Pesquisa Pessoas com menos de 30 anos têm procurado cada vez mais procedimentos estéticos

Por: Alice de Souza - Diario de Pernambuco

Publicado em: 14/07/2019 08:23 Atualizado em: 14/07/2019 08:28

Antes vistos só como questão de vaidade, cirurgias e tratamentos estão sendo incorporados aos cuidados de saúde rotineiros. Foto: Peu Ricardp/DP FOTO
Antes vistos só como questão de vaidade, cirurgias e tratamentos estão sendo incorporados aos cuidados de saúde rotineiros. Foto: Peu Ricardp/DP FOTO

O primeiro procedimento estético da empresária e advogada Amanda Machado foi feito aos 18 anos. Logo ao completar a maioridade, ela realizou uma lipoaspiração para modelar o corpo em algo que a incomodava. Essa foi a primeira de uma série de intervenções estéticas pelas quais Amanda se submeteu nos últimos 12 anos. Cuidar da beleza faz parte da rotina dela e inclui ainda visitas frequentes ao dermatologista. Aos 30 anos, Amanda é reflexo da mudança na relação entre as gerações e os tratamentos estéticos. Se antes eram vistos como receio ou reparação tardia, agora eles são, cada vez mais, incorporados ao cotidiano como métodos preventivos e de cuidado da saúde.

Uma pesquisa realizada pela farmacêutica Allergan com 14,5 mil consumidores e 1,3 mil médicos em 18 países mostrou que o uso de plataformas digitais e a adesão dos chamados millennials, nascidos entre 1981 e 1996, aos tratamentos estão impulsionando a categoria de estética médica no mundo. No Brasil, o Allergan 360° Aesthetics Report entrevistou 611 pessoas e revelou que 81% dão valor à aparência como fator que contribui para o sucesso em todos os aspectos, o que faz com que 86% dos médicos acreditem num aumento no número de pacientes atendidos pelos próximos 12 meses.

"Percebemos que as pessoas estão mais à vontade em admitir que desejam procedimentos estéticos. Realizamos uma pesquisa no ano passado e cerca de 50% dos entrevistados no Brasil queriam fazer tratamentos. Neste novo levantamento, o percentual subiu a 73%”, explica a diretora da Allergan, Cecília Gurgel. Outro dado mostrado pela pesquisa é que o conceito de beleza foi ampliado em relação ao passado, o que influencia na forma como as pessoas buscam os procedimentos estéticos. “Magreza e peso são palavras que deixaram de ser mencionadas. As pessoas de 21 a 35 anos chegam a mencionar as curvas como definição de beleza”, acrescenta Cecília.

Na visão da dermatologista membro da Academia Americana de Dermatologia Ligia Colucci, os interessados por tratamentos estéticos hoje buscam mais naturalidade nos resultados. “As pessoas procuram estar bem na fase da vida em que se encontram. O tratamento deixou de ser algo pontual para fazer parte da rotina de cuidados. A consulta é como uma consultoria”, diz. Para o cirurgião plástico e pesquisador do laboratório de Biologia Celular e Tecidual do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (USP) Ricardo Boggio, os tratamentos têm sido cada vez mais vistos como questão de saúde. “Quando se fala em procedimento estético, o paciente precisa ir ao consultório, ser avaliado, como numa rotina médica comum, para construir um plano de tratamento”, ressalta.

Segundo eles, pessoas com menos de 30 anos têm procurado cada vez mais cedo os consultórios. “Aqueles com mais de 50 geralmente são os que fizeram intervenções demais. Os que têm de 30 a 50 anos fazem parte do grupo que tem medo. Já os de menos de 30 chegam sabendo o que querem”, diz. Nesse aspecto, o papel dos profissionais é dosar a expectativa e a realidade. “É preciso desconstruir imagens prontas, explicar a necessidade real de um procedimento, fazer a pessoa refletir sobre os objetivos e motivações, para traçar um diagnóstico”, acrescenta Boggio.

Amanda Machado acredita que a própria relação dela com a estética mudou. “Eu nunca tive medo de fazer os procedimentos ou de as pessoas saberem que eu fiz. Com a maturidade, a questão do empoderamento feminino, comecei a me reconhecer de outra forma como mulher”, diz. No caso da estudante de administração Larissa Alvarenga, 22 anos, os cuidados com a estética começaram também na adolescência, mas ainda não se estenderam para procedimentos cirúrgicos. “Passo protetor solar sempre, frequento o dermatologista. Desde que comecei a me maquiar, tenho esse cuidado. Sempre busquei também muita informação, pesquisei na internet sobre olheiras, sobre outros procedimentos. Penso sempre no futuro.”

Uma geração que sabe o que quer

A pesquisa revelou que pessoas da geração millennial, os que nasceram entre 1981 e 1996, estão mais predispostos a realizar tratamentos estéticos do que outras faixas etárias. A questão deixou de ser “se vou fazer” para ser “quando irei fazer”. Os millennials tendem a enxergar os tratamentos como questões preventivas e não corretivas. Entre os motivos elencados pelos especialistas para essa mudança de comportamento, em relação a gerações de décadas anteriores, estão a maior disseminação de informação em vários canais, incluindo a internet, e também o uso das redes sociais. 

Cerca de três em cada 10 pessoas que têm entre 21 e 35 anos consideram realizar algum tratamento estético preventivo. Entre pessoas de 26 a 55 anos, o percentual cai para 24%. Entre aqueles com 56 a 65 anos, é ainda menor, 13%. As redes sociais, segundo a pesquisa, atuam em dois sentidos: da informação e do espelho na busca pela imagem ideal. Pelo menos duas em cada 10 pessoas seguem um médico nesse espaço, enquanto 32% usam as redes para pesquisar sobre problemas em áreas específicas ou tratamentos. 

“Cerca de 80% dos pacientes chegam ao consultório munidos de informações falsas ou distorcidas. Então, a gente precisa desconstruir uma imagem e trazer o paciente para a realidade, antes de tudo”, explica o cirurgião plástico e pesquisador da USP Ricardo Boggio. O levantamento da Allergan mostrou que no Brasil 36% das pessoas usam filtros para postar fotografias em aplicativos de redes sociais e que 36% já evitaram aparecer em uma foto ou interagir socialmente em função da aparência do corpo e do rosto. Além da questão das informações falsas, a internet também traz consigo o problema do culto ao físico impossível. “A imagem filtrada pode ser a busca por uma imagem que não existe. Uma ‘selfie’, por exemplo, é uma perspectiva distorcida de você mesmo”, ressalta a dermatologista membro da Academia Americana de Dermatologia Ligia Colucci.
 


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