o exame preventivo é capaz de identificar a presença do HPV nas células. Embora simples, o teste tem de ser realizado por um ginecologista, o que nem sempre está ao alcance de todas as mulheres. Para tornar o diagnóstico menos complexo, cientistas da Universidade Queen Mary de Londres, na Inglaterra, desenvolveram uma forma de rastrear o vírus a partir de amostras vaginais e de urina coletadas pelas próprias pacientes.Continua depois da publicidade

O autoteste foi apresentado na Conferência do Instituto Nacional de Pesquisa do Câncer do Reino Unido em Glasgow, na segunda-feira. De acordo com Belinda Nedjai, principal autora do estudo e diretora do Laboratório de Epidemiologia Molecular da Universidade Queen Mary, as mulheres envolvidas na pesquisa aprovaram o método não invasivo, uma indicação de que ele pode aumentar a participação nos programas de rastreamento da doença. “Provavelmente, no início, será voltado às mulheres que não costumam fazer o exame preventivo ou em países onde não há um programa de rastreamento do câncer cervical”, diz. “Mas, a longo prazo, esse pode se tornar o método padrão para todas. No nosso estudo, as mulheres afirmaram que preferem fazer o exame em casa a passar pelo procedimento numa clínica”, continua.

O atual teste padrão, também conhecido como papanicolau, é feito no consultório e, se identificada a presença do HPV, é preciso fazer um segundo exame que confirme o vírus. “O teste é o principal método de rastreamento do câncer cervical. É um método muito sensível, muito bom para detectar verdadeiros positivos, mas carece de especificidade — em outras palavras, é necessário um segundo exame de confirmação no caso de mulheres que não apresentam risco aumentado de desenvolver câncer”, afirma Nedjai.

Alterações
No estudo, os pesquisadores pediram que as mulheres coletassem amostras de urina e, com um esfregão vaginal (um cotonete um pouco maior), retirassem um pouco do muco cervical. Esse material foi para o Laboratório de Epidemiologia Molecular da Universidade Queen Mary, onde os cientistas buscaram pelo classificador molecular de metilação S5. Metilação significa uma alteração química em uma das quatro letras básicas do DNA que compõem o código genético humano (ACGT).

O S5 é um rastreador de HPV — ele procura pelo vírus nas amostras biológicas. “Até onde sabemos, esse estudo é o maior a testar o S5 na urina e em células cervicais autocoletadas para detectar lesões pré-cancerígenas”, diz Nedjai. “Esperamos que o autoteste melhore as taxas de aceitação do rastreamento do câncer do colo do útero, reduza custos para os serviços de saúde e melhore o desempenho dos programas de rastreamento.”

O teste S5 desenvolvido por ela analisa a metilação do DNA de quatro tipos de HPV mais fortemente associados ao câncer — HPV16, HPV18, HPV31 e HPV33. Ele também investiga o processo no gene humano EPB41L3 e, assim, produz uma pontuação que indica o nível de risco da lesão. Se a pontuação estiver acima de um ponto de corte definido, indica uma chance aumentada, e, quanto maior a pontuação, maior o risco de desenvolvimento do tumor maligno. Os cientistas descobriram, em pesquisas anteriores, que, quando o S5 era usado em amostras cervicais, atingia 100% de precisão na detecção de câncer invasivo e 93% de exatidão no diagnóstico pré-cancerígeno em mulheres que tinham um teste positivo para HPV.

Estágios
O câncer do colo do útero é precedido pelo crescimento anormal de células precursoras na superfície do órgão — a chamada neoplasia intraepitelial cervical. Esse crescimento é dividido em três estágios (CIN1, CIN2 e CIN3), com a probabilidade de as células se tornarem um tumor maligno aumentando em cada um deles. Com base no conhecimento anterior sobre o nível de acurácia do S5, a equipe de Nedjai decidiu avaliar se o rastreador poderia identificar mulheres que tinham lesões pré-câncer CIN3 nas amostras de urina e vaginais.

