pesquisa Dor fantasma não acomete apenas pessoas que perderam um membro, diz estudo

Por: Vilhena Soares - Correio Braziliense

Publicado em: 25/06/2019 08:11 Atualizado em:

Pesquisa mostra que é possível ter a falsa sensação de toque ao cruzar os braços ou as pernas. Foto: Bielefeld University/Divulgação
Pesquisa mostra que é possível ter a falsa sensação de toque ao cruzar os braços ou as pernas. Foto: Bielefeld University/Divulgação
Pessoas que perderam o braço ou a perna podem sentir uma falsa sensação de toque, fenômeno chamado membro fantasma. Cientistas alemães resolveram investigar os fatores envolvidos nessa síndrome e se surpreenderam ao constatar que ela também pode acometer pessoas não amputadas. A equipe conseguiu ainda identificar mecanismos neurais relacionados à condição, considerada uma das mais intrigantes da medicina. Os resultados do trabalho foram publicados na revista especializada Current Biology. 

Tobias Heed, um dos autores do estudo e pesquisador do Departamento de Psicologia da Universidade de Bielefeld, na Alemanha, conta que existem limitações relacionadas às explicações sobre como e onde os processos cerebrais se modificam em pessoas que tiveram partes do corpo amputadas ou sofrem doenças neurológicas. Para entender melhor o fenômeno, ele e sua equipe resolveram investigar indivíduos em condição oposta.

No experimento, afixaram estimuladores táteis — aparelhos que provocam sensações na pele — nas mãos e nos pés de voluntários, que receberam toques sucessivos em duas partes diferentes do corpo, como no pé esquerdo e no direito. Depois, os participantes relataram ou mostraram onde sentiram o primeiro toque. Esse processo foi repetido centenas de vezes em cada indivíduo. Em alguns casos, os participantes tiveram que cruzar os pés ou as mãos, em outros, deixaram os membros nas posições normais.

Os resultados revelaram que a síndrome do membro fantasma não acomete apenas os amputados. “Notavelmente, em 8% dos casos, os sujeitos atribuíram o primeiro toque a uma parte do corpo que ainda não havia sido tocada. Esse é um tipo de sensação fantasma”, afirma Stephanie Badde, principal autora do estudo e também pesquisadora da universidade alemã. “Ao mostrarmos que adultos saudáveis atribuíam erroneamente o toque nas mãos aos pés e vice-versa, comprovamos que esse fenômeno pode ocorrer em qualquer pessoa”, complementa Tobias Heed.

Mapa cerebral
Segundo os autores do estudo, pesquisas anteriores defendem a tese de que a sensação de toque no corpo é coordenada devido a uma espécie de mapa neural, um sistema anatômico de referência. Os novos dados, porém, expandem essa teoria. “Os cientistas pensavam que nossa percepção consciente de onde um toque ocorre se dá graças a um mapa topográfico no cérebro. Seguindo essa suposição, partes do corpo, como mãos, pés e face, são representadas nesse mapa.  Nossas descobertas, no entanto, demonstram que outras características também são usadas para definir o toque em partes do corpo”, detalha Tobias Heed.

Os cientistas acreditam que deixar os membros em posições diferentes das usuais é um dos fatores que influencia a sensação. “Por exemplo, ao cruzar as pernas, o sistema de coordenadas externas localiza a perna esquerda como estando do lado direito”, ilustra o pesquisador. “Acreditamos que o mais importante é a identidade do membro. Se estamos lidando com uma mão ou com um pé. É por isso que um toque em uma mão é frequentemente percebido pela outra mão.”

Novas pesquisas
Para a equipe, os dados ajudam a entender melhor como o  cérebro reconhece o próprio corpo, informações que podem ser exploradas na área médica. “As descobertas poderiam ser usadas, por exemplo, para impulsionar novas pesquisas sobre a gênese da dor fantasma. Os desenvolvimentos que usam o toque em sistemas artificiais se baseiam na suposição de que a questão do toque deve ser resolvida usando esse mapa mental. Mas pode ser que outros princípios de processamento sejam mais eficientes para alguns tipos de comportamento”, diz Tobias Heed. 

Cláudio Carneiro, coordenador de cardiologia do Hospital Santa Lúcia, em Brasília, e membro titular da Sociedade Brasileira de Neurologia (SBN), acredita que o estudo alemão traz informações interessantes, que reforçam o quanto o cérebro humano influencia o controle dos membros do corpo. “Esses dados corroboram o quanto a representação cortical dos membros é grande. Vemos também isso quando a pessoa passa a usar mais um membro. Por exemplo, ela faz mais tarefas com a mão esquerda porque não tem a direita. Com o tempo, o cérebro trabalha de uma forma que essa mão se torna mais habilidosa”, detalha.

O especialista também acredita que os dados obtidos pelos pesquisadores da Alemanha poderão ser usados na área médica. “Decifrando esses códigos, podemos entender melhor esse problema que acomete tantas pessoas. É difícil para muitos, pois eles sentem dores, e como você vai tratar uma dor em um membro fantasma? Com essas informações, podem surgir alternativas para esses casos”, opina.


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