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Cientistas avançam na luta contra a malária, doença que afeta 200 milhões

Publicado em: 02/03/2019 15:37

foto: Albert Gonzalez Farran/AFP
 
Mosquitos que posam em superfícies cobertas com o composto atovaquona ficaram imunes à infecção pelo Plasmodium falcíparum, o parasita que causa malária, segundo estudo da Escola de Saúde Pública T.H. Chan, de Harvard. A pesquisa, publicada nesta semana na revista Nature, mostrou que esse ingrediente ativo de medicamentos usados em humanos para prevenir e tratar a doença pode ser absorvido pelas patas do inseto, prevenindo o desenvolvimento do protozoário. Segundo os autores, a descoberta indica que usar a substância em mosquiteiros ou em outros artefatos similares pode ser uma forma efetiva de reduzir o fardo da malária e, ao mesmo tempo, mitigar significativamente o crescimento do problema da resistência a inseticidas.

“Mosquitos são organismos incrivelmente resilientes que desenvolveram resistência contra todo inseticida que já foi usado para matá-los. Ao eliminar os parasitas da malária dentro do mosquito em vez de matar o próprio inseto, podemos contornar a resistência e, efetivamente, prevenir a transmissão da doença”, diz Flaminia Catteruccia, professora de imunologia e doenças infecciosas. “O uso de antimaláricos nos mosquiteiros pode ajudar a eliminar essa doença devastadora. É uma ideia simples, mas inovadora, que é segura para pessoas que usam essas redes, além de ambientalmente correta.”

Quase metade da população mundial está sob risco de contrair malária. Anualmente, mais de 200 milhões de pessoas ficam doentes e mais de 400 mil morrem da enfermidade, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Nos últimos 20 anos, mosquiteiros tratados com inseticidas de longa duração reduziram significativamente o fardo global da doença. Estima-se que as redes sejam responsáveis por 68% dos casos evitados desde 2000. Recentemente, porém, surgiram mosquitos resistentes aos produtos mais comumente usados. Em alguns pontos de maior prevalência da malária, a resistência é quase total aos piretoides, um dos grupos-chave de inseticidas usados atualmente.

Vetor

No estudo publicado da Nature, os pesquisadores raciocinaram que poderiam introduzir compostos antimaláricos nos mosquitos Anopheles, os vetores da doença, de uma maneira similar ao que ocorre quando o inseto entra em contato com um mosquiteiro. Em vez de matá-lo, o objetivo é tratá-lo profilaticamente, de forma que não possa desenvolver nem transmitir o parasita causador da malária. Para testar a abordagem, os cientistas passaram atovaquona em superfícies de vidro e as cobriram com copos de plástico. Fêmeas de Anopheles foram colocadas dentro do recipiente. Antes ou imediatamente depois, elas foram infectadas com o protozoário.

Porém, o desenvolvimento do Plasmodium no organismo dos mosquitos foi completamente bloqueado, mesmo com baixas concentrações do atovaquona e quando expostos por seis minutos, o que é comparável ao tempo que mosquitos selvagens passam nas redes tratadas com inseticidas. O resultado foi o mesmo quando foram usados compostos similares ao medicamento. O atovaquona matou os parasitas sem provocar efeitos no tempo de vida ou na reprodução dos mosquitos.

“Quando colocamos esses dados em um modelo matemático usando dados reais de resistência a inseticidas, cobertura de mosquiteiros e prevalência de malária, o resultado mostrou que suplementar as redes convencionais com compostos como o atovaquona pode reduzir consideravelmente a transmissão da malária sob quase todas as condições das quais tínhamos informações disponíveis”, diz Douglas Paton, pesquisador e principal autor do estudo. “O que realmente nos animou é que o modelo também mostrou que a nova intervenção pode ter grande impacto em áreas com maiores níveis de resistência a inseticidas.”

68%
Dos casos da doença evitados no mundo desde de 2000 se deram em função do uso de mosquiteiros

"Ao eliminar os parasitas da malária dentro do mosquito em vez de matar o próprio inseto, podemos contornar a resistência e, efetivamente, prevenir a transmissão da doença”
Flaminia Catteruccia, professora de imunologia e doenças infecciosas da Escola de Saúde Pública T.H. Chan, de Harvard
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Há 100 milhões de anos
 
A análise do fóssil de um mosquito encontrado em Myanmar, na Ásia, sinaliza que esses insetos podem estar desempenhando o papel de vetor da malária há 100 milhões de anos. Os pesquisadores da Universidade de Oregon, nos Estados Unidos, estudaram restos de um Priscoculex burmanicus e chegaram à conclusão de que ele tinha muitas semelhanças com os Anopheles, responsáveis pela transmissão da malária em diversas partes do mundo.  Antenas, abdômen, veias de asas e a probóscide, um tipo de boca longa que suga o sangue, estão entre as características em comum. Segundo George Poinar Jr, um dos responsáveis pelo estudo, os animais antigos podem ter “carregado a malária na época”. “Mas essa ainda é uma questão em aberto”, pondera. Os resultados do trabalho foram divulgados, mês passado, na revista Historical Biology.
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