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Saara muda a cada 20 mil anos, aponta estudo norte-americano

Publicado em: 16/01/2019 07:48

Modificação na rotação terrestre impacta nas monções africanas, que podem renovar o cenário saariano daqui a 10 mil anos. Foto: Fadel Senna/AFP
Imagine um lugar com inúmeros lagos, campos verdes e animais de diversos portes. Certamente, não virá um deserto à cabeça. Mas, de acordo com pesquisadores do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos Estados Unidos, é exatamente esse cenário que o Saara assume a cada 20 mil anos. Após analisar 240 mil anos de poeira da costa oeste da África, a equipe constatou que, no espaço de tempo descrito, a região muda de um “Saara Verde” — úmido e com fauna e flora ricas — para o conhecido deserto com mais de 9 milhões de quilômetros quadrados de areia e temperaturas de 50°C.

Detalhado recentemente na revista Science Advances, o estudo associa a alternância da paisagem com um movimento de inclinação da Terra chamado precessão, uma mudança no eixo de rotação que ocorre durante a órbita do Sol. Na prática, essas variações fazem a luz solar atingir o planeta no verão com intensidades diferentes, indo de muito forte para muito fraca a cada 20 mil anos. No Saara, há um impacto nas monções, os ventos periódicos que propiciam tanto a ocorrência de intensas chuvas em uma parte do ano quanto secas rigorosas em outra. De acordo com os pesquisadores estadunidenses, a influência da precessão da Terra sobre as monções seria tão grande a ponto de mudar radicalmente o retrato do deserto.

A partir de artes rupestres descobertas há poucos anos no norte da África, arqueólogos já suspeitavam da existência de um Saara diferente do atual. Contudo, de acordo com David McGee, professor do Departamento de Terra, Atmosfera e Ciências Planetárias do MIT e participante da pesquisa, a maioria das pesquisas de paleoclimatólogos associa a alternância do clima com os ciclos glaciais da Terra, de 100 mil anos. Isso porque, para estudar o passado climático saariano, muitos pesquisadores analisam sedimentos retirados do leito oceânico da costa oeste da África, resultado dos ventos do nordeste, que varrem centenas de milhões de toneladas de poeira do deserto para o Oceano Atlântico. Dessa forma, camadas de pó mais espessas podem indicar períodos mais áridos, enquanto as que contêm menos poeira podem sinalizar eras mais úmidas.

O padrão observado anteriormente era de que a densidade das camadas permanecia praticamente a mesma em um período de 100 mil anos. Mas nem todos os estudiosos se contentaram com essa associação. “Ficamos intrigados com o fato de que a batida de 20 mil anos de insolação local no verão parecia ser a coisa dominante, que controla a força das monções no Saara. Mesmo assim, os registros de poeira mostravam os ciclos de 100 mil anos”, explica, em comunicado, McGee.

Efeito disseminado
Para estudar os sedimentos, a equipe do MIT analisou partes de núcleos de sedimentos retirados do leito oceânico da costa oeste da África, igual a trabalhos anteriores. Ao todo, foram reunidos 240 mil anos de poeira saariana. Para observar a rapidez com que os resíduos se acumularam no fundo do mar, McGee e colegas decidiram medir a concentração de um elemento químico variante do tório na peça estudada. A substância é produzida a taxa constante no oceano e se fixa rapidamente a sedimentos afundados. Assim, durante períodos de lenta acumulação de poeira, o tório aparece mais concentrado, enquanto em tempos de rápido acúmulo, mais diluído.

Ao fim das observações, constatou-se um padrão diferente. “O que descobrimos foi que alguns dos picos de acúmulo nos núcleos foram causados por aumentos na deposição de poeira no oceano, mas outros foram simplesmente por conta da dissolução de uma substância no mar, o carbonato. Quando o gelo envelhecia nesta região do oceano, o mar ficava mais ácido e corrosivo para o carbonato de cálcio”, explica ao Correio McGee. O efeito de corrosão da substância, segundo o professor, causava uma falsa impressão de acúmulo de poeira nos sedimentos, e, por isso, favorecia a sequência de 100 mil anos.

Para Francesco Pausata, especialista em estudos climáticos no Saara, o que chama a atenção no estudo é a associação com as monções. “É muito importante estudar as mudanças ocorridas no passado, ainda mais a força da monção oeste africana, porque nós podemos compreender melhor a dinâmica desse fenômeno e as conexões com o clima em outras áreas do mundo”, diz o também professor do Departamento de Ciências Terrestres e Atmosféricas da Universidade do Quebec em Montreal (UQAM), no Canadá.

Segundo o especialista, mudanças na monção africana são capazes de afetar diversas partes do clima da Terra, como a ocorrência de precipitação na Amazônia e no Ártico. “Uma monção mais forte no oeste africano geralmente leva a Amazônia a um clima mais seco e o Ártico a um clima mais quente. Por isso, é crucial compreender a evolução da monção africana, para restringir sua evolução e potenciais impactos futuros”, explica.
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