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Notícia de Ciência e Saúde

Fiocruz

Projeto quer identificar vírus que possam causar a próxima pandemia

De acordo com Morel, estima-se que cerca de 1,6 milhão de vírus que circulam no planeta ainda seja completamente desconhecidos pela ciência

Por: AE

Publicado em: 22/02/2018 23:00


O lançamento da iniciativa, batizada de Projeto Viroma Global, está previsto para o fim de 2018. Foto: Sentara Healthcare/Flickr (Foto: Sentara Healthcare/Flickr)
O lançamento da iniciativa, batizada de Projeto Viroma Global, está previsto para o fim de 2018. Foto: Sentara Healthcare/Flickr (Foto: Sentara Healthcare/Flickr)


Um grupo internacional de cientistas lançará uma força-tarefa mundial com o objetivo de identificar novos vírus que poderão ameaçar a humanidade no futuro. O anúncio da iniciativa foi feito em um artigo publicado nesta quinta-feira, 22, na revista Science e assinado por 10 cientistas, incluindo o médico e biofísico brasileiro Carlos Morel, pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e coordenador do Instituto Nacional de Inovação em Doenças Negligenciadas.

Os autores do artigo afirmam que o projeto permitirá acelerar o passo da descoberta de novos vírus em um ritmo sem precedentes, gerando um enorme volume de dados e tornando o combate a futuras pandemias mais efetivo, ao acelerar o desenvolvimento de vacinas drogas e terapias.

De acordo com Morel, estima-se que cerca de 1,6 milhão de vírus que circulam no planeta ainda seja completamente desconhecidos pela ciência e que entre 600 mil e 800 mil deles sejam capazes de infectar humanos - e eventualmente causar epidemias. 

"Há uma enorme defasagem entre nossa capacidade de descobrir vírus desconhecidos e a taxa de surgimento de novos vírus. Estamos sempre um passo atrás", disse Morel à reportagem. 

O lançamento da iniciativa, batizada de Projeto Viroma Global, está previsto para o fim de 2018. Segundo Morel, o objetivo é identificar o maior número possível de vírus e fornecer dados que sejam úteis para intervenções de saúde pública em futuras epidemias. De acordo com o pesquisador, o artigo na Science é um chamado para que a comunidade científica e a sociedade percebam a importância de se identificar os vírus desconhecidos. 

"É fundamental conhecermos os candidatos a causar a próxima grande pandemia. Quando há uma epidemia e o vírus é totalmente desconhecido, temos que começar todos os estudos da estaca zero, perdendo um tempo precioso até que seja possível desenvolver vacinas e terapias. Além disso, a evolução dos vírus é muito rápida e o tempo todo surgem novas ameaças", explicou Morel.

A Síndrome Respiratória Aguda Severa (Sars, na sigla em inglês), que teve início na China em 2003 e se espalhou por todo o mundo, foi um exemplo de como é difícil criar formas de combate a surtos de vírus inicialmente desconhecidos. "A pandemia ocorreu há 15 anos e até hoje não temos uma vacina", disse Morel.

Segundo o cientista, assim como a Sars quase todas as pandemias registradas recentemente tiveram origens em animais e, por isso, o projeto terá foco nos vírus cujos vetores são mamíferos e aves. 

Há dois alvos principais para a busca de novos vírus, segundo Morel. Um deles está nos locais onda há muita biodiversidade, com grande quantidade de aves - que são notoriamente potenciais transmissores. O outro está nos locais populosos onde há um contato muito estreito entre pessoas e aves ou mamíferos, como os mercados da China, por exemplo.

"Para explicar de forma simples, podemos dizer que os vírus como os da gripe têm o genoma partido em pedacinhos. Se houver dois vírus diferentes circulando juntos, um deles em humanos e outro em suínos, por exemplo, é possível que esses pedacinhos se misturem, gerando um novo vírus", explicou Morel.

