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Notícia de Ciência e Saúde

Prevenção

Governo aposta em medo e repulsa de efeitos de DST em campanha para estimular camisinha

Publicado em: 31/10/2019 18:43

Focada em jovens de 15 a 29 anos, a proposta aposta na reação de jovens ao pesquisar imagens na internet de infecções como sífilis, gonorreia e clamídia (Foto: FranckinJapan/Pixabay.)
Focada em jovens de 15 a 29 anos, a proposta aposta na reação de jovens ao pesquisar imagens na internet de infecções como sífilis, gonorreia e clamídia (Foto: FranckinJapan/Pixabay.)
"Você já viu os sintomas de algumas infecções sexualmente transmissíveis?"
É com essa pergunta que inicia uma nova campanha do Ministério da Saúde para estimular o uso de camisinha. A estratégia foi lançada na tarde desta quinta-feira (31).

Focada em jovens de 15 a 29 anos, a proposta aposta na reação de jovens ao pesquisar imagens na internet de infecções como sífilis, gonorreia e clamídia. Em vídeo, o grupo reage com expressões de medo, nojo e repulsa.

"Se ver já é desagradável, imagine pegar. Use camisinha e se proteja dessa e de outras infecções sexualmente transmissíveis", finaliza um narrador no vídeo.

Para Mário Scheffer, da Faculdade de Medicina da USP, a redução que vem sendo apontada em pesquisas no uso de camisinha reforça a necessidade de novas campanhas de prevenção. 

"Mas o mote da campanha 'Sem camisinha, você assume o risco' é antiquado e comprovadamente pouco eficaz. Lembra campanhas do início da década de 1990, do governo Collor, que pregavam que 'Se você não se cuidar, a Aids vai te pegar'', afirma ele, para quem a estratégia termina mais "por estigmatizar e discriminar quem se infectou do que para prevenir".

"Estamos falando de sexo e de prazer, e neste caso, não funciona campanha de choque e de culpa, como dizer que 'o risco é seu'. Choque e culpa não deram certo no começo da epidemia de HIV, e mais afastam do que aproximam jovens da prevenção."

Segundo ele, evidências atuais apontam que comportamentos associados à maior vulnerabilidade em relação à sífilis, HIV e outras infecções e doenças sexualmente transmissíveis não dependem só da vontade pessoal. "Há questões sociais, além de preconceitos, machismo, homofobia e diferentes realidades que levam ao aumento das infecções", diz.

Questionado no lançamento se a medida não pode gerar estigma ao trazer imagens de repulsa ao ver os sintomas, o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta nega e diz que a ideia é aumentar "o medo de pegar a doença".

"A maioria das pessoas não sabem [o que são essas infecções]. Dizem: ah, isso aí, o que é isso? Quando se fala de cancro mole, de clamídia, de gonorreia, ou herpes genital, quando se depara com imagens, talvez seja um gatilho [para usar a camisinha]. Se eu perguntar para um conjunto da população sobre a importância da camisinha, todos vão dizer que é importante. Mas e usou? Entre a informação e a ação, existe um gap", disse.

Segundo ele, a ideia era abordar a consequência de não usar a camisinha. O valor investido na estratégia foi de R$ 15 milhões.

Presente no lançamento, Mauro Romero Leal Passos, professor de DST na UFF, diz avaliar que a ideia transmitida na campanha de "se ver é ruim, pegar é pior" pode aumentar o conhecimento das infecções sexualmente transmissíveis. "É uma ideia de ver para reconhecer que aquilo pode ser uma DST e não achar que é um corrimento ou algo banal", disse.

Além do foco nas reações, a campanha também chama a atenção por outros fatores.

Ao contrário de campanhas anteriores pró-camisinha, a iniciativa dessa vez cita apenas de forma rápida o HIV e a Aids. Também não cita grupos considerados mais vulneráveis a esse vírus, como gays e transexuais, público que também ficou de fora da campanha veiculada no Carnaval.

Mandetta diz que a opção por abordar jovens de forma ampla ocorre para chamar a atenção para outras infecções.

"As ISTs não têm cor, não tem religião. A que está mais ligada à questão da homossexualidade é a Aids. Mas as ISTs lato sensu são um grupo de risco também", disse.

Ele critica o que chama de "rotulagem" das campanhas de prevenção nos últimos anos. "Parece que já se criou uma rotulagem, tem que ser o homossexual e a Aids. Como se tivéssemos só uma infecção transmissível e só para um público. Por muito tempo ninguém falava de sífilis. Ficou em segundo plano e as consequências estão aí."

Dados divulgados pela pasta apontam aumento nos casos de sífilis nos últimos anos. Só em 2018, foram 158 mil casos de sífilis adquirida, um aumento de 32% em relação ao ano anterior. Com isso, a taxa de detecção atingiu 75,8 casos a cada 100 mil habitantes. No mesmo ano, foram 62 mil casos de sífilis em gestantes, além de 26 mil em bebês -casos transmitidos de mãe para filho.

"Posso dizer que, se mantiver desse jeito, a sífilis vai ser uma das principais infecções num cenário curto, muito maior do que a Aids", disse o ministro.

Ele cobrou que haja mais medidas mais taxativas, como projetos de lei para responsabilizar parceiros que se negam a fazer o tratamento contra a doença, aumentando o risco de novas infecções.

Ainda de acordo com Mandetta, uma nova campanha, focada na testagem do HIV, deve ser lançada em dezembro.
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