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Notícia de Ciência e Saúde

Hormônio natural

Estudo: ação do hormônio kisspeptina pode tratar ausência de desejo sexual

Interferir na ação da kisspeptina torna ratos mais sociáveis e propensos à procriação, segundo experimento; resultados abrem a possibilidade de desenvolvimento de remédios que tratem, em humanos, a ausência de desejo vinculada à ansiedade

Publicado em: 16/01/2018 20:27

Foto: Anderson Araújo/CB/D.A Press
Aumentar a atividade de um hormônio natural pode ajudar a reduzir a ansiedade e ainda impulsionar o desejo sexual. É o que mostra um estudo realizado por cientistas britânicos. Por meio de drogas, pesquisadores estimularam a ação da kisspeptina em camundongos machos e observaram que os animais ficaram mais sociáveis, se mostrando mais propensos ao ato sexual, e sofreram redução de sintomas relacionados à ansiedade. Os investigadores acreditam que, caso o mesmo resultado seja  detectado em roedores fêmeas, abre-se a possibilidade de desenvolvimento de uma nova intervenção para tratar a ausência de desejo sexual em humanos.

Em pesquisas anteriores, a mesma equipe identificou que os nerônios que respondem à liberação da kisspeptina estão presentes na glândula pituitária — região cerebral relacionada aos principais hormônios do corpo — e na amígdala, estrutura neural que desempenha papel importante no processamento das emoções. “A amígdala faz parte do sistema límbico, envolvido na regulação do comportamento sociossexual. Mas não se sabe muito sobre o tipo de célula neuronal que medeia esses comportamentos”, explica ao Correio Daniel Adekunbi, um dos autores e pesquisador do King’s College de Londres, no Reino Unido.

Segundo o cientista, a descoberta de uma “significativa população de neurônios da kisspeptina” nessa região os levou à hipótese de que esse hormônio poderia estar envolvido na regulação do processamento emocional e do comportamento sexual. Para testar a ideia, a equipe usou uma série de drogas capazes de ativar e desativar a ação da kisspeptina em ratos machos. Os cientistas notaram que, quando as células nervosas que respondem ao hormônio foram ativadas, as cobaias demonstraram comportamento menos ansioso e interagiram mais com companheiras de espécie. O mesmo não ocorreu quando a ação da kisspeptina foi desativada.
 
Para os pesquisadores, as constatações indicam que os neurônios que respondem a esse hormônio estão coordenando a motivação sexual e os comportamentos de ansiedade de maneira que encoraja o sexo e, portanto, aumenta as chances de reprodução bem-sucedida. “Observamos que a ativação de neurônios da amígdala ligados à kisspeptina modulam a resposta ansiolítica de forma positiva para a cópula. Isso mostra o papel promissor desse hormônio como agente terapêutico para a disfunção sexual relacionada à ansiedade”, destaca Adekunbi.

Inovação
 
Fabio Pasqualoto, urologista e membro da Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida, destaca que a pesquisa foge do convencional e apresenta detalhes altamente relevantes relacionados ao desejo sexual. Caso os efeitos se repitam em humanos, trariam um grande ganho para a área médica, segundo o especialista. “Muitas pessoas ficam inibidas ao chegar perto do sexo oposto e evitam se aproximar. Por isso, muitos homens precisam beber álcool para abordar as mulheres. Isso está ligado à ansiedade. Vemos nesse estudo que o estímulo abordado pelos cientistas reverteu esse comportamento nos ratos. Conseguir repetir o mesmo efeito em humanos seria um grande ganho”, destaca.

Antes de chegar aos testes clínicos, os investigadores pretendem realizar experimentos em ratos fêmeas. Pasqualoto acredita que observar se o mecanismo ocorrerá em animais do sexo feminino é de suma importância para o futuro da pesquisa. “Temos a redução de desejo em homens e em mulheres. Caso essa estratégia se mostre efetiva em ambos os gêneros, o seu uso pode ser amplo e beneficiá-los da mesma forma. Medicamentos como o viagra, por exemplo, provocam o aumento sanguíneo do pênis, não o desejo. É apenas a mecânica. Um remédio que trate diretamente o desejo é algo que seria bastante interessante e poderia ser usado de forma combinada com essas outras opções”, diz o urologista.

Adekunbi adianta que outros mecanismos ainda precisam ser entendidos para que os resultados possam ser desdobrados. Criar uma forma de silenciar a kisspeptina na amígdala e investigar a reversibilidade desses resultados são alguns desses novos desafios. “Isso também poderá ser útil para decifrar com precisão o papel desse hormônio na orientação sexual”, complementa o cientista.

Os resultados já obtidos, porém, são suficientes para que ele e a equipe fiquem otimistas com os frutos que poderão ser colhidos com o trabalho desenvolvido, incluindo a criação de medicamentos para estimular o desejo sexual e a redução de ansiedade. “Esse estudo forneceu evidências de que a kisspeptina na amígdala tem um papel na motivação sexual, e isso pode ser potencialmente útil contra o desinteresse sexual. Esses achados podem ser relevantes para ausência de desejo relacionada ao estresse e à ansiedade, podendo, assim, levar ao tratamento para a disfunção sexual na sociedade”, destacou o autor.
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Resistência nordestina em cartaz

Diego Rocha *
Celebrando a resistência da arte nordestina e a arte nordestina de resistir, o 21º Festival Recife do Teatro Nacional está em cartaz na cidade para confirmar a vocação de um povo à resiliência e à criatividade. Até o próximo dia 24, a programação montada com muita assertividade pela Prefeitura do Recife irá apresentar 12 espetáculos em vários teatros da cidade, entre eles seis montagens nacionais jamais vistas na capital do Nordeste.
Mas não está toda no ineditismo a urgência que esses espetáculos carregam. Mas também e principalmente na referência e reverência que muitos fazem à estética e às temáticas fincadas no árido solo fértil do Nordeste. Alguns textos, como o da montagem Ariano %u2013 O Cavaleiro Sertanejo, da companhia carioca Os Ciclomáticos sequer foram produzidos no Nordeste. Mas sabem, bebem e comungam do povo que somos. Foram buscar inspiração em autores ensolarados como Ariano Suassuna e os tantos tipos e símbolos que ele fundou e transportou do imaginário nordestino para o mundo.
Há na programação citações ainda mais explícitas à nossa produção teatral. Parido do punho do próprio Ariano, em carne e pena, o clássico Auto da Compadecida chega ao Festival com sotaque mineiro, numa belíssima montagem do Grupo Maria Cutia, com a direção cênica precisa e sensível de Gabriel Villela, que conseguiu unir a cultura do cangaço pernambucano ao barroco mineiro, sem sair da trilha aberta pelo Movimento Armorial de Ariano.
São montagens que nos representam e, ao mesmo tempo, nos apresentam a nós mesmos, além de nos hastear bandeira a congregar territórios artísticos, afetivos e cívicos, num país assombrado e repartido por um projeto de poder excludente. Em cima e embaixo dos palcos, durante e depois do 21º Festival Recife do Teatro Nacional, que a arte e a força nordestina persistam farol aceso a nos guiar.

* Presidente da Fundação de Cultura Cidade do Recife

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