De acordo com Morel, a identificação de novos vírus é extremamente cara, porque é preciso treinar grandes equipes capazes de coletar amostras de vírus perigosos em diversas partes do mundo. Estima-se que a identificação de todos os 1,6 milhão de vírus previstos será preciso investir cerca de US$ 7 bilhões. No entanto, a taxa de descoberta de novos vírus é muito maior no início do processo de coleta de amostras e, por isso, com US$ 1,2 bilhão já seria possível descobrir e avaliar os riscos de 71% dos vírus que infectam animais.

"O investimento é alto, mas temos que levar em conta que os custos de uma epidemia também são extremamente elevados. A epidemia de Sars, por exemplo, devastou a indústria do turismo no Canadá, resultando em prejuízos de milhões de dólares. Precisamos ter sempre em mente que é preciso investir para evitar uma epidemia que poderia causar prejuízos catastróficos, tanto do ponto de vista econômico como social e de saúde pública", disse o cientista.

De acordo com o artigo na Science, as questões relacionadas à gestão, operação técnica e governança do projeto já vêm sendo alinhavadas desde 2016 por diversos parceiros na Ásia, África, Europa e Américas, envolvendo a indústria, a academia, agências intergovernamentais, organizações não governamentais e o setor privado. O trabalho de campo para a "caça" aos vírus desconhecidos começará na China e na Tailândia, ainda neste ano.

"A natureza colaborativa internacional e o seu caráter global do projeto deverão ajudar no levantamento de fundos junto a diversos doadores internacionais, incluindo agências governamentais com foco em saúde e doadores filantrópicos com foco em tecnologia e ciência", informou o texto.

Além de Morel, os outros autores do artigo são Dennis Carroll, da Agência de Desenvolvimento Internacional dos Estados Unidos; Peter Daszak, da EcoHealth Alliance (Estados Unidos); Nathan Wolfe, da Metabiota (Estados Unidos); George Gao, do CDC China; Subhash Morzaria, da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO, na sigla em inglês); Ariel Pablos-Méndez, da Universidade Columbia (Estados Unidos); Oyewale Tomori, da Academia Nigeriana de Ciências; e Jonna Mazet do Instituto One Health.
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Resistência nordestina em cartaz

Diego Rocha *
Celebrando a resistência da arte nordestina e a arte nordestina de resistir, o 21º Festival Recife do Teatro Nacional está em cartaz na cidade para confirmar a vocação de um povo à resiliência e à criatividade. Até o próximo dia 24, a programação montada com muita assertividade pela Prefeitura do Recife irá apresentar 12 espetáculos em vários teatros da cidade, entre eles seis montagens nacionais jamais vistas na capital do Nordeste.
Mas não está toda no ineditismo a urgência que esses espetáculos carregam. Mas também e principalmente na referência e reverência que muitos fazem à estética e às temáticas fincadas no árido solo fértil do Nordeste. Alguns textos, como o da montagem Ariano %u2013 O Cavaleiro Sertanejo, da companhia carioca Os Ciclomáticos sequer foram produzidos no Nordeste. Mas sabem, bebem e comungam do povo que somos. Foram buscar inspiração em autores ensolarados como Ariano Suassuna e os tantos tipos e símbolos que ele fundou e transportou do imaginário nordestino para o mundo.
Há na programação citações ainda mais explícitas à nossa produção teatral. Parido do punho do próprio Ariano, em carne e pena, o clássico Auto da Compadecida chega ao Festival com sotaque mineiro, numa belíssima montagem do Grupo Maria Cutia, com a direção cênica precisa e sensível de Gabriel Villela, que conseguiu unir a cultura do cangaço pernambucano ao barroco mineiro, sem sair da trilha aberta pelo Movimento Armorial de Ariano.
São montagens que nos representam e, ao mesmo tempo, nos apresentam a nós mesmos, além de nos hastear bandeira a congregar territórios artísticos, afetivos e cívicos, num país assombrado e repartido por um projeto de poder excludente. Em cima e embaixo dos palcos, durante e depois do 21º Festival Recife do Teatro Nacional, que a arte e a força nordestina persistam farol aceso a nos guiar.

* Presidente da Fundação de Cultura Cidade do Recife

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