Mais de 600 mulheres que compareceram à clínica de colposcopia (avaliação do colo do útero) no Royal London Hospital em consequência de um resultado HPV-positivo ou da identificação de células cervicais anormais foram convidadas a participar do teste, liderado por Jack Cuzick, diretor do Instituto Wolfson de Medicina Preventiva de Queen Mary. Seiscentos e vinte forneceram amostras vaginais, sendo que 503 delas também coletaram urina. Os pesquisadores extraíram e analisaram o DNA no laboratório e geraram escores S5.

“Descobrimos que o classificador S5 funcionou bem em ambas amostras”, conta Nedjai. “Ele distinguiu mulheres que não tinham lesões pré-cancerígenas daquelas com lesões CIN3 ou mais altas.” Os pesquisadores avaliaram duas maneiras de usar o S5. Primeiro, testaram o S5 como um teste secundário em mulheres positivas para HPV, para limitar o número de pacientes. Na urina, o rastreador foi melhor na identificação correta daquelas que tiveram lesões pré-câncer (96% de acurácia) do que para detectar a presença das cepas HPV16 (73% de precisão).

Em seguida, a equipe pesquisou o desempenho do S5 como um teste autônomo, ou seja, sem a necessidade prévia de um exame de HPV. O exame diagnosticou corretamente 85% das lesões que podem levar ao câncer.  “No momento, estamos trabalhando em novos marcadores para tentar melhorar ainda mais a precisão do classificador, mas esses resultados representam um avanço no rastreamento do câncer do colo do útero, especialmente para mulheres que não costumam se consultar, assim como pacientes mais velhas, as que acham o teste muito doloroso ou as que não têm acesso a um programa de triagem em seu país. Achamos promissor”, avalia a médica.

Manuel Rodriguez-Justo, patologista consultor da University College London, do Reino Unido e membro do subcomitê do Instituto Nacional de Pesquisa do Câncer do Reino Unido sobre detecção e prevenção precoces, classificou a pesquisa de “empolgante”. “Ela que mostra que é possível detectar o pré-câncer cervical com alto risco de evoluir para câncer invasivo em amostras de urina e vagina coletadas por mulheres no conforto e na privacidade de suas casas”, afirmou o médico, que não participou do estudo.
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Resistência nordestina em cartaz

Diego Rocha *
Celebrando a resistência da arte nordestina e a arte nordestina de resistir, o 21º Festival Recife do Teatro Nacional está em cartaz na cidade para confirmar a vocação de um povo à resiliência e à criatividade. Até o próximo dia 24, a programação montada com muita assertividade pela Prefeitura do Recife irá apresentar 12 espetáculos em vários teatros da cidade, entre eles seis montagens nacionais jamais vistas na capital do Nordeste.
Mas não está toda no ineditismo a urgência que esses espetáculos carregam. Mas também e principalmente na referência e reverência que muitos fazem à estética e às temáticas fincadas no árido solo fértil do Nordeste. Alguns textos, como o da montagem Ariano %u2013 O Cavaleiro Sertanejo, da companhia carioca Os Ciclomáticos sequer foram produzidos no Nordeste. Mas sabem, bebem e comungam do povo que somos. Foram buscar inspiração em autores ensolarados como Ariano Suassuna e os tantos tipos e símbolos que ele fundou e transportou do imaginário nordestino para o mundo.
Há na programação citações ainda mais explícitas à nossa produção teatral. Parido do punho do próprio Ariano, em carne e pena, o clássico Auto da Compadecida chega ao Festival com sotaque mineiro, numa belíssima montagem do Grupo Maria Cutia, com a direção cênica precisa e sensível de Gabriel Villela, que conseguiu unir a cultura do cangaço pernambucano ao barroco mineiro, sem sair da trilha aberta pelo Movimento Armorial de Ariano.
São montagens que nos representam e, ao mesmo tempo, nos apresentam a nós mesmos, além de nos hastear bandeira a congregar territórios artísticos, afetivos e cívicos, num país assombrado e repartido por um projeto de poder excludente. Em cima e embaixo dos palcos, durante e depois do 21º Festival Recife do Teatro Nacional, que a arte e a força nordestina persistam farol aceso a nos guiar.

* Presidente da Fundação de Cultura Cidade do Recife

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