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Notícia de Ciência e Saúde
Saúde Estudo liga consumo de fast food na infância com alergia alimentar

Publicado em: 08/06/2019 17:09 Atualizado em:

 Foto: Richards/Reprodução
Foto: Richards/Reprodução

Há evidências de que a incidência de alergias alimentares está aumentando especialmente entre as crianças. Segundo a Associação Brasileira de Alergia e Imunologia, de 6% a 8% de meninos e meninas com menos de 3 anos de idade são afetados pelo problema. A reação do sistema imunológico logo após a ingestão de um determinado alimento pode ser desencadeada por diversos fatores, mas o que não se sabia, até agora, era que os junk foods (comida lixo, na tradução literal do inglês) estão entre as causas.

 

É o que mostrarão pesquisadores da Universidade Frederico II, em Nápoles, na Itália, em um estudo que será apresentado neste sábado (8/6), na 52ª Reunião Anual da Sociedade Europeia de Gastroenterologia Pediátrica, Hepatologia e Nutrição na cidade de Glasgow, na Escócia. A equipe alerta, inclusive, que os alimentos processados e ricos em calorias podem ser os responsáveis pela epidemia de alergia alimentar em crianças.

Os estudiosos descobriram que os produtos finais de glicação avançada (AGEs), encontrados em abundância nos junk foods, auxiliam no desenvolvimento de alergias alimentares. Os AGEs são proteínas ou lipídios que fazem parte do metabolismo normal do organismo humano, mas, se forem expostos a altos níveis de açúcares — o que acontece quando se segue as calóricas dietas da atualidade — podem se tornar patogênicos.

Os AGEs já são conhecidos por estarem ligados ao desenvolvimento e à progressão de diversas doenças, incluindo diabetes, aterosclerose e distúrbios neurológicos. Mas é a primeira vez que essas proteínas são relacionadas à alergia alimentar. Para isso, a equipe liderada por Roberto Berni Canani realizou um estudo clínico com 61 crianças de 6 a 12 anos, divididas em três grupos: algumas com alergias alimentares, outras com alergia respiratória e, por último, as mais saudáveis. Foram analisados níveis de AGEs na dieta dos participantes por meio de um leitor tecnológico, além de aplicado um questionário sobre frequência alimentar.

Os resultados mostram que as crianças com alergias alimentares apresentaram níveis mais elevados de AGEs nas dietas do que as que não tinham o problema. Para os cientistas, foram encontradas evidências convincentes relacionadas ao mecanismo de ação dos AGEs na determinação da alergia alimentar. “Existe uma correlação entre os níveis subcutâneos dos AGEs e o consumo de junk foods. Uma dieta com baixos níveis de AGEs pode prevenir a ocorrência de alergias alimentares”, destaca Roberto Berni Canani, também professor de pediatria e chefe do Programa de Alergia Pediátrica do Departamento de Ciências Médicas Translacionais na universidade italiana.
Inovação
Delmir Rodrigues, endocrinologista e nutrólogo pediátrico e do adolescente, ressalta que esses resultados são plausíveis. “Trata-se de um estudo científico com uma boa metodologia, tendo uma hipótese intrigante para muitos ramos da medicina”,  evidencia. Segundo o especialista, geralmente, a alergia alimentar começa na infância, mas pode ocorrer em qualquer idade. “Muitas crianças se livram da doença conforme envelhecem, mas em algumas podem durar a vida toda”, afirma.

Para Amanda Rosa Leal, professora de gastroenterologia do curso de Medicina do Centro Universitário João Pessoa (Unipê), o estudo italiano é inovador, ao correlacionar alergias alimentares com a qualidade dos alimentos consumidos. “O reconhecimento da relação entre alergias e o consumo de determinados alimentos com alto teor calórico, mas com níveis reduzidos de nutrientes, pode melhor favorecer monitoramentos e, principalmente, estabelecer intervenções seguras na sua limitação e exclusão, permitindo uma melhor qualidade de vida e a prevenção de doenças”, explica.

De acordo com Roberto Berni, até o momento, as hipóteses e modelos existente sobre alergia alimentar não explicam adequadamente o aumento dramático da complicação observado nos últimos anos. Ele acredita que os resultados obtidos por ele e a equipe vão abrir caminho para futuras investigações na área.“Se essa ligação for confirmada, fortalecerá a defesa dos governos nacionais para melhorar as intervenções de saúde pública para restringir o consumo de junk food em crianças”, aposta o pesquisador.

A alergista Ana Carolina Rozalem, membro do Departamento Científico de Alergia Alimentar da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (ASBAI), também acredita no uso público dessas constatações. “Elucidar mais uma consequência da ingestão de junk ou fast food pode engrossar o coro no sentido de desestimular esse hábito e de criarmos medidas públicas para impedir o consumo”, explica.



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