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Poluição

Apenas 6,5% dos rios brasileiros têm boa qualidade da água, aponta estudo

Publicado em: 23/03/2019 09:16

Poluição nos rios: a população se acostumou com a falta de peixes, de vida e o mau cheio das águas, diz especialista da USP. Foto: Rafael Pacheco/Divulgação
 
No Dia Mundial da Água, data escolhida para reflexão sobre a relação do homem com os recursos hídricos, o relatório O retrato da qualidade da água nas bacias da Mata Atlântica, divulgado pela Fundação SOS Mata Atlântica, mostra que, em geral, o relacionamento da sociedade brasileira com os rios não é bom. Isso porque os dados indicam que dos 278 pontos de coleta de água monitorados, apenas 18 deles (6,5%) apresentam qualidade boa. Nenhum conseguiu atingir o status de ‘ótimo’.

A maioria dos rios, 74,5%, tem qualidade regular, enquanto 17,6% são considerados ruins e 1,4% péssimos. Logo, grande parte dos cursos de água perde, lentamente, a capacidade de abastecer a população, promover lazer para a sociedade e ser um ambiente saudável e propício para seres aquáticos. A especialista em água e assessora da Fundação SOS Mata Atlântica Malu Ribeiro acredita que o estudo serve para chamar a atenção da população. “É um sinal de alerta, porque a condição regular não é a ideal. É uma condição muito frágil”, ressalta.

Apesar de Malu, avaliar a condição regular — na qual a maioria dos rios foram classificados — como um sinal amarelo, ela explica que nessa situação, o rio ainda tem a capacidade de diluir poluentes que recebe. No entanto, qualquer mudança climática, como uma seca, pode fazer com que perca a eficácia e passe a ser classificado como ruim. “Além disso, dentro da situação regular, para a água chegar até uma qualidade boa, o tratamento precisa ser mais eficiente, consequentemente mais caro. Ou seja, gera um impacto não só ao ambiente, como também à economia e à saúde”, expõe.

Especialistas e pesquisadores elegem a falta de saneamento básico e ambiental como o principal motivo da contaminação das águas. “As nossas cidades e atividades cresceram em um ritmo que o saneamento não acompanhou”, destaca Malu. Além disso, ela ressalta o aumento exponencial de fertilizantes químicos e as “tragédias anunciadas”, como o rompimento da barragem de Brumadinho (MG), como outros fatores de degradação.

Distrito Federal

No Distrito Federal, o Córrego do Urubu, localizado na Bacia do Lago Paranoá, no Lago Norte, foi o único rio analisado e apresentou qualidade de água regular. Muitos moradores da região concordam que a sujeira é absurda. Uma mulher, que preferiu não se identificar, criticou a poluição. “Uma vez encontrei cachorro e galinhas mortos”, relatou. Segundo ela, em época de chuva é quando costuma haver bastante resíduo no rio. “A enxurrada traz tudo, transborda e desce para o córrego”, contou a moradora, que não utiliza a água para consumo caseiro.

Polliana Case, 27 anos, é moradora da região há oito anos e não possui encanamento em casa. Apesar de buscar água toda semana em uma chácara no Paranoá para beber e cozinhar, ela capta recursos hídricos do córrego para tomar banho e lavar roupa. Polliana admite que a água é bastante suja, mas diz que nunca sofreu com nenhuma alergia. “Muitos vizinhos possuem poços artesianos, mas aqui ninguém se ajuda. Se fosse todo mundo unido não tínhamos que ir longe buscar água”, lamentou. Segundo ela, nunca houve presença de uma autoridade no local para tentar solucionar os problemas.

Obstáculos e soluções

Para o professor do curso de gestão ambiental na Universidade de São Paulo (USP) Marcelo Nolasco, a população se acomodou. “Nos acostumamos com o cheiro ruim, com um rio sem peixe e sem vida”, afirma. Ao debater a responsabilidade das condições dos rios brasileiros, Marcelo diz que parte dos políticos culpa a população, mas é importante entender o porquê isso acontece. “Na verdade, a sociedade brasileira foi muito mal-educada e isso faz com que não se enxergue as questões ambientais como pontos importantes”, lamenta.

Marcelo elogia o trabalho feito pela SOS Mata Atlântica. “A ONG consegue ser brilhante em cumprir essa missão de apontar uma problemática que já deveria chamar muita atenção dos nossos políticos”, reforça. O professor do programa de pós-graduação de sustentabilidade da USP acredita que o documento se torna ainda mais relevante pois, de acordo com ele, o país vive um momento conturbado em relação às questões ambientais. Malu concorda. “Para nós, é importante que a sociedade cobre ações efetivas dos governos estaduais e federais e isso mude”, frisa.

Projeto

Os dados divulgados foram produzidos pelo projeto Observando os Rios. A iniciativa conta com a participação de 3.500 voluntários que monitoraram 220 rios, de oito regiões hidrográficas do Brasil, entre março de 2018 e fevereiro de 2019.
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